São Paulo – Com as economias dos Estados Unidos e da Europa mais afetadas pela crise financeira, empresas brasileiras exportadoras buscam ampliar as vendas para mercados emergentes, como forma de compensar a queda da demanda nos países desenvolvidos. De janeiro a maio, os embarques de produtos brasileiros só cresceram para regiões que concentram nações em desenvolvimento, como o mundo árabe (5,4%) e a Ásia (11,2%), especialmente por causa da China.
Na mesma comparação, as vendas externas totais do Brasil caíram 23%, puxadas principalmente pelo mau desempenho dos negócios com os Estados Unidos, Europa e outros países da América Latina. “Estamos dando prioridade a esses mercados [emergentes]. Tiramos o foco um pouco dos Estados Unidos e da Europa, porque eles não vão comprar nesse momento, e estamos tentando esses [novos] locais”, exemplificou Karina Botelho, gerente de exportação da Formanova, fábrica de móveis com sede em Palhoça, Santa Catarina. A empresa tem se concentrado principalmente no Oriente Médio e na África.
A busca pela diversificação de mercados nesses tempos de crise é generalizada entre as companhias exportadoras. A última pesquisa Sondagem Industrial – Comércio Exterior, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) no final do mês passado, mostrou que 60% das 1.307 empresas consultadas pretendem ir atrás de novos destinos para mitigar os efeitos da crise em suas vendas externas.
“[As empresas estão] buscando sim [novos mercados], mas não necessariamente conseguindo”, afirmou o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. “Alguns mercados emergentes conseguem ter um desempenho melhor, como China, Índia e alguns países do Oriente Médio. É uma opção, mas todo mundo vai correr para ela, então é preciso ser competitivo ou já ter um pé nesses lugares”, declarou o gerente-executivo da Unidade de Pesquisas da CNI, Renato da Fonseca. “Todo mundo está tendo a mesma idéia”, disse Castro. "Existem casos de sucesso e outras empresas que não estão conseguindo", acrescentou Fonseca.
Na avaliação dos dois, o Brasil tem duas realidades quando se fala em comércio exterior: a das exportações das commodities, que conseguem se manter relativamente bem por causa da demanda de grandes economias emergentes; e a das vendas de produtos industrializados, que sofrem não só com a crise, mas também com a valorização do real frente ao dólar, que os torna mais caros no exterior, e com a carga tributária.
A busca por novos destinos no cenário atual não é uma tarefa fácil. Na seara dos manufaturados, de acordo com Castro, a competição das mercadorias chinesas, mais baratas, num mercado internacional já retraído, torna ainda mais difíceis os negócios para as empresas brasileiras. “Com a demanda retraída, [o exportador] tem que oferecer preço”, disse. Segundo ele, a China tem ocupado espaço até em mercados tradicionais para o Brasil, como os da América do Sul.
Segundo Fonseca, além da redução de custos para deixar o preço mais competitivo, o empresário tem que pesquisar o mercado e adaptar seu produto de acordo com as necessidades de clientes diferentes.
Foi o que fez a MGR, indústria de mármores e granitos do Rio de Janeiro. Segundo o gerente comercial, Ronan Moreira, antes mesmo do recrudescimento da crise, em setembro do ano passado, a empresa começou a sentir a diminuição da demanda nos Estados Unidos e passou a buscar outras alternativas. “Preferimos nos antecipar a sermos pegos de surpresa”, afirmou.
A alternativa, no caso da MGR, foi o mercado árabe. Em novembro do ano passado a empresa expôs na BIG 5 Show, feira do ramo de construção realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e, em janeiro de 2009, participou de missão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) ao Norte da África.
Segundo Moreira, a investida deu certo e os negócios na região começam a aparecer. A introdução dos produtos em um novo mercado, porém, exigiu um esforço extra da companhia. “Tivemos que ceder, pois as exigências [na região] são um pouco diferentes, não é o mesmo material que vendíamos nos EUA, eles não estão acostumados com produtos prontinhos”, afirmou. Enquanto para a América do Norte a empresa exportava peças prontas para colocação, no Oriente Médio a demanda é por chapas semimanufaturadas.
