Omar Nasser, da Fiep*
Curitiba – O Paraná é considerado modelo na produção orgânica no Brasil. Das 42 empresas brasileiras que integram o OrganicsBrasil, programa que visa a promoção do segmento no exterior, 14 são paranaenses. Ao todo são cerca de uma centena de indústrias e quatro mil agricultores dedicados à produção de alimentos orgânicos no estado. A produção estadual chega a 75 mil toneladas por ano.
“O estado é o celeiro da produção orgânica no país”, conta Ming Liu, gestor do OrganicsBrasil. O principal objetivo do programa é divulgar a produção orgânica brasileira no exterior. Para tanto, leva os empresários a feiras na Europa, Estados Unidos e Japão. Também conta com um catálogo oficial de produtores orgânicos brasileiros, todos devidamente credenciados por instituições internacionais. O impresso é distribuído a potenciais clientes no exterior.
O Paraná tornou-se referência na produção orgânica dentro do Brasil devido ao pioneirismo das entidades que apóiam o setor empresarial, no campo e na cidade. Em 2004, as organizações que atuavam de forma dispersa no apoio a esses produtores, foram reunidas por iniciativa da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). Surgiu, então, o programa Orgânicos Paraná. A proposta era capacitar os empresários, a mão-de-obra e incentivar a produção de bens de maior valor agregado.
A iniciativa despertou o interesse do governo federal. A Agência de Promoção das Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, entrou no time e, em 2005, o Programa mudou o nome, alcançando dimensões nacionais. A gestão do OrganicsBrasil, contudo, continua sendo feita a partir do Paraná.
Espaço
No âmbito nacional, os dados sobre produção e renda do segmento orgânico não são tão precisos e esta é uma deficiência que deve ser corrigida, considera Liu. Estima-se que o país seja o sexto do mundo em extensão de área destinada à produção orgânica, com cerca de 890 mil hectares. O Brasil estaria atrás da Austrália, China, Argentina, Itália e Estados Unidos.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, cerca de sete mil famílias integradas ao Programa de Agricultura Familiar atuam no segmento orgânico. Dos US$ 250 milhões movimentados pelo setor anualmente no país, calcula-se que 70%, ou US$ 175 milhões, sejam exportados e 80%, ou US$ 200 milhões, sejam de produtos primários.
Ao redor do mundo, o segmento é uma rentável e crescente indústria. O setor movimenta, em todo o planeta, uma fortuna estimada em US$ 40 bilhões por ano, segundo a International Federation of Organic Agriculture and Movements (IFOAM). A produção de alimentos orgânicos no país responde por apenas 0,63% do volume mundial. Deste total, alimentos que sofreram transformação industrial e, portanto, tiveram um aumento do valor agregado, respondem por apenas 20%, ou US$ 50 milhões. São números que dão uma idéia do amplo espaço que o setor tem para crescer não só no Brasil, mas, também, no Paraná.
Saúde
A Lei 10.831, promulgada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003 e que lança as diretrizes para o segmento, define que produto orgânico é todo aquele produzido em “sistema orgânico”, ou seja, livre de “materiais sintéticos”, “organismos geneticamente modificados” e “radiações ionizantes” – que provocam câncer. O conceito, contudo, é mais amplo, envolvendo aspectos sociais, culturais e ambientais.
“O objetivo é promover o desenvolvimento de toda a cadeia produtiva”, explica Ming Liu. “O tratamento das pessoas, animais e do meio-ambiente é determinante para uma empresa receber o certificado de produtor orgânico”.
A perspectiva de consumir um alimento livre de substâncias potencialmente tóxicas tem atraído um número crescente de consumidores em todo o mundo. Na Europa, maior mercado consumidor do planeta, com movimento de cerca US$ 17 bilhões por ano, a expansão avança a uma taxa de 15% anuais. Nos Estados Unidos, o segundo maior mercado, com um volume comercial de cerca de US$ 16 bilhões por ano, o aumento chega a 12% ao ano.
A Comissão de Agroindústria Orgânica, ligada ao Conselho Setorial da Agroindústria da Fiep, calcula que, no Brasil, o mercado de orgânicos cresça entre 30% e 50% ao ano. “A opção pelos alimentos orgânicos ganha espaço entre os consumidores no mundo todo, revelando não só a preocupação com uma alimentação mais saudável, como também por um sistema de produção que não agrida o meio-ambiente”, analisa Kátia Kobata, da Chá Mate Triunfo.
Há 50 anos no mercado, a empresa foi certificada em 2003 pela Ecocert Brasil. Atualmente, 80% da produção de erva mate orgânica é destinada à exportação, tendo como principais mercados os Estados Unidos e Europa. A produção orgânica, contudo, não se restringe ao ramo alimentício. O mate pode fornecer matéria-prima para a indústria de medicamentos, higiene pessoal e cosméticos. “Só irá prosperar nesse mercado quem tiver tecnologia moderna e trabalhar com manejo sustentável e credibilidade social”, observa Kátia.
Nichos
Encontrar novos nichos, ampliando as oportunidades de uso e o mercado para o produto é uma estratégia empregada por um número crescente de indústrias do segmento orgânico. Exemplo disso é a usina Ecoçúcar, de Engenheiro Beltrão, no Noroeste do estado, a 456 quilômetros de Curitiba. Dona da marca Indiana, a empresa produz 10 toneladas por dia de açúcar mascavo, quase na sua totalidade exportadas.
