Alexandre Rocha
São Paulo – O Brasil precisa correr atrás de mercados e mostrar o seu potencial. A tese foi defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em discursos ontem (21) na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e na quarta-feira (20), à noite, na abertura do Salão do Automóvel, em São Paulo.
"(Antigamente) nós tínhamos uma loucura de só olhar os Estados Unidos e a Europa e esquecer que a geografia comercial do mundo muda na medida em que você encontra parceiros, e foi isso que nós fizemos", disse o presidente ontem. "Nós respeitamos profundamente as nossa relações com os Estados Unidos, com a União Européia, com o Japão, com a França, mas o dado concreto e objetivo é que o mundo é muito maior do que esses mercados e cabe a nós sairmos para vender aquilo que nós temos de melhor", declarou Lula na quarta-feira.
Nas duas ocasiões o presidente citou os países árabes como exemplo dessa busca por mercados alternativos. "Foi com essa determinação que nós tomamos a atitude de visitar os países árabes. A última autoridade brasileira a visitar o Líbano foi Dom Pedro (II), em 1876. Ora, se nós queremos competir com os países ricos, no mercado árabe, nós é que temos que ir lá falar bem de nós; mostrar os nossos produtos; mostrar o que sabemos fazer – roupa, calçado, carro e o que mais eles quiserem", afirmou.
"Eu falei: vamos visitar o Oriente Médio. Vamos mostrar para eles que nós existimos, que aqui nós temos Foz do Iguaçu, que é mais bonita que (as cataratas do) Niágara (na fronteira do Canadá com os EUA), que temos mão-de-obra qualificada, que sabemos produzir carros de qualidade, que temos tecnologia. Nós não somos apenas um mero exportador de produtos in natura, nós poderemos competir em muitas outras áreas com qualquer país do mundo, mas nós temos que acreditar e nós temos que fazer", acrescentou.
Com freqüência Lula cita a viagem que fez a cinco países árabes, em dezembro de 2003, e o aumento do comércio com a região para dizer que a política externa de seu governo é bem sucedida. As exportações do Brasil para os 22 países da Liga Árabe crescem em um ritmo bem maior do que o das exportações brasileiras em geral e, entre janeiro e setembro, elas já superaram o total do ano passado.
Nos primeiros nove meses do ano, os embarques para a região renderam mais de US$ 3 bilhões, com um aumento de 62% em relação ao mesmo período do ano passado. Em todo o ano de 2003, as exportações para os árabes somaram US$ 2,76 bilhões e haviam crescido apenas 6% em relação a 2002.
Competitividade
Mas Lula foi além. Entusiasmado pelo aumento das exportações em geral, que até a terceira semana de outubro renderam US$ 74,9 bilhões e já superaram o total do ano passado (US$ 73 bilhões), ele disse que, aliado a uma agricultura forte, o país tem também produtos com alta tecnologia e valor agregado que podem garantir que o Brasil deixe de ser chamado de "país em vias de desenvolvimento".
"Já estamos maduros, adultos, e queremos, logo, logo, ser tratados como um país capaz de competir em igualdade de condições com qualquer potência econômica do mundo", declarou.
Na avaliação de especialistas consultados pela ANBA, o Brasil realmente tem condições de competir com os países desenvolvidos em uma série de setores, como é o caso do agronegócio como um todo, da siderurgia, da indústria de veículos, de alguns segmentos do setor de bens de capital, dos implementos agrícolas, da área de papel e celulose, da mineração, do setor petrolífero e da indústria aeronáutica.
"Creio que o que o presidente quis falar é que o Brasil já incomoda em algumas áreas os países desenvolvidos", disse o diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Julio Sérgio Gomes de Almeida. "Nestes segmentos, as empresas instaladas no Brasil não devem nada às sediadas nos países desenvolvidos", acrescentou. "Se o presidente quis dizer que o país não tem economia débil, que os empresários são competentes e os produtos têm qualidade, ele acertou", afirmou o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Ardisson Akel.
No entanto, os especialistas alertam que o Brasil perde em competitividade em comparação com os países mais ricos por razões como as deficiências no sistema de transportes e logística, a alta carga tributária e o elevado custo do crédito. "Os problemas do Brasil estão fora das portas das fábricas e das porteiras das fazendas", disse Almeida.
Akel acrescentou que o país precisa também investir mais no marketing de seus produtos para fortalecer a "marca Brasil". "O Brasil, por exemplo, é um grande produtor de cacau e não é conhecido pelos chocolates", afirmou.
Potencial o Brasil tem, mas precisa superar barreiras. "Se falarmos no potencial, é possível que o Brasil venha a ter essa competitividade. Mas para realizá-lo existem muitas etapas que precisam ser cumpridas", opinou o presidente do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco), Emerson Kapaz.
Estas etapas, segundo Kapaz, são justamente a superação dos gargalos de logística, tributários, de crédito, entre outros. Ele reconhece, no entanto, que já podem ser observados alguns movimentos no sentido de superar tais problemas. "O próprio reconhecimento de que esses problemas existem e precisam ser enfrentados já é um passo extraordinário", afirmou. Kapaz citou também a política industrial lançada pelo governo no primeiro semestre, que embora ainda tenha que evoluir, por si só já demonstra um avanço.
Em sua avaliação, se o Brasil já tivesse superado tais barreiras, sua economia poderia crescer de maneira sustentável na base de 5% a 6% ao ano, não entre 3% e 4%, como se estima que será o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) até o final de 2004.
Já o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Armando Castelar Pinheiro, lembrou que o desenvolvimento de um país não se mede somente por suas exportações, mas pelo padrão de vida de sua população, ou pelo menos parte dela. Neste quesito ainda há muito a fazer no Brasil. "É isso que justifica que o Brasil tenha um tratamento diferenciado nas relações internacionais, não para promover a competitividade, mas o desenvolvimento", declarou.

