Alexandre Rocha
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São Paulo – O secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Michel Alaby, deu ontem (03) uma palestra sobre o Mercosul no último dia do 39° Congresso das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes, em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos. "Eles me solicitaram que fizesse uma apresentação sobre o Mercosul, seus avanços, desafios, estágio atual das negociações com os países do Golfo, Marrocos e Egito", disse Alaby por telefone à ANBA. A intenção dos representantes das câmaras é ter contato com experiências que possam ser usadas na implementação da Zona de Livre Comércio Árabe.
"Eles ficaram muito interessados, especialmente sobre o volume de comércio entre os países do Mercosul", afirmou Alaby. Na palestra, ele disse que o comércio entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai era de apenas US$ 3,6 bilhões em 1990, mas no ano passado chegou a US$ 18,5 bilhões, sendo que a Argentina é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás somente dos Estados Unidos.
Outro ponto destacado pelo diretor da Câmara Árabe foi a integração de cadeias produtivas dentro do bloco, especialmente nos ramos automotivo, de energia e indústria petroquímica. "Não basta só buscar o comércio, é preciso ter também integração produtiva, senão pode ocorrer um desequilíbrio nas exportações e importações", declarou.
Ele lembrou que o acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) deverá estar concluído até junho deste ano. O GCC é formado por Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Esta semana os Emirados receberam a visita de um dos presidentes do Mercosul, o uruguaio Tabaré Vasquez.
Alaby foi procurado por representantes de câmaras da Jordânia, Tunísia, Palestina, Egito, Síria, Líbano e Iraque interessados em mais informações sobre o Mercosul. "Eles ficaram interessadíssimos no Tratado de Assunção. Tem que haver uma base jurídica para que o bloco funcione da melhor forma para as empresas", disse. O Tratado de Assunção, assinado em 1991 na capital do Paraguai, foi o marco de criação do Mercosul. No ano passado a Venezuela também entrou no bloco.
Pesquisa
Ontem também, segundo Alaby, os técnicos em comércio exterior da União Geral das Câmaras de Comércio, Indústria e Agricultura dos Países Árabes apresentaram uma pesquisa feita com empresários de diversas nações da região.
Nela ficou constatado que 80% do comércio exterior do mundo árabe passa por países europeus, ou como origem e destino de produtos, ou como intermediários. Já no primeiro dia do encontro, as lideranças empresariais presentes manifestaram a necessidade da região diversificar seus parceiros comerciais, especialmente em direção à Ásia e à América Latina, não só como destinos e origens de mercadorias, mas também como entrepostos.
A pesquisa diz também que 60% dos empresários apontam a burocracia como entrave aos negócios, 45% disseram que a concessão de vistos é outro ponto de impedimento, que 45% das operações de comércio exterior na região são feitas manualmente, sendo necessária uma maior automação, e que 55% das empresas árabes são de pequeno e médio porte, com 5 a 50 funcionários.
Diante deste quadro, uma das conclusões do encontro, segundo Alaby, foi a existência de uma excessiva intervenção do estado nas economias árabes, com exceção de alguns países como Emirados e Catar, e a necessidade de se promover privatizações como instrumento de abertura econômica. "Prometi encaminhar alguma legislação brasileira sobre o tema, especialmente sobre parcerias público-privadas, para ser utilizada como eventual modelo para encaminhamento aos governos", disse Alaby.
Além das câmaras dos países árabes do Brasil, estavam presentes representantes de entidades da Argentina, Estados Unidos, Bélgica, Malta e França.