Atualmente, o principal mercado consumidor é a Coréia. As exportações começaram em 2004 e, hoje, o produto pode ser encontrado em 200 estabelecimentos de varejo em todo o país. No momento, a empresa negocia o fornecimento do produto para indústrias de cosméticos coreanas, que o utilizarão na produção de sabonetes e esfoliantes.
Alethéa Macena, responsável pela área de negócios internacionais da Ecoçúcar, explica que, para ter sucesso no mercado externo, é preciso, primeiramente, montar um bem estruturado planejamento estratégico. A Coréia foi a primeira opção porque a dimensão do seu mercado adequava-se às possibilidades de fornecimento da empresa à época.
À medida que os pedidos foram aumentando e, com eles, a receita e a escala de produção, a usina foi se habilitando a atender mercados mais amplos. Hoje, o açúcar mascavo Indiana está certificado para entrar na Europa e Estados Unidos, onde a empresa negocia com a rede Whole Foods Market. A certificação para atuar no Japão deve sair em dezembro.
Tradicional indústria do ramo alimentício no Paraná, a Barion, especializada na produção de chocolates e wafers, também aposta no segmento orgânico. De olho no mercado norte-americano, lançou este ano o Banana Organic, bombom de chocolate com recheio de banana. Até o momento, 40 mil unidades foram destinadas aos Estados Unidos.
Redes especializadas no atacado e varejo de alimentos orgânicos, como a Whole Foods Market, e uma diferença menor de preço em relação aos produtos convencionais, são fatores que favorecem a exportação para a América do Norte. “No Brasil, a demanda ainda é incipiente”, conta Rommel Barion, sócio responsável pela área de exportações da companhia. Contudo, as perspectivas de crescimento, tanto do mercado interno quanto externo, levam a empresa a diversificar a linha de produtos orgânicos. O próximo lançamento será um chocolate em barra orgânico, antecipa o empresário.
Cultura
Barion aponta um aspecto importante quando se fala das possibilidades de expansão do segmento de orgânicos no Brasil: preço. As vantagens de consumir um alimento livre de agrotóxicos e outras substâncias nocivas à saúde são por demais óbvias. O problema é que a distância entre o desejo ditado pela consciência do consumidor e a sua renda, muitas vezes, é muito grande. Para receber a certificação que a habilita a atuar como fabricante de alimentos orgânicos, uma empresa tem de adaptar a linha de produção, o que implica em investir, principalmente em processos. Além disso, ela tem de recorrer a fornecedores de matéria-prima com produção em pequena escala, o que encarece o preço. Tudo isso significa aumento de custo, que tem de ser repassado para o consumidor. No final das contas, o produto orgânico pode custar o dobro do similar convencional.
Além do baixo poder aquisitivo de parte da população, outro obstáculo ao crescimento do mercado consumidor no Brasil é o acesso restrito à informação sobre os benefícios do alimento orgânico. “Falta cultura”, constata Mauro Fujisawa, da Tozan. A indústria, localizada em Ponta Grossa, fabrica alimentos a base de soja, como óleo e carne. Da produção, cerca de 95% é exportada.
A falta de conhecimento em torno dos benefícios da alimentação orgânica não se restringe ao consumidor médio, estendendo-se, também, aos potenciais fornecedores. “A empresa tem sempre procurado expandir seu market share, fomentando a produção orgânica por pequenos e médios produtores. Porém, de forma franca, o aumento da produção de soja orgânica no Brasil está estagnado”, desabafa Fujisawa.
Perspectivas
Dificuldades há, sem dúvida, mas quem aposta no segmento vislumbra um futuro promissor. O que o engenheiro eletricista Marcelo Suguimati viu quando viajou à Alemanha e ao Japão inspira-o até hoje. A procura crescente por alimentos orgânicos nos dois países levou-o a pensar em investir no setor no Brasil. Ele e o engenheiro de produção Rogério Chimionato abandonaram duas promissoras carreiras no ramo corporativo, uniram-se em sociedade e abriram em Curitiba, há quatro anos, o Restaurante Chauá, o primeiro do país certificado como “orgânico”, localizado no bairro do Juvevê.
Um bom plano de negócio foi fundamental para fugir de gargalos como o alto preço dos insumos e a oferta restrita de alimentos in natura. Além da pequena quantidade de fornecedores, a produção orgânica obedece ao ciclo natural de animais e vegetais. Quando chega a entressafra, determinados pratos são retirados do cardápio, o que garante a preservação da identidade “orgânica” do restaurante.
Suguimati não se ilude. Reconhece que os produtos orgânicos jamais serão de consumo em massa. O aumento da oferta, contudo, deve favorecer uma redução dos preços e ampliar a base de clientes cativos. Os sócios abriram recentemente uma filial do Chauá no sofisticado bairro curitibano do Batel. E já pensam numa terceira unidade, provavelmente em São Paulo. “O produto orgânico quebra um paradigma. Destina-se a um consumidor que não está preocupado com quantidade, mas com qualidade”, resume o empresário.
Serviço
Programa OrganicsBrasil: www.organicsbrasil.org
Endereço: Rua Doutor Correa Coelho, 741 – Jardim Botânico – Curitiba (PR).
CEP: 80210-350.
Telefone: +55 (41) 3363-0082
Fax: +55 (41) 3362-0200
e-mail: info@organicsbrasil.org
*Federação das Indústrias do Estado do Paraná

