Geovana Pagel
São Paulo – A primeira linha marítima ligando o Brasil, mais precisamente o estado do Ceará, a Cabo Verde, na África, foi inaugurada no Porto de Macuripe, em Fortaleza. Em fevereiro começam os estudos para a criação de uma rota alternativa saindo do Porto de Santos, em São Paulo, com destino ao Senegal.
A criação da linha Ceará-Cabo Verde significa uma economia de tempo e dinheiro para os dois países. Até dezembro de 2003, as exportações brasileiras para a África tinham de passar pela Europa e a entrega das mercadorias levava em média de 45 a 80 dias. Agora a carga chega ao destino em seis dias, permitindo a venda de produtos perecíveis como frutas, legumes, ovos e leite longa vida.
A iniciativa é da companhia americana Atlantic Shipping Company, que também é responsável pelo investimento de US$ 150 mil por viagem. O presidente da companhia, Victor DePina, conta que há tempos era cobrado pela comunidade empresarial cabo-verdiana para estabelecer essa linha marítima regular direta com o Brasil.
“Hoje Cabo Verde importa entre 90 e 92% de tudo o que é consumido no arquipélago. Desde material de construção a gêneros alimentícios e combustível”.
De acordo com o empresário, a viabilização da linha é resultado de uma série de negociações iniciadas em abril de 2003 entre a Atlantic Shipping, a Companhia Docas do Ceará e a Federação das Industrias do Ceará (FIEC).
“Estabelecemos um acordo comercial. Nós assumimos o risco do investimento, a Federação facilita o negócio trabalhando juntamente com os empresários e dezenas de exportadores cearenses e a Docas do Ceará isenta a cobrança do depósito de contêineres vazios”, explica.
“Optamos pelo Ceará porque o estado apresenta potencial bastante interessante e pelo Porto de Macuripe por sua localização estratégica e condições de operacionalidade”, afirma DePina.
Inicialmente, a empresa vai dispor de um cargueiro/mês, podendo ampliar essa freqüência para quinzenal, dependendo da resposta dos empresários cearenses. "Estamos pensando em importar até veículos produzidos pela indústria local", garante DePina.
Na sua primeira viagem para a África, na primeira semana de dezembro, o navio Mantenha zarpou do porto de Macuripe com 80 contêineres de mercadorias produzidas no Ceará. Foram transportados vergallhões de ferro, colchões, telhas, portas de madeira, leite de coco, móveis, granito e sucos.
Comércio em expansão
O Brasil exportou quase US$ 6 milhões para Cabo Verde de janeiro a outubro de 2002. Em 2003, no mesmo período, somente a venda de produtos cearenses para o país africano atingiu cerca de US$ 200 mil – um incremento de 42,8% em relação aos US$ 140 exportados ao longo de 2002.
O arquipélago de Cabo Verde representa o portão de entrada para os produtos cearenses no continente africano. “Nosso grande objetivo é desenvolver bem o mercado de Cabo Verde para depois penetrar nos demais países da costa ocidental africana”, afirma.
De acordo com DePina, o Senegal é o próximo país com maior potencial para importar os produtos brasileiros. “Em fevereiro estaremos realizando uma viagem de estudo de mercado na região”, conta. Segundo ele, futuramente os mercados de Gana e Costa do Marfim também devem ser prospectados.
Localização privilegiada
O arquipélago do Cabo Verde está localizado no coração do mundo, na encruzilhada da Europa, África e das Américas, a 500 quilômetros do Senegal, na costa ocidental africana. E a 1.300 milhas náuticas, ou cerca de 2.400 quilômetros de Fortaleza, distância essa coberta de avião em menos de três horas e meia.
Cabo Verde tem nove ilhas habitadas, com uma superfície de exatos 4.033 km², para uma população estimada em 450 mil habitantes, cerca de 80% formada de mestiços, 17% de negros e 3% de brancos. O país era escala obrigatória para quem ia à Índia.

