Randa Achmawi, especial para a ANBA
Cairo (Egito) – O aumento das exportações do Brasil para os países árabes pode ser constatado nas prateleiras dos shopping centers e supermercados da região. No caso do Egito, aos poucos os produtos brasileiros ganham espaço no mercado. E o que é mais importante: Vêm conquistando a confiança do público.
As listas oficiais mostram que uma centena de produtos brasileiros podem ser encontrados no mercado egípcio. A variedade é muito grande, o Egito compra desde alimentos como café, carne e chocolates até mercadorias extremamente sofisticadas, como respiradores automáticos para uso hospitalar.
Destes, no entanto, somente alguns são encontrados com freqüência nas lojas, grandes centros comerciais e supermercados e, por conseqüência, são bastante conhecidos do consumidor. Nos corredores dos shoppings o melhor exemplo são os sapatos, tênis, chinelos e sandálias brasileiras das marcas Grendene e Azaléia.
Em shoppings egípcios como o Geneina Mall, City Center, City Stars, Arcádia Mall ou Grand Mall, é possível encontrar lojas famosas onde pelo menos a metade dos calçados vendidos são importados do Brasil (leia mais no link abaixo).
No Geneina Mall, shopping center situado em Nasr City, a 15 quilômetros do centro do Cairo, é possível ver os calçados brasileiros logo na entrada. As vitrines estão repletas destes produtos e pode-se facilmente reconhecer os nomes das marcas escritos nas caixas de sapatos empilhadas, assim como em pôsteres de propaganda.
"Aqui temos o Brasil nas vitrines. Quatro dos cinco modelos de calçados da Grendene que vendemos são decorados com uma bandeirinha do Brasil", contou Adel Shaker, representante da Grendene no Egito e proprietário de várias lojas. Ele fica feliz em dizer que suas lojas são decoradas com inúmeras fotos do Brasil. "Decidi dar o nome de Copacabana às minhas lojas, que evoca o famoso bairro do Rio de Janeiro e faz com que as pessoas pensem no Brasil", acrescentou.
Shaker disse que trabalha com calçados brasileiros desde 1995 e distribui cinco modelos da Grendene: Grendha, Melissa, Ginga, Ipanema e Rider. Tais produtos podem ser encontrados em mais de 60 lojas no Cairo, Alexandria, Luxor, Aswan, Port Said, Urgada, Taba e Sharm El Sheik. "Fico contente em dizer que este ano importamos mais de 150 mil pares de sapatos no valor de US$ 600 mil somente desta marca", afirmou.
Mas as ambições de Shaker, que se diz totalmente apaixonado pelo Brasil, não param por aí. Ele tem planos de abrir nos próximos meses duas lojas da gaúcha Via Uno no Cairo. "Neste caso, nós não só venderemos os calçados de couro desta marca, mas as lojas terão as mesmas características de suas filiais em qualquer lugar no Brasil", declarou.
Qualidade e preço
Além dos calçados, diversos outros produtos brasileiros já fazem parte do cotidiano egípcio e são facilmente encontrados. Entre eles estão travessas das marcas Marinex e Oxiforno; talheres e tesouras da Tramontina; pratos e xícaras; móveis desmontáveis; fogões, geladeiras e freezers. Tais mercadorias são vendidas tanto em grandes lojas como Carrefour, Omar Effendi, Abou Zikri ou El Ogueil, quanto em lugares menos conhecidos.
Os preços dos produtos brasileiros são, na maioria das vezes, inferiores aos equivalentes europeus. As travessas Marinex da Santa Marina, por exemplo, são freqüentemente vendidas por pouco mais da metade do preço do famoso Pyrex francês.
Quanto aos móveis desmontáveis, os preços são semelhantes aos dos similares coreanos, sendo que, segundo a opinião de alguns consumidores, os brasileiros têm qualidade comprovadamente superior. "Estes produtos podem ser encontrados também em balneários, como Alexandria e Urgada", disse Abdel Rahman Abdel Wahed, importador de algumas destas mercadorias.
Café
Nos supermercados, embora os produtos brasileiros estejam à venda, eles não são tão conhecidos. Isso se constata no comportamento dos funcionários e revela que ainda há pouca exploração da marca "Brasil".
Quando questionados sobre mercadorias brasileiras, os funcionários logo falam sobre café. Nas prateleiras o que se vê são pacotes onde se lê em árabe: "Café Brasileiro". No entanto, não se encontra nenhuma marca brasileira própria. As marcas expostas são geralmente italianas ou gregas, que são comercializadas nas mesmas embalagens de seus países de origem e consumidas pelas elites egípcias, que adquiriram o hábito de tomar café coado, ou por ocidentais residentes no país.
Quanto ao produto brasileiro, é embalado no Egito mesmo e vendido moído à maneira oriental, em pequenos pacotes de papel e destinado ao consumo do grande público, que prefere o "café turco" (não coado).
"Na verdade, este produto tradicional brasileiro, e que possui uma reputação tão sólida, poderia sem nenhuma dificuldade competir, ou mesmo se impor por sua qualidade, sobre as outras marcas internacionais presentes no mercado egípcio", disse Ibrahim Mohamed Soudan, um dos maiores importadores de alimentos brasileiros, presidente da Port Said Modern Trade Development (Soudanco).
Mas esse cenário pode começar a mudar por iniciativa do próprio importador. "O que é surpreendente é que até agora as maiores e melhores marcas de café brasileiro não estão disponíveis aos consumidores egípcios. É por isso que tenho a intenção de trazer para o Egito as melhores marcas de café do Brasil", disse ele.
Carne enlatada
Soudan também comercializa outros produtos brasileiros conhecidos no Egito, como é o caso das carnes em conserva. "Eu importo este produto do Brasil há mais de 18 anos. Na verdade o Brasil conseguiu obter o monopólio de vendas de carnes em conserva para o Egito. Não é possível encontrar nenhum outro produto do gênero, importado de qualquer outro país", afirmou.
Segundo ele, essa exclusividade existe pois cada vez mais são colocadas restrições à importação de carnes européias. Além disso, o Brasil usa o sistema de solda elétrica nas latas de conserva. "E nós aqui damos preferência a este sistema em relação ao modo de solda convencional aceito pela grande maioria dos paises", explicou Soudan.
O Egito importa anualmente o equivalente a US$ 7 milhões em carnes em conserva, mas o valor já foi maior, chegou a US$ 10 milhões há alguns anos. "Com a desvalorização da libra egípcia em relação ao dólar, o preço da unidade aumentou bastante, logo este produto ficou menos acessível ao bolso do consumidor médio", afirmou o empresário. Hoje uma lata contendo 350 gramas é vendida nos supermercados por 8,50 libras egípcias, ou US$ 1,35.
O fato de o Brasil ser o único fornecedor, segundo Soudan, permite ainda um controle de preços. Ele diz que se os produtores brasileiros vendessem a preços menores, a importação deste tipo de mercadoria seria maior. "De todo modo, apesar do aumento de preço, os egípcios continuam gostando muito da carne enlatada brasileira, e mantêm o hábito de consumi-la regularmente em jantares leves, passeios e viagens de férias", concluiu.

