Isaura Daniel
São Paulo – Os agricultores brasileiros estão se preparando para colher no próximo ano uma safra de soja 23,4% maior do que em 2004. O último levantamento da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab) indica que a área plantada vai aumentar em 5%, de 21,2 milhões de hectares para 22,3 milhões. As estimativas apontam uma produção de 61,4 milhões de toneladas contra 49,7 milhões da colheita passada. As projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são ainda mais positivas e indicam aumento de 6% na área e de 29% na produção.
Essa será também a primeira safra de soja transgênica legal do Brasil. O governo federal autorizou por Medida Provisória o plantio e a comercialização de soja geneticamente modificada. Na última safra, a venda também acabou sendo liberada por Medida Provisória já que parte dos agricultores havia plantado a soja transgênica mesmo sem base legal.
Ainda não há estimativas oficiais sobre qual será a porcentagem de grãos transgênicos no total colhido no ano que vem, mas, de acordo com o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa- Soja), Alexandre Nepomuceno, a queda no preço da soja deve estimular o plantio de semente transgênicas.
A cotação da saca de soja, que estava em R$ 52 no início do ano, caiu para cerca de R$ 32 neste mês. Em função de ser resistente ao glifosato, defensivo poderoso no combate às ervas daninhas, a soja transgênica dispensa o uso de uma gama grande herbicidas usados nas lavouras convencionais, o que acaba gerando uma economia de custos.
Neste ano, porém, algumas cooperativas do Rio Grande do Sul, estado onde há maior plantio de soja transgênica, acertaram com a Monsanto, empresa que detém a patente da soja modificada, o pagamento de royalties de R$ 1,20 sobre cada saca comercializada. Mesmo assim, parte dos agricultores acredita que o plantio é vantajoso.
Na safra passada, os gaúchos plantaram cerca de três milhões de hectares, ou cerca de 90% da sua área de soja, com sementes modificadas. "O Rio Grande do Sul deve manter o plantio na próxima safra", diz Nepomuceno. Pela legislação provisória a comercialização está liberada até o final de janeiro de 2006, mas a comercialização de sementes ainda é proibida. Só podem ser utilizadas sementes que os agricultores já tiverem em suas propriedades.
No próximo ano, porém, deve ocorrer a votação, no Congresso Nacional, da lei de biossegurança, que vai tratar do assunto. Hoje, enquanto a lei de biossegurança diz que compete à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) liberar o consumo e a comercialização de transgênicos, a lei ambiental afirma que o consumo dos produtos transgênicos é prejudicial à saúde. A nova lei define que a CTNBio terá o papel de legislar sobre os transgênicos e terá a ajuda de um conselho de ministros em casos mais complicados.
O economista da Conab, Carlos Eduardo Cruz Tavares, acredita que será muito difícil o país voltar atrás no plantio dos transgênicos após a liberação de duas safras. De acordo com Tavares, em função da presença da soja transgênica no país, os produtores de soja inorgânica terão de comprovar que a soja que produzem não é transgênica para vender a determinados mercados.
"É preciso rastrear e certificar todas as fases da produção e isso custa caro", diz Tavares. De acordo com ele, nem sempre os compradores estão dispostos a pagar mais pela soja convencional, o que torna o custo muito alto para o produtor rural. "Isso vai desestimular o produtor a ter este cuidado. Por isso ele vai plantar a soja transgênica", diz Tavares.
Produtividade
Independentemente da discussão dos transgênicos, o país se prepara também para um aumento de produtividade nas plantações de soja. Pelas previsões da Conab, as lavouras terão uma produtividade 17,6% maior em relação à última safra. Grande parte disso, porém, de acordo com o gerente de levantamento e avaliação de safras da Conab, Eledon Pereira Oliveira, é uma compensação em relação às perdas que ocorreram na colheita passada, em função da estiagem no Sul do país e do excesso de chuvas no Centro-Oeste.
Apesar do preço baixo da soja, os produtores estão optando pelo plantio da commodity em função de que o milho, cultura alternativa para o período, também está com os preços deteriorados. "E a soja tem mais liquidez e melhor estrutura para armazenagem e colheita", diz. Não há muitas perspectivas, porém, de que o preço da soja melhore, já que os Estados Unidos tiveram em 2004 uma safra recorde de 84 milhões de toneladas, o que aumentou muito a oferta no mercado mundial.
Para esta safra, o maior aumento de área foi registrado na região Centro-Oeste do Brasil, onde devem ser colhidas 29 milhões de toneladas. A área plantada na região aumentou em 5,4%. O segundo maior aumento de área ocorreu na região Sul, com 3,5%.
O aumento das exportações, de acordo com Oliveira, vai depender de como estará a demanda em alguns mercados mundiais importantes, como a China. O país é atualmente o principal comprador da soja em grão brasileira.
No ano que vem, o Brasil deverá ter também recorde na produção agrícola como um todo. As estimativas do IBGE indicam uma colheita de 134 milhões de toneladas, com crescimento de 12,38% sobre 2004.

