Alexandre Rocha
São Paulo – O cerrado responde por mais de 50% da produção brasileira de grãos, estimada este ano em 119,7 milhões de toneladas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O volume produzido na região, porém, pode mais do que dobrar no futuro só com ganho de produtividade e um melhor manejo de terras já utilizadas na pecuária. Segundo especialistas do setor, o cerrado tem todas as condições de se transformar no celeiro do mundo.
"Eu diria até que já é", disse Roberto Teixeira, chefe-geral da unidade responsável pelo cerrado na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). "O cerrado sozinho pode alimentar pelo menos 200 milhões de pessoas e essa é uma previsão até conservadora", acrescentou o engenheiro agrônomo Edson Lobato, consultor e pesquisador aposentado da Embrapa.
Ampliar a área plantada e ao mesmo tempo evitar o desmatamento é hoje uma das prioridades da Embrapa. Nesta seara, a promoção da integração lavoura-pecuária é o principal projeto. Embora a técnica tenha sido introduzida nos anos 80 ela ainda é pouco utilizada e o objetivo é fazer com que cada vez mais pastagens sejam usadas na agricultura.
"Trata-se de uma medida de grande impacto e que terá muito mais impacto nos próximo 20 anos", disse Teixeira. "É uma prioridade nossa e do governo federal", acrescentou. A integração lavoura-pecuária consiste na utilização de parte de uma fazenda de gado para o plantio de algum produto agrícola, com rotatividade sazonal das terras utilizadas e das culturas. De acordo com a Embrapa, no cerrado 60 milhões de hectares são cobertos por pastagens cultivadas e boa parte está degradada.
Segundo Teixeira, se os pecuaristas destinassem 30% de suas terras à lavoura seriam agregados mais 18 milhões de hectares à agricultura no cerrado, mais do que toda a área plantada hoje com cultura anuais e perenes, que é de 17,5 milhões de hectares. "Com isso é possível dobrar a produção do cerrado", afirmou Teixeira. "E a agricultura é a única forma de se recuperar pastos degradados. A plantação ajuda a fixar o calcário e nutrientes no solo e, quando você faz a rotatividade, volta a ter um pasto de melhor qualidade", acrescentou ele, lembrando que a rotatividade de culturas é importante para não esgotar o solo.
Lobato vai mais adiante. Para ele, "com bom manejo", é possível acomodar todo o rebanho do cerrado em um terço das terras utilizadas atualmente, liberando 40 milhões de hectares para a lavoura. "É uma situação única no mundo. Temos condições de aumentar muito a produção sem desmatar, apenas utilizando melhor aquilo que já está em uso", afirmou.
Um dos principais entraves, no entanto, é convencer os criadores a tornarem-se agricultores ou a arrendar parte de suas terras para quem tem interesse em plantar. Para incentivar este sistema, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou a criação de uma linha de crédito de R$ 200 milhões para financiar produtores comprometidos com tal prática. "É preciso ter visão, se o pecuarista não quer plantar, basta arrendar a terra porque muita gente tem interesse", declarou Teixeira.
Ganho de produtividade
No que diz respeito ao ganho de produtividade, pesquisadores e produtores apostam cada vez mais no uso de novas tecnologias. Uma delas, que já está em utilização no oeste da Bahia e em parte de Minas Gerais, chama-se "stress hídrico visando a uniformização da flora do cafeeiro". A técnica de nome extenso consiste num controle maior da irrigação das plantações de café.
De acordo com Teixeira, o cerrado tem temporadas de chuvas e seca bem definidas e é comum os produtores irrigarem os pés de café durante toda a época de seca, que vai de abril a setembro. Com isto há um gasto grande com água e energia elétrica e, mesmo assim, os grãos amadurecem de forma desigual. Ou seja, na hora da colheita parte dos grãos está madura e outra não.
A pesquisa da Embrapa descobriu que cortar a irrigação por 65 dias no período de seca – daí o nome "strees hídrico" – e depois voltar a irrigar a plantação resulta em uma florada mais uniforme e, conseqüentemente, faz com que a maioria absoluta dos grãos amadureça ao mesmo tempo. "Isto aumenta a produtividade, a qualidade e, por conseqüência, o preço do café. O valor da saca pode até dobrar", afirmou Teixeira. De acordo com ele, a economia de água e luz chega a 33%. "A tendência é que o uso desta tecnologia aumente cada vez mais", disse.
Lobato acrescentou que com técnicas já disponíveis é possível ampliar muito a produtividade. Segundo ele, a produtividade média da soja no cerrado é de 2,8 toneladas por hectares, sendo que os bons produtores chegam a colher de 4,2 a 4,5 toneladas. No caso do milho, a média é de quatro toneladas, mas os bons produtores colhem 11. "Ou seja, se trouxermos a produtividade do milho para o nível dos bons produtores o ganho será de 175% e, no caso da soja, de 60%", afirmou.
Diversificação de culturas
Além do aumento da área plantada e da produtividade, as previsões sobre o futuro do cerrado incluem também a diversificação das culturas. Uma das apostas é a agroenergia, como a produção de cana-de-açúcar para a produção de etanol e de diversos tipos de oleaginosas para a fabricação de biodiesel. "Pretendemos investir na agroenergia, na pesquisa da cana, que é uma área em que a Embrapa não tinha tradição", disse Teixeira.
Mas não é só o governo que pretende investir por meio da Embrapa. O setor privado também está de olho no potencial do cerrado para a produção de biocombustíveis. O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), instituição privada de pesquisa sediada em Piracicaba, no interior de São Paulo, é um exemplo.
"O cerrado é um novo campo, que está crescendo, e a cana tem excelentes condições para se adaptar", disse o gestor de Pesquisa e Desenvolvimento do CTC, Jaime Finguerut. "Será um belo desafio. Como se trata de uma região mais seca do que São Paulo, talvez ela exija novas variedades da planta", acrescentou.
O Grupo Maggi, uma das principais empresas do agronegócio brasileiro e tradicionalmente voltada para soja e algodão, também estuda entrar no setor sucroalcooleiro. "Estamos estudando a implantação de uma usina de açúcar e álcool no médio prazo", afirmou Pedro Valente, gerente de produção da Divisão Agro da empresa, que tem sede no Mato Grosso.
Outras culturas que podem ser ampliadas no cerrado, segundo os especialistas, são madeira, hortaliças, frutas, cevada e trigo. A decisão de plantar ou não depende da demanda do mercado e da vontade dos empresários. Exemplos da atuação do setor privado na agropecuária do cerrado serão tema da terceira reportagem desta série, que vai ser publicada amanhã (23).

