São Paulo – Se a China é a segunda maior importadora de ouro, é também a maior produtora, seguida dos Estados Unidos, Austrália, Rússia e África do Sul. O Brasil está em 13º lugar, de acordo com dados de 2011 fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Para efeito de comparação, a produção dos cinco maiores variou de 190 a 300 toneladas no ano passado, enquanto que a brasileira ficou em 55 toneladas.
Em reservas, porém, o Brasil está em sétimo lugar, atrás da Austrália, África do Sul, Rússia, Chile, Estados Unidos e Indonésia. De acordo com o engenheiro Mathias Heider, especialista em ouro do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), o Brasil tem 2,5 mil toneladas em reservas do metal, além de “um imenso potencial geológico”. Segundo Marcelo Ribeiro Tunes, diretor de Assuntos Minerais do Ibram, apenas 30% do território nacional foi “mapeado geologicamente”.
Para o geólogo e economista Luciano Borges, porém, no que diz respeito ao ouro, o País perdeu a oportunidade de ganhar mais com o “grande ‘boom’ da mineração” ocorrido na década passada, e pode passar mais um bom tempo sem que consiga ampliar sua produção por meio de novos projetos.
“Infelizmente o Brasil, que já foi o maior produtor mundial e ainda tem um dos melhores potenciais em ouro, é hoje irrelevante [em produção]”, afirmou Borges.
É que desde novembro do ano passado o governo suspendeu a outorga de licenças de prospecção e a concessão para abertura de novas minas, sob a justificativa de elaborar um novo marco regulatório para o setor. Isso vale para toda a mineração, não só para o ouro. O projeto saiu do Ministério das Minas e Energia, está na Casa Civil da Presidência da República e posteriormente será encaminhado ao Congresso Nacional.
A assessoria de imprensa da Casa Civil informou que a proposta está em elaboração, mas que não há acesso ao conteúdo e que não foi fixado um prazo para sua apresentação. As empresas do ramo reclamam de falta de transparência e de diálogo por parte do governo.
“O processo se fechou na Casa Civil, mas nós entendemos que o projeto, antes de ser finalizado, será encaminhado ao setor privado para que ele tome conhecimento e dê sua opinião. Temos clamado por isso”, disse Tunes.
Borges afirma que a falta de informações e a demora afastam eventuais investidores em pesquisa e produção, principalmente na primeira fase, onde o risco do capital é grande, pois há sempre a possibilidade de não se encontrar nada. É baixo o número de pesquisas que de fato viram minas.
Mesmo assim, segundo Heider, o mercado em alta estimula a produção brasileira a crescer nos garimpos e nas minas operadas por empresas. Mas, de acordo com Tunes, mais pela ampliação de empreendimentos existentes e pela entrada em operação de projetos que já estavam em andamento quando o governo suspendeu as licenças.
“Nos últimos dez anos a produção tem crescido constantemente e tem potencial para continuar crescendo”, declarou o diretor do Ibram, mas acrescentou: “Se a suspensão [de novas licenças] continuar, vai acabar afetando [o setor] futuramente. Nossa esperança é que isto se resolva o mais rapidamente possível.”
Um dos projetos em andamento e que pode entrar em operação em breve é o da mineradora canadense Colossus em Serra Pelada, no Pará. Maior mina de ouro a céu aberto do mundo na década de 1980, que atraiu multidões de garimpeiros de várias partes do Brasil, o local agora é palco de uma profunda escavação para se chegar ao ouro que não pôde ser extraído de forma artesanal.
A reportagem da ANBA visitou Serra Pelada em outubro de 2010, quando a construção da mina estava no início. Na época, executivos do empreendimento informaram que a produção deveria começar no final de 2011, mas isso não ocorreu. A expectativa agora é para meados de 2013.
“A antiga diretoria se precipitou em passar algumas informações, pois o que foi dito anteriormente não reflete exatamente a realidade”, declarou a empresa por e-mail. “Normalmente a construção de uma mina subterrânea do tamanho que é a mina em Serra Pelada pode levar de três a quatro anos para sua conclusão”, acrescentou.
A expectativa é processar mil toneladas de minério por dia, mas a quantidade de ouro que será extraída disso ainda está para ser definida. Nesta área são algumas gramas do metal em cada tonelada de material minerado. “Podemos perceber através das sondagens realizadas que esse grau de teor é bem robusto e ao mesmo tempo imensamente variável dependendo da área sondada”, informou a Colossus.
Haverá tempo para aproveitar o cenário do mercado do ouro? A empresa responde que toda mineradora “tenta otimizar suas operações para se aproveitar da flutuação no preço de commodities”. “Entretanto, os planos em mineração normalmente não mudam tão rapidamente assim”, declarou a companhia. Mas a Colossus reforça a tese de que, frente ao quadro internacional, a demanda pelo metal “tem grandes perspectivas de continuar e é muito provável que continuaremos a ver aumento no preço”.

