São Paulo – O ano de 2016 ainda será difícil para a economia brasileira. Sem a realização do ajuste fiscal, o País não terá como crescer e nem voltar a ser atraente para investimentos estrangeiros. Para colocar o Brasil em ordem, é preciso também controlar a inflação e realizar reformas nos sistemas tributário e da previdência. Essa é a avaliação feita por Zeina Latif, doutora em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e economista-chefe da XP Investimentos. Latif falou nesta quinta-feira (28) para uma plateia de empresários na Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em São Paulo.
“A política fiscal se tornou um elemento ‘instabilizador’ ao gerar desconfiança sobre a capacidade do País de arrumar a dívida lá na frente”, apontou Latif. “O Brasil fez ajuste fiscal de baixa qualidade, sem traçar reformas de longo prazo que sinalizem para os investidores, domésticos e internacionais, que a dívida pública não vai explodir. Não conseguimos fazer isso, mas, ao mesmo tempo, [nos] sacrificamos ao fazer cortes de gastos que muitas vezes eram ligados a investimentos e que machucaram a economia”, destacou.
Para a economista, o Brasil pode levar um bom tempo para recuperar o grau de investimento de agências internacionais como a Standard & Poor’s e a Fitch. Ambas rebaixaram, nos últimos meses de 2015, a nota do Brasil de BBB- para BB+, o primeiro índice do que é considerado grau especulativo.
“O tempo médio que os países demoram para recuperar o grau de investimento depois que o perderam é em torno de oito anos. Talvez a gente tenha uma década ainda para recuperar o grau de investimento. Espero que não, mas [essa média] é só para dar uma ideia do nosso grau de desafio”, disse.
Sobre a desvalorização do real frente ao dólar, Latif lembrou que isto não está atrelado somente a fatores internos. “Isso tem muito mais a ver com o ciclo da moeda americana, que se valoriza desde 2011. Por que a moeda americana está se valorizando mundo afora? Porque os Estados Unidos estão exibindo ganhos de produtividade maiores que o resto do mundo e esse processo provavelmente vai continuar acontecendo. A capacidade de inovação da economia americana é muito grande”, ressaltou.
No entanto, para que a desvalorização da moeda brasileira possa beneficiar a economia do País, é preciso conter a inflação, afirmou a economista. “A taxa de câmbio tem papel importante. Se a taxa de câmbio sobe, mas se a inflação caminha junto, a gente não vai sair do lugar. Para que a taxa de câmbio de fato tenha capacidade de aumentar nossa capacidade de exportação e gerar poder de substituição de importação é essencial que a inflação reduza”, enfatizou.
Árabes
A economista falou sobre as exportações do Brasil aos árabes, lembrando que elas caíram em receita no último ano, influenciada pelos baixos preços das commodities. Sobre a posição dos países árabes, ela apontou que, apesar de alguns deles estarem sofrendo com os baixos preços do petróleo, o Brasil conseguiu manter um equilíbrio em suas vendas para a região. “Claro que fica a mensagem de tentar cada vez mais diversificar a pauta [de produtos exportados]”, apontou.
Para Latif, é importante que o País dê atenção à aproximação comercial com outras nações, como as árabes. “A agenda de levar para o governo a necessidade de estreitar laços é algo que se tem que insistir diuturnamente”, afirmou.
Neste contexto, Marcelo Sallum, presidente da Câmara Árabe, falou sobre o trabalho da entidade junto ao governo brasileiro para que se criem mecanismos para evitar a bitributação “para trazer investimentos de fundos árabes para o Brasil”.
O executivo falou ainda sobre os esforços para colocar em vigor o acordo comercial entre o Mercosul e o Egito, assinado em 2010, mas que ainda não está em vigor por não ter sido ratificado pelos parlamentos de todos os países do bloco sul-americano. “O Egito é um excelente mercado e a gente acredita que até março a gente vai ter um acordo com o Egito referendado por todos os países do Mercosul”, afirmou Sallum.
De acordo com Latif, para sair da crise, o Brasil precisa de “medidas horizontais”: “Simplificar a carga tributária, fazer reformas que de fato permitam a gente ter carga tributária mais baixa. Vai ter que mexer na previdência. Hoje, o gasto público que mais cresce, que pressiona a gente a ter que aumentar impostos, é a previdência”, apontou.


