São Paulo – O fluxo de investimentos estrangeiros diretos (IED) para o Oriente Médio foi recorde em 2007. O volume de dinheiro que entrou na região cresceu pelo quinto ano consecutivo e chegou a US$ 71 bilhões, um aumento de 12% sobre 2006. As informações constam do World Investment Report 2008 (Relatório de Investimentos Mundiais), lançado ontem (24) pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).
De acordo com o estudo, mais de 80% desse total foi alocado na Arábia Saudita, Turquia e Emirados Árabes Unidos. A Unctad ressalta, porém, que um número crescente de projetos nas áreas de energia e construção, assim como a melhora do ambiente de investimentos, fez com que a região do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) em geral figurasse como importante um pólo de atração de investimentos.
Como exemplo, o relatório cita o Catar, para onde o fluxo de recursos aumentou sete vezes em comparação com 2006. Além do Catar, fazem parte do GCC a Arábia Saudita, Bahrein, Emirados, Kuwait e Omã.
A Unctad prevê que a entrada de IED no Oriente Médio será maior ainda em 2008, porque os países da região por enquanto foram pouco afetados pela crise financeira internacional e um número significativo de projetos intra-regionais está em desenvolvimento.
Na outra mão, o volume de investimentos que tiveram origem na região chegou a US$ 44 bilhões em 2007. Segundo a Unctad, o fluxo cresceu pelo quarto ano consecutivo, sendo que o Kuwait, Arábia Saudita, Emirados e Catar foram responsáveis por quase 90% do total de recursos.
O estudo revela que o fortalecimento das nações do Golfo como investidoras reflete em parte o desejo da região de diminuir sua dependência na produção de petróleo e gás, direcionando capitais para outros segmentos. Tanto que a maior parte dos investimentos que entraram nesses países, como os que tiveram origem neles, foi direcionada para negócios no ramo de serviços, especialmente telecomunicações e serviços financeiros.
A Unctad diz também que com os cofres cheios de petrodólares, vários governos da região ampliaram os gastos com projetos de infra-estrutura, muitas vezes em parcerias com investidores privados. Segundo o relatório, muito do dinheiro que saiu desses países, muitas vezes para investimento em outras nações do Oriente Médio, teve como origem os fundos soberanos locais.
Fundos soberanos
Aliás, o estudo ressalta que os fundos soberanos passaram a ter uma participação importante no fluxo mundial de investimentos diretos. Segundo a Unctad, esses fundos estatais gerenciam atualmente cerca de US$ 5 trilhões no mundo. No ano passado, eles tiveram participação em 30 processos internacionais de fusões e aquisições de empresas, contra apenas um há duas décadas.
Vale lembrar que fusões e aquisições são as maiores responsáveis pelo fluxo global de IED. Só para dar uma idéia, dos US$ 1,833 trilhão em investimentos que circularam pelo mundo em 2007, essas duas modalidades de negócios foram responsáveis por US$ 1,637 trilhão.
África
Outra região que atraiu um volume recorde de IED em 2007 foi a África. Foram US$ 53 bilhões no total. Segundo a Unctad, a região Norte do continente ficou com 42% e a África Subsaariana com 58%. O Egito foi o segundo maior destino, tendo recebido US$ 11,6 bilhões no ano passado, atrás apenas da Nigéria.
O aumento dos investimentos na África foi motivado principalmente pelo preço alto das commodities e, conseqüentemente, pela elevada taxa de retorno dos empreendimentos, especialmente aqueles voltados à exploração de recursos naturais. As reservas em moeda estrangeira no continente aumentaram em média 36% no ano passado, e ainda mais em países que são grandes exportadores de petróleo, como a Líbia e a Nigéria.
Brasil
Na América Latina e Caribe os investimentos externos chegaram a US$ 126 bilhões em 2007, um aumento de 36% em comparação com 2006. O Brasil, que recebeu US$ 35 bilhões, foi o principal destino dos recursos na região. Em seguida veio o México, com US$ 25 bilhões, e o Chile, com US$ 14 bilhões.
Os setores mais atrativos na região foram os de mineração, indústrias extrativas e indústrias baseadas em recursos naturais. O ramo automobilístico foi também um importante foco de atração, com as montadoras investindo na fabricação de automóveis de baixo custo e que utilizam combustíveis alternativos, cuja demanda tem crescido muito ao redor do mundo, segundo a Unctad.
O volume de recursos originados na América Latina, no entanto, caiu 17% e ficou em US$ 52 bilhões. O Brasil foi também o principal responsável por essa queda, uma vez que foi origem de US$ 28 bilhões em investimentos em 2006, e de apenas US$ 7 bilhões em 2007.
O estudo diz, porém, que tal diminuição não significa que as empresas latino-americanas estão diminuindo seus esforços de internacionalização. Ele ressalta que, especialmente companhias do Brasil e do México, estão competindo atualmente por posições de liderança global em segmentos como os de petróleo e gás, mineração, cimento, siderurgia, alimentos e bebidas.
Algumas empresas brasileiras com grande atuação internacional são a Petrobras, de petróleo, a mineradora Vale do Rio Doce, a siderúrgica Gerdau, o frigorífico JBS-Friboi e a Inbev, indústria belgo-brasileira de bebidas.
A Unctad estima que o fluxo de investimentos para a região vai continuar a crescer em 2008, impulsionado principalmente pela América do Sul, onde os preços das commodities e o forte crescimento econômico vão sustentar os lucros das companhias transnacionais.
No Brasil, o Banco Central prevê que a entrada de IED no vai se manter em US$ 35 bilhões este ano, como uma queda para US$ 33 bilhões em 2009, como reflexo da crise financeira internacional. Até agora, no acumulado do ano, o Brasil recebeu quase US$ 25 bilhões em investimentos diretos, direcionados principalmente para a indústria automobilística, a metalurgia e serviços financeiros.
Recorde mundial
No total, o fluxo mundial de IED somou US$ 1,833 trilhão no ano passado, um aumento de 30% sobre 2006. O resultado histórico superou o recorde anterior, do ano 2000, em US$ 400 bilhões. Os Estados Unidos continuaram como maior destino dos recursos, seguido do Reino Unido, França, Canadá e Holanda. Os países em desenvolvimento receberam US$ 500 bilhões, também o maior resultado da história. Na outra direção, os Estados Unidos foram também a principal origem de IED em 2007.
A Unctad estima que o fluxo global este ano sofrerá com os efeitos da crise financeira, caindo para US$ 1,6 trilhão. Ainda no primeiro semestre, segundo o estudo, o valor das fusões e aquisições internacionais caiu 29% em comparação com o mesmo período de 2007. No caso dos países em desenvolvimento, porém, a movimentação de recursos deve permanecer estável.
Uma outra pesquisa divulgada ontem pela Unctad, a World Investment Prospects Survey 2008-2010 (Pesquisa de Perspectivas de Investimentos Mundiais), indica que diminuiu o número de empresas que planejam grandes aumentos em investimentos externos nos próximos três anos. O relatório diz, no entanto, que essas companhias pretendem continuar a ampliar seus aportes, mas de uma maneira mais moderada.
Os países considerados mais atrativos por estas empresas são a China, Índia, Estados Unidos, Rússia e Brasil. Quatro deles formam os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), que são as principais economias emergentes.

