Rio de Janeiro – O brasileiro Oscar Niemeyer desenhou a Biblioteca da Aspa (Cúpula América do Sul – Países Árabes), que será construída em Argel, na Argélia. O projeto arquitetônico de Niemeyer foi apresentado ontem (21) no encontro de ministros da Cultura dos países árabes e sul-americanos, que ocorreu no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. O governo argelino selecionou o projeto do brasileiro após uma licitação, de acordo com a ministra da Cultura da Argélia, Khalida Toumi, que esteve na reunião do Rio.
Khalida afirma que a biblioteca começará a ser construída em dezembro, logo após o término dos estudos do projeto. A conclusão, de acordo com ela, está prevista para cerca de dois anos após o início das obras. A ministra argelina afirma que a parte mais difícil, que foi a tomada de decisão sobre a iniciativa, já ficou para trás. Passaram-se mais de dois anos desde que a idéia foi lançada, em 2006. O governo da Argélia, diz Khalida, vai bancar a construção da biblioteca.
Em entrevista à ANBA, Khalida lembrou que Niemayer tem uma história ligada à Argélia, já que ele fez para o país os projetos de uma série de construções. É dele, por exemplo, o projeto da Universidade de Constantine. Foi apresentado aos ministros, ontem no Rio, por um representante do escritório de Niemeyer, um esboço da biblioteca. Ela terá dois prédios principais, ficará em um terreno alto, com vista para o mar, terá auditório, sala de exposições, restaurante, praça e apartamentos para pesquisadores.
Também está em andamento o projeto de um instituto de pesquisas da América do Sul, que ficará em Tânger, no Marrocos. De acordo com o ministro das Comunicações do Marrocos, Khalid Naciri, que esteve no Rio, o espaço ainda não começou a ser construído, mas já existe um terreno de 20 mil metros quadrados disponibilizado pelo Marrocos para isso. O local servirá para a realização de traduções e intercâmbio de pesquisas entre os países da América do Sul e do mundo árabe. A iniciativa foi incluída no documento final do encontro.
Também foi inserida na declaração a disposição dos países de ajudar a recuperar o patrimônio cultural do Iraque, em parte perdido em função da guerra enfrentada pelo país. O pedido foi feito pelo ministro iraquiano da Cultura, Maher Ali Ibrahim, durante o encontro de ministros. Por sugestão do ministro da Cultura do Brasil, Juca Ferreira, foi inserido na declaração final do encontro um item de apoio e solidariedade ao Iraque na recuperação do seu patrimônio.
De acordo com Ibrahim, os museus, auditórios e teatros do Iraque foram destruídos após a invasão norte-americana. Com isso, acervos históricos e artísticos do Iraque, tais como peças arqueológicas, quadros e livros foram roubados e ganharam comércio mundo afora. Aos colegas de pasta presentes no encontro, o ministro contou que existe hoje apenas um teatro no país, em Bagdá, que está sendo recuperado. A subsecretária de Política Cultural do Ministério de Relações Exteriores do Peru, Liliana Cino de Silva, contou o caso de duas peças do Iraque que foram apreendidas no aeroporto de Lima e devolvidas ao país árabe.
Além do apoio ao Iraque, o encontro de ontem resultou na resolução e apresentação de uma série de medidas que estão sendo ou serão tomadas para a aproximação cultural de árabes e sul-americanos. Foi incluído no documento final, a partir do encontro dos ministros, um parágrafo pedindo o fomento do ensino do idioma árabe em países sul-americanos e de espanhol e português no mundo árabe; outro expressando a preocupação dos países a respeito da preservação do patrimônio cultural, histórico e religioso de Jerusalém e chamando a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) a zelar por isso.
O comunicado da reunião incluiu ainda vários outros itens, como apoio a eventos internacionais sediados em cada um dos países; afirmação da importância da Bibliaspa, biblioteca digital com literatura e material audiovisual; destaque à criação do Dia Nacional da Imigração Árabe, no Brasil, para 25 de Março; e pedido aos países que previnam o tráfico de antiguidades. Ficou acertado que os países enviarão suas sugestões e informações para a finalização de um plano final da Aspa na área cultural até o dia 22 de julho, e que a próxima reunião de ministros ocorrerá na Jordânia, em 2011.
Os ministros, em suas declarações na conferência, ressaltaram a importância das relações culturais entre América do Sul e países árabes e a vontade de que ela cresça. “O Brasil e a América Latina estão comandando um mundo novo na aplicação do diálogo entre as culturas”, disse o ministro da Cultura da Jordânia, Sabri Rbeihat. “O encontro de árabes e sul-americanos reforça a confiança nos valores humanos e na cultura”, disse o ministro da Cultura do Sudão, Amin Hassam Amr.
Brasil e Argélia
Paralelamente ao encontro, os ministros da Argélia e Brasil assinaram um acordo quadro na área cultural. Segundo o ministro brasileiro Juca Ferreira, é um convênio manifestando a vontade das duas partes de que a cooperação nesta área seja permanente. A partir dele devem ser lançados projetos culturais conjuntos.
A Câmara de Comércio Árabe Brasileira esteve representada no encontro pelo secretário-geral, Michel Alaby. O assessor da entidade, Zein Said, também acompanhou os diplomatas e autoridades durante a estada no Rio de Janeiro.

