Casablanca e São Paulo – Os empresários que participaram da missão ao Norte da África organizada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) desembarcaram sábado (31) na Base Aérea de Cumbica, em Guarulhos, com a bagagem carregada de pedidos fechados, consultas comerciais, novos contatos e muito trabalho para os próximos meses.
É o caso de François Pequerul, dono da trading Eurocom Brasil, especializada em commodities agropecuárias. Ele fechou negócios nos quatro países visitados pela delegação brasileira, chefiada pelo ministro Miguel Jorge. Na Líbia ele recebeu uma encomenda de arroz, na Tunísia foram cinco contêineres de leite condensado, na Argélia mais 100 toneladas de arroz e, no Marrocos, fez bons contatos, inclusive com a proposta de representação comercial por parte de uma cooperativa local.
Segundo ele, no caso do arroz, os principais fornecedores do Norte da África são países asiáticos e a missão serviu para mostrar aos importadores que o Brasil é uma opção a ser considerada. “Tomamos uma boa posição. Com esses primeiros embarques, se o produto for bem aceito, podemos vir a ter um mercado muito importante”, disse.
Mesmo com a crise financeira, Pequerul acredita que 2009 será um bom ano para os negócios na área de alimentos. Em primeiro lugar porque as pessoas não podem deixar de comer. Além disso, as empresas brasileiras são maleáveis e têm condições de adaptar os produtos às necessidades dos clientes, o que garante um diferencial ao país. “Podemos ajustar o negócio, criar um formato que seja barato, que se adapte à capacidade de importação do cliente”, ressaltou.
Além dos contatos com importadores, a missão rendeu também oportunidades para a trading conseguir novos fornecedores entre as empresas que participaram da própria delegação, uma da área de frangos e outra da de frutas. Pequerul, que já foi diretor da Serlac, principal trading do ramo de lácteos do Brasil, abriu a Eurocom há cerca de um ano e tem contatos em mais de 45 países, sendo que exporta atualmente para 15.
A Serlac também marcou presença na missão, por meio de seu presidente, Alfredo de Goeye. A companhia é responsável pelas exportações da Itambé, maior laticínio do país. “Foi uma ótima oportunidade para estreitar nossos contatos e ampliar nossa base de potenciais importadores”, disse o executivo.
De acordo com ele, a empresa exporta o equivalente a US$ 30 milhões por ano para Líbia, Argélia e Tunísia, sendo que o mercado argelino é o maior. As exportações totais da Serlac giram em torno de US$ 250 milhões anuais. “As perspectivas são muito boas, especialmente na Argélia e Líbia, que são grandes compradores. Esse aumento na base de contatos, mais para frente vai auxiliar a ampliar a colocação de produtos nesses mercados”, declarou.
A MGR Company, que fabrica produtos acabados em mármore e granito no Rio de Janeiro, também fez contatos promissores. De acordo com o diretor da empresa, Ronan Moreira, um potencial importador da Argélia vai visitar a fábrica após o Carnaval. Ele acredita, no entanto, que existem oportunidades nos quatro países visitados.
Neste ramo a missão serviu também para mostrar que o Brasil pode ser um fornecedor alternativo. As nações do Norte da África costumam importar mármores e granitos da Europa. Na Líbia, Moreira vê possibilidades com a expansão de empreendimentos turísticos, na Argélia na área de hospitais e, no Marrocos, na construção civil em geral, incluindo projetos para o turismo.
“As negociações foram mais objetivas, os contatos foram muito bem direcionados pelas embaixadas”, disse o empresário sobre as rodadas de negócios realizadas em todas as etapas da viagem. A MGR participou em novembro da Big 5 Show, em Dubai, principal feira do ramo da construção do Oriente Médio, e pretende investir bastante nas vendas ao mundo árabe.
A gaúcha Widitec, que produz aparelhos para controle de armazenagem de grãos, vê possibilidades especialmente na Líbia e na Argélia. Na Argélia, por exemplo, o governo quer incentivar o aumento da produção de cereais, o que vai impulsionar a demanda por silos e, conseqüentemente, por aparelhos para automação do processo de armazenagem.
“Sempre é muito proveitoso participar de uma missão como essa. A gente conhece o mercado melhor e interage com pessoas de várias áreas, consegue uma abertura maior e mais contatos. É diferente de quando se viaja sozinho”, disse Roberta Dill, que representou a Widitec na viagem.
Interesse recíproco
Para o presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Salim Taufic Schahin, houve grande interesse dos governos e empresas dos países visitados em ampliar as relações com o Brasil na seara comercial. “Existem grandes atividades ocorrendo na região, e em diferentes setores, como infraestrutura, agronegócio, etc.”, afirmou.
Schahin, que participou pela primeira vez de uma missão como presidente da entidade, disse que ficou impressionado com o carinho com que os empresários e autoridades locais receberam a delegação brasileira.
Ele acrescentou que a viagem serviu também para fazer contatos com representantes de outras instituições brasileiras de peso, tanto públicas como privadas. “A viagem foi bastante produtiva, nosso entrosamento com órgãos do governo ajudou a estreitar as relações. Com as autoridades dos países visitados também, convidamos para visitar o Brasil para aproveitar as oportunidades que temos”, declarou. “Falei para os dois lados que não podemos perder esse momento, para fazer um follow up, manter o foco em alguns temas para termos resultados mais rápidos”, acrescentou.

