Débora Rubin
São Paulo – O Acre definitivamente não é um estado símbolo da produção moveleira do país. Na capital Rio Branco, por exemplo, são apenas 55 empresas, segundo a gerente do Pólo Moveleiro da cidade, Elisângela Rocha. A produção é tímida, o mercado consumidor é local e a palavra exportação mal é pronunciada. Mas é de lá que vem um dos melhores exemplos quando se trata de produzir sem devastar.
Há quase seis anos, o governo estadual, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), e ONGs internacionais como a WWF Brasil e The World Conservation Union (UICN) estão conseguindo conscientizar os empresários a usar apenas as madeiras certificadas pela Forest Stewardship Council, que detém o selo FSC, também chamado de "selo verde", reconhecido mundialmente como garantia de preservação ambiental.
Usar uma madeira FSC significa trabalhar com um material que vem do manejo florestal, um trabalho cuidadoso de retirada da madeira que funciona da seguinte forma: uma área de 300 hectares é dividida em 30 partes. A cada ano, 10 hectares são explorados. No trigésimo ano, a parte que foi explorada no primeiro ano já estará naturalmente recomposta. Para supervisionar esse trabalho e dar força à produção industrial do estado, o governo criou a Secretaria da Floresta, a única do país, cujo objetivo é fomentar o desenvolvimento sustentável da região.
A secretaria monitora o manejo em três tipos de florestas: as públicas, as privadas e as reservas extrativistas, onde ficam os seringueiros e os pequenos agricultores. A derrubada ilegal ainda existe, mas o trabalho feito pelo governo e pelas ONGs vem inibindo esse tipo de prática. O projeto de retirada conta com um mapeamento completo das regiões que vão ser exploradas. Quantas árvores de uma determinada espécie existem naquele terreno e quais delas podem ser derrubadas. Se uma espécie está em extinção, como acontece com o mogno atualmente, é feito todo um trabalho de pesquisa para saber qual madeira pode substituí-la.
Segundo Carlos Rezende, secretário da Floresta, existem seis milhões de hectares para manejo, sendo que desse total, 2,7 milhões estão ocupados pelos pequenos proprietários e por reservas extrativistas, onde se concentram os seringueiros.
Herdeiros de Chico Mendes
Para os seringueiros, o manejo florestal virou uma solução alternativa de renda. Os herdeiros da luta de Chico Mendes, líder seringueiro e ativista ambiental que morreu assassinado em 1988 por brigar pelo direito à terra, começaram a abandonar a floresta ao longo dos anos 90 quando a extração da borracha já não dava mais dinheiro. Hoje, muitos deles intercalam a atividade madereira com a extração da borracha, a da castanha e a de óleos. Alguns também trabalham com gado e cultivam pequenos roçados.
Segundo Marcelo Arguelles, coordenador da ONG UICN Brasil, o manejo florestal mudou a vida de muita gente das comunidades da floresta. Existem no Acre 11 comunidades, sendo que cinco delas já estão certificadas – ou seja, já foram treinadas para fazer o manejo florestal – e duas estão no processo de certificação. Para defender os interesses comerciais desses trabalhadores, foi criada, há oito meses, a Cooperfloresta, uma cooperativa que reúne seis dessas 11 comunidades, com 68 cooperados ao todo.
"Em 2005, a produção total da Cooperfloresta chegou a 1,6 mil metros cúbicos, gerando uma receita de quase R$ 1 milhão. Essa madeira ainda está sendo comercializada, mas cada cooperado deve receber em torno de R$ 6 e R$ 7 mil pelo ano, o que daria quase dois salários mínimos por mês", explica Arguelles, que acompanha o trabalho da cooperativa. Ou seja, eles garantiram uma renda anual por um trabalho que ocupa no máximo dois meses de trabalho.
Segundo Adriano Trentin Fanssini, gerente da Cooperfloresta, a madeira retirada pelos cooperados é de grande valia. Além de ser material nobre, típico da Floresta Amazônica, leva o selo verde. Por essa razão, os moveleiros acreanos ainda não compram da cooperativa. "Nossa madeira é muito valiosa para ser vendida por preço baixo. E eles não têm poder aquisitivo para comprar da gente", diz Fanssini. Os principais compradores são de São Paulo. Os moveleiros do Acre que já compram madeira certificada, normalmente esperam pelos leilões feitos pelo governo, com a madeira retirada das florestas públicas.
Distrito Industrial
Para ajudar o outro lado da cadeia produtiva, o governo criou um distrito industrial em Rio Branco para reunir as empresas que ocupavam a zona urbana de forma irregular. Hoje, 12 empresas já estão ali. Além de criar um espaço adequado para o funcionamento delas, a idéia do pólo é oferecer estrutura tecnológica, logística e um escritório de design para todos.
Segundo Elisângela Rocha, gerente do Pólo, os protótipos de móveis são criados pelo escritório e oferecidos aos empresários. Os que se interessam pelo projeto, vão para a segunda etapa, que é um estudo de viabilização comercial do produto. A gerente do Pólo conta que a centralização da criação de design deu uma nova cara para os móveis da região. E os empresários passaram a dar mais valor ao desenho de suas peças. O governo do Acre investiu R$ 2 milhões no Pólo, criado em 2004.
Saiba mais:
www.wwf.org.br
www.sur.uicn.org
www.ac.gov.br
Contatos:
Cooperfloresta
+55 (68) 3222-7252
Sebrae-AC
+55 (68) 3216-2100
Iiba Produtos Florestais
(68) 8112-0106
comercial@iiba.com.br
Sulatina Móveis da Amazônia
(68) 3224-1652
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