Ramallah, Palestina – A Autoridade Nacional Palestina (ANP) pretende promover no Brasil, no primeiro semestre de 2010, uma conferência sobre oportunidades de negócios e investimentos nos territórios palestinos sob ocupação de Israel. A iniciativa tem o apoio dos governos brasileiro e da Espanha e foi comunicada no sábado (14) pelo ministro dos Assuntos Estrangeiros da ANP, Riad Malki, ao presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Salim Taufic Schahin, durante reunião em Ramallah, na Cisjordânia.
Segundo Malki, a idéia da conferência foi lançada por ele próprio e pelo chanceler espanhol, Miguel Ángel Moratinos, e foi prontamente aceita pelo ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim. A intenção é juntar empresários palestinos e representantes da ANP com membros das comunidades de origem palestina e árabe na América do Sul para apresentar projetos importantes para o desenvolvimento econômico dos territórios ocupados.
O ministro da ANP disse, no encontro acompanhado pela reportagem da ANBA, que o objetivo da conferência é fomentar a formação de parcerias empresariais que ajudem a aquecer a economia palestina. “Nossa Câmara vai ajudar no que for possível”, disse Schahin, que teve dois dias de encontros com lideranças políticas e empresariais palestinas após liderar uma missão brasileira à Jordânia.
Antes do evento, a ANP vai enviar ao governo e entidades empresariais brasileiras uma série de projetos passíveis de parcerias para serem avaliados por possíveis interessados. A iniciativa faz parte de um plano mais amplo da ANP para fortalecer a economia e as instituições palestinas e garantir as bases para a formação de um estado independente.
O plano prevê para os próximos dois anos ações para o desenvolvimento econômico, institucional, legal, da infraestrutura e capacitação profissional. Caso o processo de paz com Israel não avance, a ANP pretende, ao fim desse prazo, pedir ao Conselho de Segurança das Nações Unidas a declaração de independência da Palestina.
“A comunidade internacional deve dizer que Israel não cumpriu com suas obrigações e declarar a independência”, disse Malki. Ele acrescentou que a comunidade internacional deve lidar com o tema sob o ponto de vista do direito internacional, não por achar que os palestinos “são coitadinhos”.
Descrença
Na Palestina há um sentimento de descrença no processo de paz, devido às divisões internas entre a ANP, que governa a Cisjordânia, e o movimento islamista Hamas, que controla a Faixa de Gaza; e à postura intransigente do novo governo conservador de Israel liderado pelo primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, que insiste em manter a construção de assentamentos israelenses na Cisjordânia.
“Somos o único povo que ainda está sob ocupação e o mundo precisa pressionar Israel. É uma vergonha para a comunidade internacional deixar isso acontecer”, disse o chanceler.
Após a segunda Intifada (revolta palestina), em setembro de 2000, o governo israelense ampliou a pressão sobre os territórios ocupados construindo um muro de mais de 800 quilômetros que separa a Cisjordânia de Israel, inclusive de Jerusalém, e ampliando o número de postos de controle, que hoje somam mais de 600. Os palestinos precisam de autorização do governo israelense para cruzar a fronteira.
Para Malki, não há interesse de Israel no fim da ocupação, pois ela é lucrativa. “Somos o segundo maior mercado para Israel”, disse o Chanceler, acrescentando que as vendas de produtos israelenses aos territórios ocupados somam US$ 4,5 bilhões anualmente.
Papel do Brasil
Nesse sentido, ele insistiu que, se não houver pressão internacional, Israel não vai conceder independência à Palestina. Para estimular a retomada do processo de paz, Malki defendeu o ingresso de mais países no quarteto – grupo de negociadores formado por Estados Unidos, União Européia, Rússia e ONU -, entre eles o Brasil, que deseja ter um papel mais ativo na questão.
“Já ouvi muitos comentários importantes do [presidente Luiz Inácio] Lula [da Silva]”, destacou o chanceler. Para ele, será positiva a inclusão de grandes países emergentes, como os demais BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), no processo. “Precisamos nos articular, a inclusão [dos BRICs] em qualquer processo de paz agrega valor [às negociações]”, acrescentou.
O tema deverá ser discutido com Lula durante a visita que o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, fará ao Brasil esta semana. “Talvez após a reunião com Abbas, [o presidente] Lula poderá apresentar alguma nova idéia”, disse Malki.
Lula recebeu recentemente em Brasília o presidente de Israel, Shimon Perez, e, na avaliação do chanceler palestino, isso mostra que as duas partes no conflito estão dando importância ao Brasil.
Schahin afirmou que as comunidades palestinas e árabes residentes em países como o Brasil podem pressionar seus governos a auxiliar no processo de paz. Para Malki, essa influência é importante na medida em que, desde 1967, após a Guerra dos Seis Dias, Israel “vem impondo unilateralmente” sua política sobre os territórios ocupados, sem atender às demandas da comunidade internacional.
Ele acrescentou que, apesar de acreditar no comprometimento do presidente norte-americano, Barack Obama, com o processo de paz, os Estados Unidos ainda não mostraram engajamento suficiente, especialmente no que diz respeito a barrar o avanço dos assentamentos israelenses. “Não devemos deixar os americanos sós”, declarou o chanceler, ao defender maior comprometimento dos países do G-20, grupo formado pelas 20 maiores economia do mundo, dos BRICs e das próprias nações árabes. “Se outros países vierem, [o processo] vai se ativar”, ressaltou.
Participaram da reunião também a embaixadora do Brasil junto à ANP, Ligia Maria Scherer, o conselheiro do escritório de representação do Brasil em Ramallah, Ricardo José Leal, o responsável pelas relações com a América Latina na chancelaria palestina, Munjed Saleh, e o diretor da Câmara Árabe, Mustapha Abdouni.
Após o encontro com Malki, Schahin ainda depositou flores no túmulo do líder palestino Yasser Arafat, morto em 2004.

