Alexandre Rocha
São Paulo – O presidente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Edmund Daukoru, visitou ontem (17) o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), organização privada de pesquisa, para saber mais sobre a produção de álcool combustível no Brasil. Ele é também ministro do Petróleo da Nigéria. "Ele acredita que o mundo inteiro vai passar a misturar o álcool na gasolina", disse o gestor de pesquisa e desenvolvimento do CTC, Jaime Finguerut, que recebeu Daukoru na sede da entidade em Piracicaba, no interior de São Paulo.
De acordo com o pesquisador, o ministro justificou sua previsão com base em "assuntos relativos ao meio ambiente". A entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, que prevê a redução das emissões de poluentes em escala mundial, abriu a porta para a criação de um mercado global de álcool, uma vez que hoje muitos países usam o MTBE, um derivado de petróleo mais poluente do que álcool, como carburante na gasolina. "Ele tem interesse também no biodiesel", disse Finguerut.
Segundo o pesquisador, o presidente da Opep acrescentou, no entanto, que o nível de uso do álcool em escala mundial não deverá ser o mesmo do Brasil. Por aqui o etanol substitui 40% da gasolina, ou misturado numa proporção de 20% a 25%, ou utilizado como único combustível em carros flex fuel. Só para se ter uma idéia, o Japão aprovou a mistura de álcool na gasolina na base de 3%.
"Ele acredita em uma mistura de modesta a moderada", afirmou Finguerut. Os níveis de produção atual de álcool não permitem um uso em escala global como o que ocorre no Brasil. De acordo com o pesquisador, a produção mundial de álcool gira em torno de 40 bilhões de litros, o que corresponde a 2% do consumo de gasolina.
Produção no exterior
A perspectiva de ampliação do mercado, porém, está chamando a atenção de outros países além do Brasil, inclusive grandes produtores de petróleo, como a Venezuela e Nigéria. O próprio governo brasileiro já se colocou à disposição para auxiliar outras nações interessadas nesta indústria.
Segundo Daukoru, o governo do seu país quer incentivar a produção local de etanol. Isso não envolve, no entanto, tratados governamentais, mas negócios entre empresas privadas. "E o Brasil pode ajudar nisso", afirmou Finguerut.
A própria Petrobras já anunciou que pretende investir pesado na logística para exportação de álcool nos próximos anos e, segundo o pesquisador, tem tido um relacionamento bastante próximo com o CTC. Foi a própria estatal, de acordo com ele, que marcou a visita do presidente da Opep. "Há pouco tempo não havia conversa entre o setor de álcool e o de petróleo", afirmou, referindo-se ao ineditismo da visita. Daukoru está no Brasil desde o início da semana e já visitou a sede da Petrobras no Rio de Janeiro.
Finguerut disse ao nigeriano que o comércio internacional de álcool se torna economicamente viável com o barril de petróleo acima dos US$ 30. "E ele (Daukoru) me disse que o preço não deve retornar para este patamar", afirmou o pesquisador. Hoje a cotação da commodity gira em torno de US$ 70.
No CTC, o presidente da Opep recebeu explicações sobre a produção de álcool e conheceu novas tecnologias que vão tornar o combustível ainda mais barato. "Ele conheceu o estado da arte de produção cana e álcool no mundo", afirmou Finguerut. O Brasil produz mais de 400 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por ano e quase metade disso vai para a produção de etanol, o resto vira açúcar. Na última safra, o país produziu cerca de 16 bilhões de litros do combustível.
Organizações
O CTC nasceu como centro de pesquisas da Copersucar, uma das maiores fabricantes de açúcar e álcool do mundo, mas foi desmembrado da empresa em agosto de 2004. Hoje ele é um órgão privado destinado à pesquisa e bancado pelas contribuições de seus associados, que são cerca de 50% dos produtos do setor sucroalcooleiro do Brasil.
A Opep, fundada em 1960, reúne 11 países exportadores de petróleo: Argélia, Indonésia, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Venezuela.

