Isaura Daniel
São Paulo – Como equacionar as diferenças entre as economias árabes para colocar em operação a tão sonhada área de livre comércio? Essa foi uma das grandes discussões ontem (14), no último dia do 9º Fórum da Comunidade Empresarial Árabe, que ocorreu em Doha, no Catar, e reuniu cerca de mil homens de negócios e autoridades políticas da região. A maioria dos países árabes pretende implantar, já em 2006, uma zona de livre comércio.
As tarifas externas entre eles começarão a ser diminuídas no ano que vem até chegar a zero, em dez anos. "Existem barreiras não-tarifárias no comércio entre os países, como cotas para determinados produtos e burocracia. Os países também têm níveis econômicos diferentes", afirmou o secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Michel Alaby, que acompanhou o encontro, ao lado do diretor da entidade, Mustapha Abdouni. Fazem parte do grupo países como Líbano, Jordânia, Egito, Síria, Argélia e Marrocos.
De acordo com Alaby, atualmente, dos US$ 243 bilhões que os países árabes gastam com importações ao ano, apenas 25% vem da própria região. O secretário-geral acredita que o estabelecimento da zona pode trazer mais concorrência para as mercadorias brasileiras, já que vai aumentar as trocas comerciais entre os próprios países árabes. Alguns produtos nacionais, como frutas, que algumas das nações que integram o grupo produzem, podem ter suas exportações prejudicadas.
No encontro de ontem os empresários também falaram sobre a necessidade de fortalecer os mercados de capitais locais para que os recursos da região sejam aplicados nela mesma. Atualmente os árabes têm mais de US$ 1 trilhão aplicado ao redor do mundo. "Se o mercado de capitais for fortalecido, a tendência é que o dinheiro venha para a região", explica Alaby. Eles também prometeram encaminhar aos seus governos um pedido para acabar com a necessidade de vistos entre os países.
A importância de incentivar a transferência de tecnologia, de acordo com Alaby, foi outra discussão do dia. "Eles querem fazer mais acordos de cooperação com universidades estrangeiras", afirma. O Brasil, segundo o secretário-geral da Câmara Árabe, pode se beneficiar disto, levando seus universitários para estudar em países árabes e trazendo estudantes árabes para o Brasil. "O comércio e os investimentos começam pela cultura", diz Alaby. Ficou definido que o próximo fórum ocorrerá na Argélia, entre setembro e outubro de 2006.
Início de conversa
Ontem, os representantes da Câmara Árabe também se encontraram com o presidente da Câmara de Comércio e Indústria do Catar, Mohamed Bin Khalid Al-Mana. Foi o primeiro encontro entre as duas entidades e o início do estabelecimento de um relacionamento.
Os representantes das duas entidades se mostraram interessados na realização de missões comerciais entre os dois países, de acordo com o secretário-geral da Câmara Árabe, e em trocar mais informações. "Falamos da nossa disposição de trazer empresários brasileiros para o Catar", afirma Alaby.

