Marina Sarruf
São Paulo – O Brasil está investindo em tecnologia para melhorar a qualidade do couro produzido no país. No Mato Grosso do Sul já está sendo construído o Centro de Tecnologia do Couro (CTC), que vai contar com cinco laboratórios para pesquisa e tratamento do produto. “É um laboratório-escola para melhorar a qualidade do couro e de peles de animais”, afirma Edson Espíndola Cardoso, coordenador técnico do CTC.
De acordo com ele, o CTC pretende trabalhar não só com couro bovino, mas também de diversos outros animais, como caprinos, suínos, jacarés, peixes, capivaras, avestruzes, chinchilas e até rãs.
No ano passado já foi inaugurado o laboratório de curtimento do couro, que permite a conservação do produto para que ele não se decomponha e uma estação de tratamento de água. “Toda água utilizada no curtimento do couro será reutilizada, reduzindo o consumo e protegendo o meio ambiente”, afirmou Cardoso.
Os outros quatro laboratórios que estão sendo construídos são o de acabamento, onde serão utilizadas técnicas para raspar, tratar e pintar o couro; o de físico-química, que vai garantir a certificação do couro; o de físico-mecânica, que irá medir a resistência do couro; e o de biotecnologia que, segundo Cardoso, é inédito no Brasil. Este último vai servir para desenvolver técnicas e pesquisas para aproveitar a proteína do couro em alimentos e a queratina na medicina e em cosméticos.
O CTC do Mato Grosso do Sul não é o pioneiro no Brasil, mas é o primeiro da região Centro-Oeste, onde está localizado o maior rebanho bovino do país. Em 2003, eram 69,9 milhões de cabeças na região. Segundo Cardoso, o país produz 35,5 milhões de peças de couro bovino por ano, sendo que desse total 80% é vendido na forma básica, ou wet blue.
“Poderíamos transformar esse couro em produto acabado para ser exportado”, disse Cardoso. Atualmente, de acordo com ele, o couro wet blue custa US$ 50 no mercado, enquanto o couro acabado custa US$ 90. “O grande negócio é vender o couro acabado”, acrescentou.
Outro fato mencionado por Cardoso é o desperdício de matéria-prima no país. “A maioria da pele de peixe é jogada fora. O Brasil joga muita matéria-prima no lixo e nós temos um potencial fantástico”, disse. De acordo com o técnico, o Brasil também poderia extrair da pele bovina a gelatina para ser utilizada em diversos alimentos. A América do Sul, segundo ele, produz cerca de 55 mil toneladas de gelatina bovina e o Brasil participa desse mercado com uma produção de 35 mil toneladas por ano. Cardoso acredita que o país pode se tornar o maior produtor de gelatina do mundo.
Desafio
A iniciativa da criação do Centro de Tecnologia do Couro de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, foi do próprio Cardoso, que trabalhou na idéia por dez anos. "Espero que esse laboratório seja um instrumento de estímulo. Será um desafio", disse. O coordenador do CTC também trabalha como técnico superior na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que apoiou o projeto e cedeu três hectares para a construção do CTC.
O projeto tem o apoio de 15 parceiros, como da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que foi responsável pela maior parte dos recursos financeiros; do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-MS); da Federação das Indústrias do Mato Grosso do Sul; universidades e sindicatos.