“[A diminuição das vendas para mercados tradicionais] pode ser compensada com os emergentes, mas a competitividade é difícil e é preciso fazer adaptações”, afirmou Moreira. Os preços também tiveram que ser negociados. “Nós já temos, porém, cultura exportadora, o que facilita. Temos material, competitividade e condições de dar respostas rápidas”, acrescentou. Uma vantagem, de acordo com ele, é que em alguns países, especialmente no Norte da África, há pouca variedade de produtos disponíveis, mas existe, no entanto, avidez por novidades.
Na mesma linha, a indústria nacional de cosméticos, que já vinha trabalhando com força nos emergentes, decidiu ampliar ainda mais seu foco nesses mercados. No caso do Oriente Médio, por exemplo, a analista de comércio exterior da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), Silvana Gomes, disse que o setor não sentiu redução das exportações para a região, apesar da crise.
As exportações de cosméticos, porém, segundo José Augusto de Castro, da AEB, estão entre as que menos sofrem com a turbulência econômica. De fato, Silvana afirma que não houve impacto nas vendas para mercados tradicionais, especialmente a América Latina. Já em destinos mais ricos, como a Europa, a indústria brasileira atua em nichos específicos, como o de orgânicos, que continuam a apresentar demanda.
“Mas não podemos ignorar o que está ocorrendo no mundo”, afirmou Silvana. “Há sim preocupação com as exportações e estamos redirecionando recursos para mercados que podem ser ampliados”, acrescentou. Nesse sentido, o projeto de promoção comercial, que a Abihpec leva adiante em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), vai avançar daqui para frente em oito destinos emergentes considerados prioritários. “O foco mudou um pouco, estamos olhando menos para os Estados Unidos e Europa”, disse.
Ela destacou, porém, que isso não significa que o setor vai abandonar os países desenvolvidos, pois acredita em uma recuperação até em curto prazo. Na mesma linha, Renato da Fonseca, da CNI, ressaltou que a busca por clientes alternativos não deve suprimir os contatos nos destinos tradicionais. O ideal, segundo ele, é ter uma carteira diversificada, assim as perdas em um mercado podem ser compensadas por ganhos em outro.
Para quem tem grande volume de negócios nos países desenvolvidos, as oportunidades nos emergentes não chegam a compensar as perdas, mas dão um alívio. “Essas regiões [Oriente Médio e África] não eram nosso forte, mas têm dado resultados bem favoráveis. Nada de tão maravilhoso, afinal a crise é mundial”, disse Karina Botelho, da Formanova. “Mas tem sido a solução”, acrescentou. A empresa, que produz móveis de alto padrão, viu diminuírem seus embarques para os EUA, Europa e América Latina, embora nesse último caso ainda haja demanda.
Fornecedor alternativo
Se a crise tem feito os exportadores procurarem novos mercados, na mão contrária os importadores também têm buscado fornecedores capazes de oferecer produtos em melhores condições de preço, sem, no entanto, abrir mão da qualidade. A Baumer, fábrica de paulista de equipamentos médicos e hospitalares, tem testemunhado esse fenômeno na prática.
“A [área da] saúde em tempos de crise, ou em tempos bons, não sofre muito. Ela é sempre uma prioridade”, disse o diretor da área internacional da empresa, Wagner Mazolli. No entanto, segundo ele, nações emergentes que costumavam comprar dos “grandes players” do setor, sediados na Europa e Estados Unidos, passaram a procurar alternativas, “países como o Brasil, que têm tecnologia e preço”. “Isso representa uma oportunidade de expansão para as empresas brasileiras”, declarou.
De acordo com o executivo, a Baumer, que exporta principalmente implantes ortopédicos e aparelhos para esterilização, tem conseguido fazer negócios com clientes que antes compravam dos EUA e Europa “sem questionar”. “Mas os preços [dos produtos norte-americanos e europeus] não mudaram, e a crise só acelerou [essa tendência de busca por novos fornecedores]”, ressaltou.
Ao mesmo tempo, os mercados dos Estados Unidos e Europa já eram difíceis para a indústria brasileira por causa da concorrência local. Neles a empresa só atua em nichos bastante específicos, como uma linha de próteses para pacientes com tumores ósseos.
“A tendência hoje é o Sul, a América do Sul, África, Sudoeste da Ásia e os países árabes. Existem grandes oportunidades para quem consegue ter qualidade e preço”, afirmou Mazolli. A aposta nos emergentes é tanta que a companhia, que hoje tem nas exportações 23% do seu faturamento, tem como meta chegar à marca de 40% em 2011, mesmo com a crise.

