Petrolina – A temperatura é alta: 45 graus nos meses mais quentes. A chuva chega só de vez em quando e não deixa muito mais que 500 milímetros de água na terra. O solo, pouco fértil, uma variação de argila e areia, é também raso, tem menos de dois metros de profundidade. A vegetação da caatinga arde sob o sol forte. Quem chega a esse ambiente, no interior de Pernambuco e do Piauí, uma das regiões mais castigadas do semi-árido brasileiro, dirá que é melhor não plantar ou criar nada por ali. Se embrenhando um pouco mais pelas estradas, porém, é possível descobrir que há gente que não pensa assim. A paisagem vai revelando pequenos oásis da produção. São sertanejos que teimam em levar tecnologia para o sertão e fazer da terra da seca também uma terra de alimentos.
São mulheres e homens como Luzinéia de Souza Rodrigues Amorim e João Batista Amorim, que moram no interior de Acauã, no estado do Piauí, uma das cidades mais pobres do Brasil. A casa onde Luzinéia e Batista vivem com os dois filhos, Leorodrigo, de 12 anos, e Beatriz, de sete anos, fica no meio da caatinga, isolada da cidade, em uma região de seca. Ao redor da pequena propriedade do casal, porém, uma odisséia de alimentos: milho, verduras, legumes, palma, sorgo, mandioca, cana-de-açúcar, feijão, cabras, ovelhas e bois. O milagre da produção, na casa de Batista e Luzinéia, é fruto de ações simples. A principal: a criação de um barreiro, escavação feita na terra para reter a água da chuva.
A lavoura de milho de Batista, de meio hectare, plantada no final de fevereiro, tomou apenas 40 milímetros de chuva na safra atual. Mas deve render 480 quilos, número considerado bom para os padrões da região. Foi o barreiro quem garantiu duas irrigações para a lavoura. A pequena represa é feita em uma área alta próxima à lavoura, que também deve estar em um terreno inclinado. Quando falta chuva, a água do barreiro vai por meio de um encanamento até a lavoura, onde desce pelas curvas de nível molhando a terra. O milho plantado por Batista, assim como o sorgo, que também recebeu água do barreiro, serve para alimentar os animais na época da seca, quando o capim, castigado pelo sol e a falta de chuva, perde suas propriedades.
“Antes os bichos ficavam magrinhos na seca”, diz Luzinéia, sobre as safras anteriores ao barreiro. Esse é, na verdade, um dos maiores desafios dos homens do campo do semi-árido: manter as criações de ovinos, bovinos e caprinos bem alimentadas durante o período de seca, que vai de agosto a outubro. Nessa época, a própria caatinga, que abastece os bichos, e o capim, minguam. O sertanejo tem usado, então, cada vez mais tecnologias difundidas por associações e instituições de pesquisa e ensino que trabalham com o semi-árido para manter suas criações e plantações vivas na seca. A confecção de feno e silagem, por exemplo, são dois exemplos. Os dois são feitos com plantas que florescem no período de chuvas, de novembro a março, e podem ser guardados para alimentar os animais na período seco.
Os dois processos não são novos, assim como o barreiro, mas foram aprimorados e o seu uso vem se difundindo entre os sertanejos. “Havia um conhecimento acumulado. Hoje este conhecimento foi associado à tecnologia”, diz o chefe-geral da unidade Semi-Árido da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Pedro Carlos Gama da Silva, doutor em Economia Aplicada. A unidade da Embrapa fica em Petrolina, no estado de Pernambuco. O produtor Luzivaldo Leonardo de Macedo, do interior de Dormentes, cidade pernambucana, por exemplo, sabia da existência da silagem. Mas só aprendeu a fazê-la da forma correta no ano passado. Hoje é ela quem ajuda a manter as suas ovelhas gordinhas nos meses de seca.
Uma agricultura para a seca
Falar em “combater” a seca é hoje, no semi-árido brasileiro, quase um palavrão. Agora os homens dali estão aprendendo a “conviver” com a seca. Para pecuaristas e agricultores isso significa usar sementes mais adequadas ao clima, armazenar água da chuva para o período de escassez, complementar a alimentação animal na época da seca, investir nas culturas que se desenvolvem bem em lugar de sol forte e solo pouco fértil. Esse movimento pode ser percebido, no interior de Pernambuco e Piauí, em rápidas conversas com os pequenos produtores. O seu Pedro Cesário dos Santos, do interior de Petrolina, passou a desidratar a mandioca para dar aos animais. José Leonardo de Macedo, de Dormentes, começou a fazer silagem. José dos Santos, do interior de Afrânio, agora tem curva de nível na lavoura.
A Embrapa Semi-Árido vem trabalhando também lado a lado com os produtores para garantir colheitas de maior resultado na terra da caatinga. Milho, melancia, feijão, capim, girassol, sorgo. Todos estes produtos e outros ganharam variedades adaptadas para o semi-árido na Embrapa. Já é utilizada pelos produtores, por exemplo, uma variedade de milho chamada Caatingueiro cujo ciclo – do plantio à colheita – é de 90 dias. Por ser precoce precisa de um período menor de chuvas. Enquanto o milho convencional é colhido após 130 dias e precisa de chuvas até o seu 70º a 80º dia, o Caatingueiro precisa de chuvas até o seu 60º dia.
“Há uma série de alternativas tecnológicas que permitem conviver com o semi-árido de forma sustentável. O milho com ciclo mais curto garante a produção e diminui a pressão sobre os recursos naturais”, diz Gama. O trabalho de instituições sociais, educativas e de pesquisa na região caminha para um mesmo lugar: fazer o homem viver cada vez melhor no semi-árido.


