Randa Achmawi
Cairo – A cidade de Assuan, situada às margens do rio Nilo, a 843 quilômetros ao sul do Cairo, é conhecida como um dos mais belos locais do Egito. Seu clima ameno durante o inverno, que vai de dezembro a fevereiro, atrai uma multidão de turistas europeus. Assuan é o recanto predileto de celebridades internacionais como o ex-presidente francês Jacques Chirac. “Durante muitos anos eles passaram regularmente suas férias de Natal e Ano Novo aqui nesta cidade e neste hotel”, contam os funcionários do legendário Old Cataract, um hotel palácio monumental construído em 1899 sobre uma colina, com vista para o Nilo e para a ilha Elefantina.
Assuan é sede administrativa da província que leva o mesmo nome. Foi também na cidade que o famoso romance de Agatha Christie, “Morte sobre o Nilo”, foi inspirado e escrito, no início do século 20. Segundo histórias contadas pelos funcionários do mesmo hotel, a escritora inglesa de origem aristocrática, teria se hospedado durante diversos invernos naquele estabelecimento e passava seus dias sentada no terraço, escrevendo. É por esta razão que muitos dos viajantes que passam pelo local, desde a publicação do livro, o carregam consigo e tentam identificar na obra trechos que traduzem a atmosfera que reina no local.
A paisagem ainda é a mesma. A vista mágica para o Nilo, onde navegam lentamente os Felucas – pequenos barcos a vela – faz com que muitos venham para Assuan unicamente para apreciar o contraste do azul puro do Nilo com o branco das velas que se movimentam tranqüilamente ao vento. “Venho aqui há vários anos somente para meditar e colocar as idéias em ordem”, diz uma turista que vive no Cairo e freqüenta o local ha vários anos. Muitos dizem que foi durante uma de suas estadias em Assuan que François Mitterand, outro presidente francês que visitava o local quando era vivo, tomou a decisão de se candidatar a presidente da França.
A cidade de Assuan, que por séculos foi entreposto de rotas de caravanas, é descrita por antigos historiadores europeus como a fronteira entre dois mundos: o civilizado e conhecido e o mais longínquo. “O misterioso mundo das profundezas africanas”, diziam eles. A história de Assuan data do Antigo Império. “Após o declínio ocorrido em Elefantina, a atividade comercial e administrativa que estava centralizada, na época, na ilha, se deslocou para a margem direita do rio e uma nova cidade, que os faraós chamaram de Suanit (que significa praça do mercado), foi criada”, conta Dália Fawzi, uma guia turística da cidade.
“Mais tarde os gregos lhe deram o nome de ‘Syene’’, complementa. Segundo ela, Syene ficou conhecida por sua atividade comercial, mas também por sua proximidade de locais onde se encontravam grandes quantidades de granito cinza e, sobretudo, do granito rosa denominado “Syenita’ necessário para a construção de templos e monumentos faraônicos. “Mais tarde, a cidade se tornou a capital da primeira província na região, que era chamada Ta Satis (terra de Satis.) Em seguida o nome se transformou em Swani e finalmente se tornou Assuan,” explica Dália.
A pouco mais de um quilômetro ao sul da cidade, após o cemitério Fatimida – onde se encontram alguns mausoléus de notáveis da região da época Fatimida – está a famosa pedreira de Assuan, de onde se extrai o granito rosa. Nela se encontra ainda hoje um obelisco inacabado de 42 metros e 1.197 toneladas, que foi abandonado no local por estar com uma grande fenda. “Se este obelisco tivesse sido acabado e extraído desta pedreira teria sido o maior obelisco jamais construído pelos Faraós”, conta Dália.
Os diversos guias que se encontram no local tentam explicar as complicadas técnicas de delimitação e extração do granito do local, usadas pelos antigos egípcios. Estas mesmas pedras de granito foram utilizadas na primeira barragem de Assuan, construída pelos ingleses em 1902. E isto também ocorreu na edificação da Grande Barragem de Assuan, em 1955.
O Museu Núbio, que foi inaugurado em 1998, é também uma das importantes atrações da cidade. Ele se encontra no centro de um jardim em uma das colinas da cidade. Nele o visitante pode apreciar mais de duas mil peças que retratam toda a historia da Núbia, a região no sul do Egito onde se encontra a cidade de Assuan, desde a pré-história ate a era Cristã. O local conta também com uma biblioteca onde se pode consultar obras que explicam a história da Núbia.
Ao sair do museu, a melhor maneira de completar a visita de Assuan é pegando um Feluca para atravessar o Nilo e se dirigir à sua margem esquerda, para visitar o mausoléu de Agha Khan III Mohamed Shah, que também se situa no alto de uma colina, em cima de uma duna de areia. Seu túmulo é de mármore branco e está decorado com vários versículos do Alcorão.
Agha Khan III foi um milionário paquistanês, também chefe religioso dos muçulmanos ismaelitas do seu país. Sua paixão pela cidade de Assuan, que visitou freqüentemente em vida, é conhecida no mundo inteiro. “Ele gostou tanto da cidade que, entre todas em que havia estado no mundo inteiro, Assuan foi a que ele escolheu para o seu repouso eterno”, explica um dos guardiões de seu mausoléu.

