São Paulo – Mesmo com a economia mundial em crise, as empresas multinacionais continuam a apostar no mercado brasileiro. O país recebeu US$ 12,6 bilhões em investimentos estrangeiros diretos (IED) no primeiro semestre, segundo informações do Banco Central (BC). Embora o valor seja menor do que o do mesmo período do ano passado, ainda assim as previsões dos analistas colocam o resultado anual como o terceiro melhor da década, atrás apenas de 2007 e 2008, quando o volume de recursos foi recorde.
“No primeiro semestre provavelmente entraram os níveis mais baixos do ano inteiro, agora os patamares mensais devem ser superiores”, disse o economista Luís Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet).
De acordo com a pesquisa semanal feita pelo BC junto a analistas de mercado, até o final do ano o ingresso de IED deverá chegar a US$ 25 bilhões. Lima acrescentou que a previsão da Sobeet para 2010, considerada conservadora, é de um fluxo de US$ 30 bilhões. Em 2011, em sua avaliação, o volume poderá retornar ao patamar de 2008, cerca de US$ 45 bilhões.
No primeiro semestre, o comportamento dos investimentos mudou em relação ao ano passado, tanto em termos de países de origem, quanto de setores de destino. A Holanda e a Alemanha passaram os Estados Unidos e a Espanha como os dois principais emissores de IED ao Brasil.
No caso da Holanda, segundo Lima, não quer dizer que os recursos sejam originários realmente de lá. É que o país, além de ser tradicional entreposto de mercadorias, está cada vez mais se tornando um pólo de distribuição de investimentos diretos. “Os holandeses têm acordos para evitar bitributação e de proteção de investimentos com vários outros países. Muitos investidores preferem fazer as transações via Holanda pelas facilidades, benefícios e garantias”, destacou o economista, acrescentando que o país não é um paraíso fiscal.
Um exemplo desse papel da Holanda ocorreu quando da fusão da brasileira AmBev com a belga Interbrew, que resultou na criação da InBev, hoje a maior cervejaria do mundo. As transferências para consolidação do negócio ocorreram em 2004 e, naquele ano, a Holanda também ficou em primeiro lugar na lista de emissores de IED, pois os investimentos passaram por lá, apesar de sua origem de fato ser a Bélgica.
Este ano, a Alemanha subiu de posição no ranking por causa da compra da divisão de caminhão e ônibus da Volkswagen, com sede no Brasil, pela alemã MAN. O negócio de 1,175 bilhão de euros foi anunciado em dezembro de 2008, mas consolidado este ano.
Posteriormente, no início deste mês, a Volkswagen do Brasil revelou que pretende ampliar sua produção de automóveis no país para 1 milhão de unidades anuais até 2012, um aumento de 39% sobre o total fabricado em 2008. Já em 2009, a montadora pretende fechar o ano com 800 mil carros produzidos e, para tanto, suas compras junto aos fornecedores devem chegar a R$ 11 bilhões, 10% a mais do que em 2008.
Indústria
O setor automotivo foi um dos que ajudaram a colocar a indústria como principal destino de IED este ano, ocupando o lugar que até 2008 era do ramo de serviços. Os investimentos industriais somaram US$ 6,63 bilhões entre janeiro e junho, um aumento de 1,6% sobre o mesmo período do ano passado.
Os investimentos estrangeiros na indústria cresceram justamente num momento em que os aportes nacionais no setor caíram. A redução dos investimentos industriais foi o fator que mais afetou a desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no início do ano.
“É sempre assim, [o investidor estrangeiro] pensa numa perspectiva de longo prazo, raciocina que vale mais a pena investir onde há maior potencial de crescimento, e aqui o potencial para os próximos anos é muito grande”, afirmou Lima. No caso da indústria automobilística, por exemplo, não há mais espaço para crescimento nas economias centrais, o esforço das empresas é para aumentar sua participação no mercado deslocando os concorrentes. “Aqui ainda há uma grande parcela não motorizada da população”, acrescentou o economista.
Tal potencial de ampliação do mercado fica claro quando se olha a pesquisa feita pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), divulgada em julho, que coloca o Brasil como quarto país mais atrativo do mundo para os investimentos estrangeiros diretos, atrás apenas da China, Estados Unidos e Índia. De 2008 para 2009, o Brasil subiu uma posição nesse ranking e deixou a Rússia para trás.
Outro exemplo de montadora multinacional que aposta forte no mercado brasileiro é o da General Motors, que em julho anunciou um investimento de US$ 1 bilhão em sua fábrica de Gravataí, no Rio Grande do Sul, apesar da matriz nos Estados Unidos ter acabado de sair de uma concordata.
Ainda na área automotiva, a MWM International, braço da norte-americana Navistar International, informou que realizou investimentos de US$ 70 milhões este ano e pretende aplicar mais US$ 345 milhões nos próximos cinco em suas fábricas de motores diesel em Santo Amaro, no estado de São Paulo, Canoas, no Rio Grande do Sul, e Córdoba, na Argentina.
Segundo informações da empresa, os investimentos realizados em 2009 foram destinados a programas de desenvolvimento tecnológico, capacitação de funcionários, aumento da linha de produção, aquisição de equipamentos, entre outros. Nos próximos cinco anos, a companhia pretende aplicar no desenvolvimento de motores cada vez menos poluentes para se antecipar a futuras regras sobre emissões.
A MWM produz motores para veículos, máquinas agrícolas, indústrias e embarcações. Além do Brasil, ela tem entre seus principais mercados os Estados Unidos, Índia, China, Coréia do Sul e México. A companhia atende também o Oriente Médio e tem distribuidores no Egito, Líbano e Iêmen, sendo que comercializa em média 1,5 mil unidades anuais na região. A previsão para este ano é de produção de 108 mil motores, sendo 20 mil para exportação.
Nesta mesma seara, a superintendente da Zona Franca de Manaus (Suframa), Flávia Grosso, disse recentemente que a alemã BMW deverá iniciar em dezembro a produção de motocicletas no Pólo Industrial da capital do Amazonas.
No início deste mês, ela anunciou a aprovação de mais 41 projetos industriais no local, que vão movimentar US$ 524,15 milhões em investimentos nacionais e estrangeiros. Os projetos em Manaus são principalmente das indústrias de motocicletas, autopeças, eletroeletrônicos, informática e bens de capital.
Não é só o ramo automobilístico que vem influenciando o crescimento dos investimentos estrangeiros na indústria. Aumentaram também os aportes nos setores químico, de farmacêuticos, de material elétrico, de máquinas e equipamentos, de informática e eletrônicos e de alimentos.
Na semana passada
Mesmo em meio à crise, a imprensa brasileira publica cotidianamente notícias sobre novos investimentos de multinacionais em diferentes áreas. No ramo de alimentos e bebidas, muito forte no país, a Nestlé divulgou na semana passada a intenção de destinar R$ 120 milhões para ampliar sua fábrica de Araraquara, no interior de São Paulo, e acomodar uma unidade de produção de leite longa vida com capacidade para processar 100 milhões de litros por ano.
Também na semana passada, a norte-americana Pepsico anunciou a compra da brasileira Amacoco, que detém 70% do mercado nacional de água de coco A empresa pretende utilizar os canais de distribuição da Pepsi para aumentar ainda mais o consumo interno, além de levar o produto ao mercado externo.
Na hotelaria, o grupo francês Accor anunciou, também na semana passada, que fechou no primeiro semestre 10 novos contratos para construção de hotéis, sendo oito no Brasil e dois em outros países latino-americanos. Os negócios envolvem investimentos de US$ 101 milhões entre aportes próprios e de terceiros.

