São Paulo – Algumas abriram as portas no final do século 19, outras no começo do século 20 e outras na metade. De lá para cá a economia brasileira deu voltas, o dólar oscilou, vieram os importados, os estrangeiros e seu capital, as grandes redes de varejo. Mas elas permaneceram ali, de portas abertas, nas mãos das mesmas famílias proprietárias, vendendo agulhas, bordados, tapetes, tecidos, roupas de cama. São lojas da rua 25 de Março, como Armarinho Ambar, que foram fundadas por imigrantes árabes, muitas na própria época da imigração, e permanecem em plena atividade até hoje.
“Nós começamos como armarinho e até hoje somos armarinhos. O cliente sabe onde está entrando, qual é a nossa política de preços, entra aqui com confiança, sabe que não ficamos oscilando, que não ficamos mudando de endereço, de galho em galho”, diz um dos proprietários do Armarinho Ambar, Elias Ambar, a respeito dos motivos aos quais ele atribui a loja permanecer na região da rua 25 de Março por quase 60 anos. O Armarinho Ambar foi fundado pelo imigrante libanês Georges Ambar em 1953. Ele foi aberto nas imediações da rua e mudou-se para a 25 de Março, onde hoje tem duas lojas, nos anos 60. (assista entrevista de Elias no link abaixo da matéria).
Elias afirma que viu, ao longo dos anos, algumas lojas da rua 25 de Março, que eram de árabes, mudarem de donos. “O pessoal muda de foco, como já está bem estabelecido, tem outras oportunidades, abandona a atividade comercial, ou a segunda geração parte para outra área”, explica. De acordo com o vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo, Roberto Mateus Ordine, o comércio da rua 25 de Março, no entanto, ainda é de domínio dos comerciantes de origem árabe. Ele compara a outras ruas ou bairros comerciais, como o Bom Retiro, cujas lojas eram prioritariamente de judeus e hoje estão nas mãos de asiáticos, e afirma que na rua 25 de Março este fenômeno foi bem menor.
Para Ordine, dois fatores fazem os árabes permanecerem bem estabelecidos com suas lojas ao longo dos anos na rua 25 de Março e imediações. “Primeiro, pelo ponto comercial que se estabeleceu na região, que é muito favorável. Segundo, pela tradição que os árabes têm no comércio. O ponto se revelou próprio para isso. Diferente da indústria que tem que correr atrás dos clientes, na rua 25 de Março o cliente vem procurar”, afirma. Segundo ele, os asiáticos que compraram lojas na região entraram, principalmente, na lacuna deixada pelos nortistas, que também estiveram entre os primeiros comerciantes da rua.
Apesar do talento natural dos árabes para o comércio, Ordine afirma que viu as lojas das famílias de imigrantes se modernizarem ao longo dos anos. Máquinas de escrever, caixas registradoras antigas, tudo ficou para trás, segundo ele. De fato, no Armarinho Ambar, por exemplo, os três filhos do fundador que atualmente levam o negócio adiante, João, Roberto e Elias, são graduados. Elias se formou em Administração de Empresas. Apesar de este não ser o seu principal canal de vendas, o Ambar mantém um site com vendas online. Estar informado sobre as tendências de moda é outra regra que a loja faz questão de seguir.
De acordo com Elias, a chegada de novos empresários na rua, chineses, indianos e coreanos, fez o comércio que já estava estabelecido também correr atrás de melhorias. “Toda vez que chega um chinês, um coreano e monta uma loja com decoração nova, tudo novo, trazendo outros produtos, as outras são obrigadas a correr atrás de mudanças. Com isso, a rua 25 de Março e região está revitalizada, tanto em termos de fachadas, aparência das lojas, como em diversificação de produtos, agilidade em oferecer bons negócios”, afirma Elias.
Mas e o velho jeito árabe de negociar permanece entre os filhos e netos de imigrantes? De acordo com Elias, ele e seus irmãos conservam, da maneira como seu pai comerciava, uma característica: os bons princípios. “Antigamente existia muito corpo a corpo, o contato com as fábricas era mais direto, mais fácil. Hoje existe um certo distanciamento”, afirma. Atualmente é a segunda geração da família quem cuida das lojas do Armarinho Ambar, mas um dos netos de Georges – a terceira geração – já está ajudando nos negócios. As duas lojas do Armarinhos Ambar empregam cerca de 70 pessoas.

