Marina Sarruf
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São Paulo – A partir de dezembro, São Paulo vai ser a primeira cidade das Américas a ter ônibus movido a etanol. O veículo, que foi lançado ontem (23), é um projeto da Universidade de São Paulo (USP), desenvolvido pelo Centro Nacional de Referência em Biomassa (Cenbio) do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE). "Esse projeto tem impacto social e ambiental. Espero que ele seja expandido para outras cidades do Brasil, tornando-se um projeto de referência para outras cidades do mundo", afirmou o diretor do IEE, José Aquiles Baesso Grimoni.
O principal objetivo é reduzir a poluição, incentivando o uso do etanol em substituição ao diesel, que é utilizado hoje no transporte público urbano no Brasil. O novo veículo vai circular durante um ano em São Paulo, no corredor Jabaquara-São Mateus, como um teste para demonstração de viabilidade.
Segundo o coordenador do projeto, José Roberto Moreira, o uso do etanol no transporte público reduz em 92% a emissão do monóxido de carbono lançando na atmosfera. "A idéia agora é rodar (o ônibus a etanol) junto com os outros ônibus da frota para fazermos as comparações", disse.
A previsão é ter mais dois ônibus circulando no próximo ano. O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que participou do evento de lançamento, demonstrou muito interesse no novo conceito e falou que vai discutir a possibilidade de colocar pelo menos 10 veículos do gênero em circulação em 2008. Segundo ele, atualmente a cidade conta com 15 mil veículos de transporte coletivo.
O investimento total no projeto foi de R$ 1,6 milhão. Um terço dele foi financiado pela União Européia, que também promove o programa Bioetanol para o Transporte Sustentável (BEST) em sete países europeus e na China. O restante teve o patrocínio e apoio de oito empresas, associações e operadoras de transporte do Brasil.
Segundo Moreira, já houve uma experiência semelhante na década de 1980, mas ela não foi adiante. "Os resultados foram excelentes no quesito poluição, mas ficou muito caro", disse ele, referindo-se à pouca diferença de preço entre o óleo diesel e o etanol na época.
De acordo com Moreira, atualmente o óleo diesel custa quase o dobro do álcool e existe ainda a tendência de elevação do preço do petróleo. No entanto, os ônibus consomem aproximadamente 60% a mais de etanol do que diesel para percorrer a mesma distância e há também a necessidade de acrescentar o custo do aditivo para promoção da ignição por compressão. "Esperamos conseguir algum tipo de incentivo fiscal no ICMS do etanol como há para o diesel", afirmou.
Moreira disse ainda que a adaptação do motor diesel para o etanol requer poucas mudanças e que o preço final do veículo deve ficar, em média, R$ 50 mil mais caro. O motor e o chassi do novo veículo foram importados da empresa sueca Scania, que tem subsidiária no Brasil. A Suécia já conta com uma frota de cerca de 600 ônibus a etanol.
Outra empresa que participou do projeto é a Marcopolo, fabricante brasileira de carrocerias de ônibus rodoviários, urbanos e micros. Além dela também estão envolvidas no projeto a empresa química sueca Sekab, que forneceu o aditivo para o etanol; Coopersucar, que importou o primeiro lote de etanol aditivado; a Petrobrás, que vai distribuir o etanol nas operadoras; e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), que forneceu o etanol para os testes.
Atualmente, 10% da frota brasileira de automóveis já é composta por veículos flex-fuel, tecnologia que permite abastecer com álcool, gasolina ou qualquer mistura dos dois. O álcool é utilizado em larga escala no país, em veículos de passeio, desde a década de 1970. O Brasil é hoje o segundo maior produtor mundial de etanol, com uma produção de 17,8 bilhões de litros.
Jabaquara–São Mateus
O corredor de ônibus Jabaquara–São Mateus tem uma frota de 200 veículos e uma extensão de 33 quilômetros. Segundo dados da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo (EMTU), o volume de passageiros que utilizam as 13 linhas do corredor é de 200 mil pessoas por dia. Os veículos atendem quatro municípios: São Paulo, Diadema, São Bernardo do Campo e Santo André. Os ônibus fazem quatro mil viagens por dia.

