São Paulo – Desde cedo, Valéria Arbex, de 49 anos, aprendeu que as histórias mais importantes nem sempre estão nos livros. Neta de sírios pela parte da mãe, a atriz nasceu e foi criada na zona sul da cidade de São Paulo, em uma família de classe média, cercada por memórias transmitidas verbalmente pela única avó que conheceu: Nadime, a síria que chegou ao Brasil aos dez anos de idade.
Foi com a ancestral — que falava árabe, cozinhava receitas tradicionais e contava histórias da terra natal — que Valéria teve seus primeiros contatos com uma herança cultural que, mais tarde, se tornaria matéria-prima em sua companhia de teatro.
Minha avó usava lenço e contava histórias da sua infância, de antes de virar imigrante, enquanto cozinhava.
Valéria Arbex
“Minha avó usava lenço e contava histórias da sua infância, de antes de virar imigrante, enquanto cozinhava. Tudo o que conheci, quando mais jovem, sobre cultura árabe, vem dela”, conta Valéria.
Vivenciando uma infância típica dos anos 1980, marcada por brincadeiras na rua, e com uma personalidade tímida, a paulistana não parecia que iria seguir o caminho dos palcos. Mas a amante de novelas viu sua vida mudar na adolescência, no início dos anos 1990, quando seus pais puderam pagar um curso de teatro.
Aos 15 anos, Valéria começou as aulas em um conservatório no bairro do Brooklin, na zona sul da cidade. Desde o começo dos estudos, o teatro deixou de ser curiosidade e virou profissão.
Depois de passar por escolas como o Curso de Atores Pirandello e o Indac, Valéria integrou companhias e montagens profissionais, com textos de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, até se mudar para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por sete anos.
Em 2009, ela voltou a São Paulo, criando seu próprio grupo: a Companhia Teatral Damasco – o nome da empresa foi dado em homenagem à capital do país de origem dos avós maternos.

A ideia da criação veio depois que Valéria encontrou um tesouro guardado pela família: 68 cartas de amor trocadas entre seus avós maternos, durante o noivado, que aconteceu entre os anos de 1937 e 1939.
Escritas quando cada um vivia em uma cidade diferente do interior paulista, as cartas haviam sido deixadas como herança por Nadime, mas ficaram anos esquecidas. O mergulho nas correspondências despertou uma pesquisa que ultrapassou o âmbito familiar.
Vieram leituras acadêmicas sobre imigração árabe, entrevistas com comerciantes, pesquisadores e descendentes, além de visitas a cidades ligadas à história da família. Desse processo nasceu “Salamaleque”, espetáculo estreado em 2013 e inspirado diretamente na trajetória da avó síria.
Ambientada em uma cozinha, a peça costurava lembranças, relatos familiares, culinária e ficção, enquanto a personagem revisitava memórias de diferentes gerações de mulheres árabes.
Em cartaz até 2016, o espetáculo teve temporadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, além de circular por festivais. A partir dele, Valéria desenvolveu oficinas de culinária e memória afetiva, além de projetos voltados ao público infantil, sempre com o objetivo de aproximar o público da cultura árabe para além dos estereótipos.
“Quando você conta uma história sobre como é, você já está desmistificando”, afirma a paulistana.
Escrita, imagem e voz feminina
Foi durante a pandemia, isolada em casa, que Valéria encontrou um novo caminho criativo. Começou a produzir autorretratos fotográficos, nos quais encarnava diferentes personagens femininas.
Cada imagem vinha acompanhada de um nome e uma breve legenda. O projeto cresceu e, anos depois, deu origem a um livro que ainda está em construção. A obra é composta por cartas escritas por mulheres que ocuparam, ao longo de um século, o mesmo endereço.

Entre elas está Antônia, personagem de origem árabe. “É quase impossível eu criar alguma coisa sem que exista uma mulher árabe. E, sempre que escrevo algo sobre uma personagem árabe, uso minha avó como inspiração”, explica a escritora.
A culinária, os costumes e a memória feminina da ancestral atravessam a narrativa, mesmo quando o tema não é explicitamente a imigração.
O mesmo universo de sua família se expandiu para o podcast, disponível no Spotify, chamado “Adoráveis Personagens”, criado recentemente. Em episódios semanais, Valéria escreve e interpreta histórias de mulheres contadas sempre a partir do olhar de outra mulher — uma amiga, uma filha, uma aluna, uma vizinha.
Entre elas, surgiram personagens árabes, como Jamile, professora universitária que usa hijab, apresentada sob uma perspectiva íntima e cotidiana. Feito de maneira artesanal, o podcast une escrita, performance e memória, reforçando um traço constante em sua produção: dar voz a mulheres cujas histórias raramente ocupam o centro da narrativa.
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Reportagem de Rebecca Vettore, em colaboração com a ANBA


