Alexandre Rocha
São Paulo – A primeira unidade do Lineage 1000, avião mais caro da Embraer, lançado este ano, vai ser entregue a um cliente do mundo árabe em 2008. "O avião tem o perfil dos clientes da região", disse ontem (14) o vice-presidente para o mercado de aviação executiva da empresa, Luís Carlos Affonso, durante almoço com jornalistas em São Paulo. Baseado no Embraer 190, a segunda maior aeronave comercial fabricada pela companhia, o Lineage é um jato executivo de grande porte e alcance que custa US$ 41 milhões.
De acordo com Affonso, magnatas da região têm preferência por aviões espaçosos e com grande espaço para bagagem. "O Lineage pode ter cama king size, chuveiro, é como se fosse um quarto de hotel. É um 190, que tem espaço para 100 pessoas, convertido para levar apenas 13", afirmou. Outra vantagem, segundo ele, é a autonomia: o jato pode voar 7,5 mil quilômetros sem escalas, o suficiente para ir de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, a Londres.
Affonso não revelou o nome do cliente, nem o país de origem, mas disse a maioria dos pedidos pelo novo modelo foi feita na região. De acordo com ele, no total foram encomendados entre cinco e 10 unidades do Lineage até o momento, a empresa não revela o número exato. A boa aceitação do jato no mundo árabe é considerada natural, uma vez que os gosto dos clientes locais em potencial foi levado em consideração em sua concepção, conforme antecipou a ANBA em reportagem publicada em 12 de julho deste ano.
"Por causa das características dos nossos aviões estamos bem posicionados na região", disse Affonso. Além da Lineage, o Legacy 600, jato executivo de médio porte, tem feito sucesso entre os árabes, não só os magnatas, mas empresas que utilizam o modelo para transporte de executivos. "As cabines dos aviões da concorrência têm em média dois terços do tamanho da do Legacy, na mesma faixa de preço. A cabine grande é uma característica chave na região", afirmou. O Legacy custa US$ 24,5 milhões.
Aviação comercial
Mas não é só na aviação executiva que a Embraer tem obtido sucesso entre os árabes. Do ano passado para cá, a empresa vendeu para empresas da região aviões comerciais da família 170/190, que têm entre 70 e 120 assentos, sendo 15 para a Saudi Arabian Airlines, sete à Royal Jordanian, seis à EgyptAir e um à Sirte Oil Company, petrolífera da Líbia. "O transporte aéreo na região deve crescer entre 6% e 8% ao ano. Há potencial para vender em torno de 100 aviões do porte dos nossos (até 120 assentos) em 10 anos", disse o vice-presidente para o mercado de aviação comercial e futuro presidente da Embraer, Frederico Fleury Curado.
Segundo ele, até agora a Embraer tem conquistado a maior parte dos pedidos por jatos com este perfil, voltado à aviação regional, feitos pelas companhias da região. Curado disse que a venda feita à Saudi Arabian, uma companhia tradicional que é referência no mundo árabe, ajudou a abrir as portas e "chancelar" o produto brasileiro no mundo árabe. Daí vieram os pedidos de outras companhias de peso como a EgyptAir e a Royal Jordanian.
Para atender aos clientes conquistados, a Embraer já tem funcionários residentes em Jeddah, na Arábia Saudita, e em Amã, na Jordânia, para dar assistência técnica em tempo integral aos clientes. Em breve a empresa terá um funcionário residente também no Cairo.
Curado acrescentou que a empresa faz um trabalho na região que inclui entender a cultura local e conhecer as empresas que operam por lá, para oferecer o produto ideal. "O avião comercial é uma ferramenta, as empresas compram para ganhar dinheiro. Por isso é preciso conhecer o mercado para oferecer a solução ideal", disse. "E o brasileiro tem boa flexibilidade, capacidade de adaptação e procura falar a linguagem do cliente", afirmou.
Neste sentido, aviões encomendados pelas companhias árabes são de diferentes modelos, indicados para usos específicos. Para Arábia Saudita e Egito, países de grandes dimensões territoriais, o modelo escolhido foi o Embraer 170, o menor da família 170/190, para operar em rotas domésticas. Já a empresa da Jordânia, um país pequeno, encomendou o Embraer 195, o maior avião da indústria brasileira, com o objetivo de utilizá-lo em vôos internacionais. Curado acrescentou que os aviões "se saíram super bem" ao operar nas condições da região, que incluem o calor e a areia do deserto.
Governos
A adaptabilidade também é considerada um diferencial na área de defesa e governo. O vice-presidente para o mercado de defesa e governo, Luiz Carlos Aguiar, acredita na possibilidade da empresa fechar contratos no setor com países árabes no futuro próximo. "Acreditamos no potencial do mercado e estamos trabalhando nele faz algum tempo", afirmou. "E não existem ressalvas, nossos produtos são flexíveis e capazes de integrar sistemas diferentes", acrescentou. Isso quer dizer que a finalização dos aviões pode até ser feita no destino, utilizando equipamentos e mão-de-obra local.
Para ele, entre os países árabes que apresentam maior potencial nesta área estão a Arábia Saudita, Emirados Árabes e Egito. Em termos de produtos, o executivo acredita que, em primeiro lugar, o mercado é mais propício para aeronaves para transporte de autoridades, versões para governos dos jatos executivos e comerciais da Embraer; em segundo lugar para o Super Tucano, caça turboélice para treinamento avançado e ataque leve; e, em terceiro lugar, para as aeronaves de vigilância. A Embraer realizou no início deste ano um tour com o Super Tucano por países da África, Ásia e Oriente Médio, incluindo vários árabes.
Para o próximo ano, a empresa já tem algumas ações de promoção comercial previstas para a região, como a participação na conferência Middle East Business Aviation (Meba), em Dubai, onde Luís Carlos Affonso, fará uma palestra, e na Dubai Air Show, feira que vai ocorrer no segundo semestre.
Investimento de US$ 2,6 bilhões
Com a abertura de novos mercados, ampliação do número dos pedidos e o lançamento dos novos modelos, a Embraer pretende investir US$ 2,6 bilhões nos próximos cinco anos, de acordo com o presidente da empresa, Maurício Botelho. A companhia prevê contratar mais de 3 mil profissionais em 2007.
Só na área de aviação executiva, vão entrar em operação entre 2008 e 2009 três novos modelos, os pequenos Phenom 100 e Phenom 200 e Lineage. Affonso, disse no entanto que novos modelos deverão ser lançados. "Nossa visão de longo prazo é ter um número maior de opções", afirmou. De acordo com ele, o mercado tem condições de absorver pelos menos dois modelos intermediários entre os Phenom e o Legacy e até outros dois entre o Legacy e o Lineage.
O total de entregas, sendo que a aviação comercial responde por 70% dos negócios, deverá ficar em 135 unidades em 2006, entre 160 e 165 em 2007 e entre 195 e 205 em 2008, sem contar os aviões militares. Para Botelho, que deixa o comando da empresa em abril dando lugar para Curado, o fato mais relevante ocorrido em 2006 foi a pulverização do capital da empresa. "Este foi o fato mais significativo desde a privatização da companhia (em 1995), estamos galgando o patamar da maioridade", afirmou.
Com a dispersão do capital, a empresa deixou de ter um grupo controlador e passou a fazer parte do Novo Mercado da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Ela tem ações negociadas também na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE). "O nosso crescimento agora não depende da vontade de ninguém, só da nossa capacidade", acrescentou Botelho, que vai permanecer na companhia como presidente do conselho de administração.

