São Paulo – O Brasil está no topo do ranking da produtividade quando o assunto é a cadeia do agronegócio. De 1960 a 2005, a produtividade agropecuária do país cresceu há uma taxa média anual de 2%. Os brasileiros deixaram para trás países como China (1,8%), Índia (1,5%), Argentina (1,5%), Canadá (0,8%) e Estados Unidos (0,8%). Os dados são do estudo “Brasil Sustentável – Perspectivas do Brasil na Agroindústria”, elaborado em conjunto pela consultoria Ernst e Young Brasil e FGV Projetos, e apresentado ontem (29), em São Paulo. O trabalho considerou os dados econômicos de 100 países, que representam 97% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial.
De acordo com Fernando Garcia, coordenador técnico do projeto, a chegada do país no topo da produtividade é resultado do empenho da iniciativa privada e também da política do governo para o setor. Quatro são os pilares de sustentação do crescimento: a mecanização, o capital para investimento, a formação dos grandes complexos industriais e a liderança tecnológica. “Diante da crise mundial, por exemplo, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) agiu rápido: liberou crédito para aquisição de maquinário, reduziu o IPI para compra de tratores, financiou a importação. A política brasileira não ficou centrada somente em crédito para custeio”, diz.
Outro ponto importante é a política de preços agrícolas do país. “Aqui temos uma política liberal, o que é importante para estimular os investimentos e, conseqüentemente, a produtividade do setor”, diz. Segundo Garcia, a Argentina, adotou um sistema de controlar os preços na pecuária que teve um resultado catastrófico. O setor foi desestimulado e a carne argentina perdeu mercado.
Na iniciativa privada, alguns setores merecem destaque, como celulose, sucroalcooleiro e pecuária de corte. “São segmentos capitalizados, que conseguem financiar avanços tecnológicos, por exemplo”, diz Garcia. As empresas de celulose, por exemplo, estão entre as mais que mais inovaram de 2003 a 2005 – 52% delas promoveram mudanças organizacionais e 14% investiram na inovação de produtos e processos. Quando o assunto é investimento em pesquisa e desenvolvimento, as companhias de celulose também largaram na frente. O estudo mostra que, em 2005, elas gastaram 5,1% do seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento.
Crescimento contínuo
Mas para garantir o crescimento nos próximos anos, o Brasil ainda precisa avançar na política tecnológica. “Temos a Embrapa, que faz um excelente trabalho, mas precisamos de mais técnicos lá”, diz Garcia. Segundo ele, há setores que não conseguem ‘se financiar’ da mesma forma que o de celulose, por exemplo. “Esses segmentos precisam de uma política tecnológica adequada”, afirma. No quadro comparativo com outros países, por exemplo, os gastos da indústria da transformação brasileira (que engloba alimentos, bebidas, papel, celulose, etc.) com pesquisa e desenvolvimento, em relação ao faturamento, ficam bem abaixo da Europa e dos Estados Unidos. No Brasil, são de apenas 0,6%, contra 3,6% das empresas americanas e 5,1% dos europeus. “Esse é um dos gargalos, que se soma à questão da infra-estrutura”, afirma Garcia.
Segundo Garcia, é importante que o país resolva essas questões, pois será pressionado a produzir mais – e de forma sustentável nos próximos anos. “O país é um dos únicos com boas terras não ocupadas, diferentemente de Estados Unidos, Canadá e até mesmo Argentina”, recorda. Os alimentos do Brasil serão importantes no abastecimento da gigante China que, segundo o estudo, em 2030 será o segundo maior mercado importador da agroindústria brasileira – hoje o país é o sétimo no ranking. Ficará atrás apenas dos EUA. As importações chinesas (a preços de 2007) serão de US$ 2,15 bilhões. Será uma garantia do crescimento das exportações brasileiras do setor, que têm crescido, de 1995 a 2005, a uma média de 10,2% ao ano.
Outro ponto que justifica o aumento da demanda por alimentos é o “novo crescimento” mundial. Desta vez são os países em desenvolvimento que estão crescendo. “Acontece mobilidade social e o primeiro setor que cresce é o de alimentos”, diz Garcia. Mais pessoas vão ter acesso a comida e a produtos alimentícios mais sofisticados. Nos países desenvolvidos, quando acontecia o crescimento, a pressão era sobre bens como imóveis, eletrodomésticos, carros etc. As perspectivas para 2030 são de crescimento de renda familiar de 2,5% (Brasil), 6,2% (China), por exemplo, contra 1,1%, no Japão.
O estudo
O estudo sobre a agroindústria é o quinto de uma série desenvolvida pela Ernst e Young e FGV Projetos. O trabalho analisa os horizontes da economia brasileira para as próximas duas décadas considerando setores estratégicos para o desenvolvimento do país. Até agora a série tratou dos seguintes assuntos: potencialidades do mercado habitacional, crescimento econômico e potencial de consumo, competitividade industrial e energia.

