Alexandre Rocha
São Paulo – Crescimento da receita, redução de dívidas e lucros recordes. Fatos como estes fizeram parte dos balanços de várias empresas brasileiras de capital aberto no primeiro semestre de 2005. De acordo com um levantamento feito pela consultoria Economática, as receitas somadas de 107 companhias, que apresentaram seus relatórios semestrais até o final da semana passada, aumentaram em 11,2% e os lucros em 63%.
Entre as empresas que tiveram os maiores lucros no semestre estão mineradoras, siderúrgicas, prestadoras de serviços de telefonia, fornecedoras de energia elétrica, fábricas de celulose e papel, petroquímicas, entre outras. Os bancos ficaram de fora do levantamento, assim como as estatais Petrobras e Eletrobrás.
De acordo com especialistas ouvidos pela ANBA, em várias situações, um dos fatores que mais contribuiu para o crescimento da receita das empresas foi o aumento das exportações e especialmente do preço das mercadorias vendidas no mercado internacional, o que compensou as perdas com a forte valorização do real frente ao dólar. A cotação da moeda norte-americana caiu 24,3% entre 30 de junho do ano passado e 30 de junho de 2005.
Embora a Petrobras não faça parte do levantamento, o desempenho da empresa serve como exemplo desse fenômeno. No primeiro semestre ela teve uma receita líquida de R$ 62,256 bilhões, 22% a mais do que no mesmo período do ano passado. O lucro, por sua vez, aumentou em 40% e ultrapassou os R$ 9,9 bilhões, um recorde histórico. Relatório divulgado nesta segunda-feira (15) pela companhia aponta como um dos principais fatores que influenciaram os números o "acréscimo nas exportações, reflexo das maiores cotações do petróleo no mercado internacional e dos volumes (embarcados)".
Foi o caso também da Companhia Vale do Rio Doce, que teve um faturamento de R$ 17,1 bilhões e um lucro líquido de mais de R$ 5,094 bilhões, contra R$ 2,637 bilhões no primeiro semestre do ano passado. O lucro da mineradora foi maior do que os números somados dos dois maiores bancos do Brasil, o Bradesco e o Itaú, que também tiveram resultados excelentes. A empresa aponta a recuperação nos preços das commodities, o minério de ferro especialmente, como um dos principais fatores para o desempenho.
Mais um exemplo é o do grupo Gerdau, do setor siderúrgico e metalúrgico. O faturamento somado das empresas do grupo, no Brasil e no exterior, foi de R$ 13,4 bilhões, ou 18,6% superior ao registrado no primeiro semestre de 2004, e o lucro registrado foi de R$ 1,7 bilhão, ante R$ 1,3 bilhão nos primeiros seis meses de 2004. O aumento do valor médio das mercadorias também foi apontado como uma das principais razões para o desempenho do conglomerado, além do crescimento do volume exportado.
"A economia mundial vive um excelente momento, o que puxa as exportações para cima, tanto em quantidades, quanto em preço", disse o economista Armando Castelar Pinheiro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). "O efeito da valorização do real foi compensado por preços internacionais melhores", acrescentou o diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Julio Sérgio Gomes de Almeida. O apetite da China por matérias-primas e insumos é visto como um dos pivôs do aquecimento da economia mundial.
Câmbio reduz dívidas em real
Embora os empresários brasileiros dos setores exportadores venham reclamando da valorização do real, ela acabou beneficiando as companhias brasileiras endividadas em moeda estrangeira. Ou seja, a desvalorização do dólar contribuiu também para a diminuição da dívida das empresas em moeda nacional. "O ganho financeiro foi muito elevado. O lucro das empresas foi turbinado por conta da queda da dívida externa delas expressa em moeda nacional", disse o coordenador da Economática para a América Latina, Einar Rivero. Segundo o levantamento da consultoria, a dívida das empresas caiu em média quase 21% no período.
O grupo siderúrgico Usiminas, por exemplo, que teve um lucro de R$ 1,8 bilhão, viu sua dívida líquida cair de R$ 6 bilhões no primeiro semestre de 2004, para R$ 2,4 bilhões no mesmo período deste ano. A empresa destacou em seu balanço que a valorização do real teve um "impacto positivo" na redução de sua dívida. "A valorização do real teve um impacto muito forte no passivo das empresas que tomaram recursos no exterior, o ganho para elas foi muito grande", declarou Castelar.
O mesmo ocorreu com a Petrobras. "No balanço consolidado, a apreciação de 12% do real frente ao dólar, no segundo trimestre de 2005, gerou um ganho sobre os passivos monetários líquidos, vinculados ao dólar, das empresas controladas sediadas no Brasil", diz o relatório divulgado pela companhia.
Serviços
Mas não foram somente as exportadoras que tiveram bons resultados no período. Entre as mais lucrativas do Brasil estão empresas do setor de serviços, como a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), que teve um lucro de R$ 1,041 bilhão, e a Telefônica/Telesp, que lucrou mais de R$ 1,1 bilhão.
Na avaliação de Rivero, além da redução da dívida externa, estas empresas se beneficiaram do aumento de tarifas cobradas sobre o fornecimento de energia elétrica e de serviços de telefonia. Outras companhias destes setores também aparecem entre as mais lucrativas, como a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) e Telemar Norte Leste.
Para Castelar, o bom desempenho das companhias abertas foi influenciado também pelo mercado interno. Esta opinião, no entanto, não é unânime entre os especialistas. O economista do Ipea diz que o desempenho geral da economia brasileira foi bom em 2004 e isso se refletiu no primeiro semestre deste ano.
"Isso se refletiu na indústria automobilística, por exemplo", disse. Foram comercializados 800.128 veículos novos no país no primeiro semestre, um aumento de 10,7% em comparação com o mesmo período do ano passado. Já Almeida, do Iedi, afirma que o mercado interno "não melhorou, mas também não piorou".
Rentabilidade
Além do crescimento das receitas e lucros e da redução das dívidas, outros números positivos foram identificados nos balanços. Segundo o levantamento da Economática, a rentabilidade média sobre o patrimônio das empresas pesquisadas passou de 14,2% para 22,1% no período de 12 meses até 30 de junho. "É um número muito expressivo, muito significativo especialmente para as empresas industriais", declarou Rivero.
Ele destacou também a variação do lucro operacional próprio sobre a dívida das empresas, que saiu de 20,4% para 29,5% na comparação entre o primeiro semestre deste ano e o mesmo período de 2004. Isso, segundo Rivero, demonstra o aumento da capacidade de pagamento das empresas.
"Isso significa que para cada R$ 100 reais de dívida as empresas geram R$ 29 de lucro, o que mostra uma capacidade realmente elevada de pagamento, de solvência, e a possibilidade de se captar recursos a taxas mais baixas", declarou. Para ele, até o final do ano, o percentual poderá crescer para 60%.
Aliás, diante dos números apresentados no primeiro semestre, os economistas estão otimistas em relação ao segundo. "O quadro deve se manter", acredita Rivero. Para Castelar, não só a economia mundial, mas também a brasileira deve apresentar bons resultados no período. Isso, em sua avaliação, deverá ocorrer de modo mais acelerado se for reduzida a taxa básica de juros. "Diria que há um quadro muito favorável para as empresas", acrescentou Almeida.

