Trípoli – A construtora Odebrecht acredita que a Líbia vai manter por muitos anos seu atual potencial de crescimento, impulsionado pela abertura econômica e pelas exportações de petróleo. A companhia brasileira, que hoje toca duas obras de grande porte em Trípoli, diz que está no país para ficar.
“A Líbia é um país com muito potencial, que já está sendo realizado e vai continuar a ser”, disse à ANBA o CEO da Odebrecht na Líbia, Daniel Villar, em entrevista na sede da empresa em Trípoli. “O país está na contramão da crise mundial, acumulou muitas reservas e não está endividado”, acrescentou.
Mais do que a boa situação econômica, a Líbia tem grande necessidade de obras de infraestrutura após muitos anos de embargo econômico, que começou a ser levantado no início desta década. Existem oportunidades na construção de portos, ferrovias, rodovias, saneamento, abastecimento de água e em desenvolvimento imobiliário.
“Podemos atuar em todas essas áreas, temos conhecimento e autorização da empresa [matriz] para atuar em qualquer setor”, afirmou Villar. A importância é tanta que o presidente do grupo, Marcelo Odebrecht, esteve em Trípoli esta semana para se reunir com seus funcionários e visitar as obras, viagem que coincidiu com a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país.
“Nosso foco é executar bem esses dois projetos, que com certeza o [nosso] crescimento aqui será natural”, destacou Villar. De acordo com ele, a estratégia da companhia é começar bem nos novos mercados, montar a estrutura de apoio aos projetos e “estabelecer as raízes de permanência” para “anos e anos” de presença.
E os empreendimentos atuais não são pequenos. O novo aeroporto envolve a construção de dois terminais de passageiros para atender ao interesse do governo local de transformar Trípoli em um centro de conexões aéreas, especialmente entre a Europa e países da África. Com esse objetivo também, o país criou, já em 2001, a Afriqiyah Airways, companhia aérea que serve destinos nos dois continentes.
As obras, avaliadas em 969 milhões de euros, começaram há um ano e estão previstas para terminar em outubro de 2011.
O outro projeto é o terceiro anel viário de Trípoli, cidade de trânsito intenso como muitas outras capitais árabes. Também iniciado há cerca de um ano, o empreendimento inclui 24 quilômetros de vias e deve ficar pronto em março de 2011. Só para se ter uma idéia da necessidade do país por infraestrutura, ele já havia sido idealizado há 30 anos, mas só agora está em execução.
O valor é de 458 milhões de dinares líbios, o que dá cerca de 250 milhões de euros. O contrato inclui ainda a manutenção de viadutos já existentes na capital líbia, então é possível ver placas com o nome da Odebrecht em vários pontos da cidade.
A Odebrecht utiliza dois tipos de participação, entre as que são permitidas para empresas estrangeiras. No caso do aeroporto, a presença é direta, sem necessidade de um sócio local. Ela mantém uma fatia de 50% do negócio e tem como parceiras a CCC, do Líbano, e a TAV, da Turquia, sendo que a última é especializada na construção e operação de aeroportos. As duas têm 25% cada.
No anel viário, a Odebrecht formou uma joint-venture com a estatal UDHL, a Libyan Brazilian Construction Development (LBCD), da qual detém 60% do capital.
Competitividade
A companhia, segundo Villar, começou a olhar para o mercado do país do Norte da África em 2003, mas decidiu se instalar e começar a participar de concorrências em 2006. Os dois contratos foram assinados no segundo semestre de 2007. “Com a produção de petróleo, o país acumulou excedentes e passou a ter recursos para infraestrutura. A Líbia precisava disso para ganhar competitividade”, disse o executivo.
Sinal disso é que, depois de sua entrada no mercado, a Odebrecht passou a ver outras empresas brasileiras se interessarem pela Líbia. A Queiroz Galvão também toca obras no país e a Andrade Gutierrez acaba de conquistar seu primeiro contrato, conforme revelado na última terça-feira pela ANBA.
A abertura econômica permitiu também que as empresas pudessem ter acesso mais fácil a insumos e mão-de-obra. “A abertura está em pleno vapor. Vejo um país muito aberto, pode-se importar quase tudo, respeitando-se os limites culturais”, afirmou Villar. Na Líbia, uma nação muçulmana, é proibida, por exemplo, a importação de bebidas alcoólicas e carne de porco, cujo consumo é vedado pela religião.
De acordo com o executivo, é possível importar de alimentos a equipamentos, e a carga de impostos é relativamente baixa em comparação com outros países em que a empresa atua.
Ele disse ainda que o sistema financeiro está também em processo de abertura, já que o governo passou a autorizar bancos privados estrangeiros a comprar participações em instituições locais. O primeiro a fazer isso foi o francês BNP Paribas.

