São Paulo – Apesar das perspectivas de crescimento do uso do etanol no mundo, o biocombustível, que no Brasil é feito da cana, não vai empurrar para fora do mercado os combustíveis tradicionais, como o petróleo e o gás natural. Essa foi uma das afirmações feitas por vários conferencistas do 2º Ethanol Summit, encontro de líderes e profissionais do setor, que começou na segunda-feira (1) e termina hoje (3), em São Paulo.
A demanda por energia deve duplicar nos próximos 50 anos e a população mundial aumentará em 1,5 bilhão. Isso, de acordo com o Rob Smith, diretor de Desenvolvimento de Negócios da CH2M Hill, multinacional que atua com projetos de energia, vai garantir espaço para os vários tipos de energia.
Smith afirmou que o petróleo e o gás se manterão como base energética mundial, mas que para atender a demanda e também para conter a emissão de gases poluentes, os biocombustíveis como o etanol são essenciais. O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, fez uma afirmação no mesmo sentido.
De acordo com estudo apresentado pelo executivo, o comércio mundial de etanol vai crescer dez vezes até 2020, mas o seu uso como combustível de veículos leves não deve passar de 5%. “No Brasil, o etanol será alternativa crescente, mas no mundo isso será relativamente pequeno”, afirmou Gabrielli.
Atualmente a frota de veículos leves movidos a gasolina no Brasil é de cerca de 50%. Isso deve cair para 17% em 2020, segundo estimativas apresentadas. Já a frota de automóveis flex, que podem usar álcool e gasolina, deverá alcançar 75%. “Por isso não adianta produzir gasolina. Nossas refinarias não vão produzir gasolina, vão produzir etanol”, disse o presidente da Petrobras.
A companhia possui um braço, chamado Petrobras Biocombustíveis, para cuidar da área. A petrolífera vai investir um total de R$ 174 bilhões entre 2009 e 2013, dos quais R$ 2,8 bilhões irão para projetos de biocombustíveis, 84% para plantas de produção de etanol.
O Brasil já mistura 25% de etanol na gasolina. Sobre as possibilidades de uso da mistura em outros países, Gabrielli lembrou que para uma mistura de 5%, por exemplo, não é necessário fazer modificações no veículo. Ele acredita que essa alternativa será a mais viável para o uso do etanol no mundo.
Smith afirmou que o mundo precisará seguir o Brasil, na diversificação da base energética. “O Brasil é uma história de sucesso no mundo (na área de energia), combinação de visão, conhecimento e vontade de distribuição”, declarou o diretor da CH2M Hill. De acordo com ele, o modelo brasileiro, de balanço entre gasolina e biocombustível, é o futuro. O desafio, disse, é como fazer o mesmo em outros países.
Menos petróleo
Além de ter uma menor emissão de poluentes, o etanol é alternativa para uma escassez do petróleo. O físico e professor da Universidade Uppsala, da Suécia, Kjell Aleklett, afirma que o petróleo está atualmente em seu pico e a extração das reservas já descobertas está em taxas muito altas. Serão necessárias, de acordo com ele, novas descobertas e o uso dos combustíveis renováveis como alternativa. Aleklett afirmou que o crescimento das economias, ou do Produto Interno Bruto (PIB) ao longo da história esteve acompanhado do aumento do consumo do petróleo. “O mundo precisa de petróleo para crescer”, disse.
A maioria fala de uma necessidade, porém, de redução do consumo do petróleo para combater a emissão de gases de efeito estufa. “O uso do petróleo terá que ser reduzido, não podemos continuar queimando as quantias de petróleo que queimamos no último século”, disse Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE) e moderador do painel “Combustíveis alternativos e o futuro do petróleo”, no Ethanol Summit.
O ideal é que cada país tenha a sua solução para o abastecimento energético, afirma Smith. Ele lembrou, no entanto, que a maior parte das nações não tem petróleo, gás natural e biocombustíveis para manter a sua segurança energética. O Brasil, segundo Pires, tem reservas de urânio, ventos para energia eólica, terra, água e sol para os biocombustíveis. Smith afirmou que o poder, no futuro, estará nos países que serão auto-suficientes em alimentos e combustíveis. “Apenas a Rússia e o Brasil”, concluiu.

