Isaura Daniel
São Paulo – Empresários brasileiros e kuwaitianos discutiram ontem (23), em encontro na Câmara de Comércio e Indústria do Kuwait, maneiras de equilibrar a balança comercial entre os dois países. De acordo com o diretor do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty, Mario Vilalva, que integra a missão comercial brasileira ao Oriente Médio, o Brasil está aumentando as vendas para o Kuwait, mas não ocorre o mesmo com as exportações do país árabe para o Brasil. "Compramos do Kuwait basicamente petróleo e o Brasil está se tornando auto-suficiente em petróleo", disse Vilalva por telefone à ANBA. Isso pode fazer com que aumente ainda mais o desequilíbrio.
As exportações brasileiras para o Kuwait atingiram US$ 127,9 milhões no ano passado, com crescimento de 73% sobre 2003, enquanto que as vendas da nação árabe para o Brasil ficaram em apenas US$ 22 milhões e caíram 70% em relação ao ano anterior.
Uma das sugestões levantadas no encontro de ontem foi que os kuwaitianos abram oportunidades para que empresas brasileiras invistam no país, o que poderia compensar essa diferença na balança comercial. De acordo com Vilalva, há vários projetos de infra-estrutura no Kuwait nos quais empresas brasileiras podem investir. Participaram do encontro com a delegação brasileira cerca de 20 empresários árabes.
Outra maneira de reforçar as relações comerciais sugerida pela Global Investment House, companhia que trabalha com atração de investimentos para o Kuwait e participou das discussões, foi a formação de joint-ventures entre empresas dos dois países para que os produtos brasileiros possam ser exportados para o Iraque via Kuwait. De acordo com informações repassadas aos empresários pela Global, os brasileiros poderiam obter para isso financiamentos de exportações de bancos do Kuwait e também aproveitar a logística de vendas ao Iraque que já existe na região.
De acordo com o embaixador Vilalva, uma das empresas brasileiras presentes na delegação ficou seriamente interessada nessa possibilidade. Os produtos seriam fabricados no Brasil e apenas remetidos para estoque à companhia parceira no Kuwait para então serem distribuídos no Iraque.
Durante o encontro os empresários reconheceram, porém, que é preciso mais conhecimento sobre as potencialidades econômicas, turísticas e de investimentos dos dois países para reforçar as relações comerciais. De acordo com Antonio Sarkis Jr., presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB), e Michel Alaby, secretário-geral da entidade, que participam da delegação, foi levantada também a necessidade de uma linha aérea entre os países árabes e o Brasil e de resolver algumas dificuldades no transporte marítimo, como a falta de freqüência dos embarques. O transporte marítimo entre as duas regiões, de acordo com Alaby e Sarkis, deve ser um dos temas de discussão durante a reunião de cúpula dos países árabes e sul-americanos que ocorrerá em Brasília no mês de maio.
Amorim
Durante almoço oferecido pela Câmara de Indústria e Comércio do Kuwait, do qual participaram o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, e o chanceler kuwaitiano Mohammed Sabah Al-Salem Al-Sabah, foi discutido também o acordo comercial que o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) e o Mercosul devem começar a desenhar durante a cúpula. De acordo com Vilalva, ficou acertado que haverá um encontro entre representantes das duas regiões, alguns dias antes da reunião de chefes de estado, para prosseguir as conversas sobre o tratado. O encontro deverá ocorrer no início de maio, no Rio de Janeiro ou em São Paulo.
No início da semana, o secretário-geral do GCC, Abdul Rahman Bin Hamad Al-Atiyyad, e Amorim se comprometeram a trabalhar para assinar um acordo-quadro, documento que dá início formal às negociações, na cúpula.
Amorim encontrou-se ontem também com o primeiro-ministro do Kuwait, Sabah Al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah, ao qual entregou o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que o emir Jaber Al-Ahmad Al-Sabah compareça à cúpula, em maio. O primeiro-ministro afirmou que o Kuwait está pronto para participar e espera resultados positivos do encontro. Amorim também assinou um acordo cultural entre o Brasil e o Kuwait.
No almoço com a delegação brasileira, o chanceler do Kuwait recebeu uma placa comemorativa da visita da delegação das mãos dos representantes da CCAB. Além do seminário, que ocorreu pela manhã, a delegação brasileira participou, pela tarde, de rodadas de negócios, no Hotel Sheraton, com cerca de 30 empresários árabes.
Líbano
O chanceler brasileiro também esteve ontem no Líbano com o presidente Emile Lahoud, ao qual entregou o convite do presidente Lula para a cúpula, além de uma carta sobre as relações bilaterais e multilaterais. A visita ao país estava programada para o final da semana passada, mas acabou sendo transferida para ontem por questões de agenda. O presidente Lahoud, de acordo com informações do Itamaraty, ressaltou a importância da cúpula no encontro e afirmou que o Brasil sempre esteve próximo do Líbano.
Amorim falou ao presidente libanês que após a visita de Lula aos países árabes, no final de 2003, o comércio do Brasil com a região aumentou 50%. Para ilustrar isso, o chanceler disse que na visita ao Catar, no dia anterior, encontrou empresários do Marcopolo e da Mercedes-Benz, que venderam 540 ônibus ao país. Hoje Amorim estará na Tunísia.

