São Paulo – O chanceler brasileiro, Antonio Patriota, disse nesta terça-feira (22), durante entrevista para correspondentes estrangeiros, em São Paulo, que houve nos últimos anos uma mudança significativa na maneira como o governo dos Estados Unidos vê a possibilidade de reforma de órgãos multilaterais, em especial o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).
Ao comentar a declaração do presidente norte-americano, Barack Obama, que, em visita ao Brasil no último final de semana, manifestou “apreço” pela intenção do País de ocupar uma cadeira permanente no conselho, Patriota disse: “São manifestações importantes que revelam um grande progresso, na medida em que elas sinalizam, não só a aceitação, mas uma valorização da contribuição que países em desenvolvimento podem dar em um Conselho de Segurança ampliado na categoria de membros permanentes.”
De acordo com ele, que na década de 1990 trabalhou na missão permanente do Brasil junto à ONU, naquela época se falava apenas em “algo chamado ‘Quick fix’”, que consistia na integração da Alemanha e do Japão como membros permanentes, sem qualquer país em desenvolvimento elevado à mesma categoria.
“Vemos que essa situação se alterou consideravelmente, com essa valorização da contribuição que podem dar países em desenvolvimento”, ressaltou o chanceler, que já foi embaixador em Washington. “Isso é um fato em si mesmo significativo que, eu não tenho dúvida, terá impacto nas conversas [na ONU] em Nova York sobre o tema”, acrescentou. Ele se referiu também ao apoio dado por Obama, no ano passado, à pretensão semelhante da Índia.
Patriota lembrou que o Brasil atua em favor da reforma em coordenação com a Índia, Japão, Alemanha e países africanos. “Há um reconhecimento do presidente Obama de que essas estruturas (do conselho) não correspondem ao século 21, e creio que temos bases novas e muito positivas para trabalhar juntos por uma reforma no futuro, digamos, possível”, destacou o ministro. A proposta defendida pelo Brasil eleva de cinco para nove o número de membros permanentes, incluindo um representante da África.
Ainda sobre a visita de Obama, Patriota disse que a presidente Dilma Rousseff comentou que seu colega norte-americano “é muito fácil de se conversar”. Ele destacou que houve uma “química visível” entre os dois chefes de estados e brincou que a origem praiana de Obama – ele cresceu no Havaí – o ajuda “a falar do modo dos brasileiros” e a ter a simpatia dos brasileiros.
O chanceler declarou que, na visita, teve início uma “conversa renovada” entre os dois países “com base em objetivos comuns”. Entre eles, Patriota citou a promoção do comércio bilateral de “melhor qualidade” e “maior quantidade” – hoje a balança comercial é deficitária para o Brasil -, a busca de uma parceria estratégica no ramo de energia e a cooperação nas áreas de ciência e tecnologia e educação.
Ele destacou, porém, que o Brasil vai continuar a defender o diálogo com o maior número de “interlocutores” possível nas questões internacionais, e lembrou que, no brinde que fez a Obama em almoço no sábado, Dilma falou em uma “multipolaridade benigna”, ou seja, segundo o chanceler, uma interação entre diferentes povos para enfrentar os grandes temas internacionais. “O Brasil favorece o diálogo e a negociação como métodos”, destacou.
Líbia
Patriota disse, por exemplo, que no caso da Líbia, “não houve tanta divergência” no Conselho de Segurança sobre a imposição de uma zona de exclusão aérea no país, mas o mesmo não ocorreu sobre a ação militar atualmente em curso. O Brasil se absteve, de acordo com ele, porque tinha “dúvidas” sobre a “adequação” de tal medida. Se abstiveram também China, Rússia, Alemanha e Índia.
“Vamos aguardar agora o relatório que deve fazer o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, que está visitando a região, e o seu enviado especial, o ex-ministro [Abdelilah] Al Khatib, da Jordânia, que passou três dias na Líbia, para examinar, no Conselho de Segurança, quais serão os passos seguintes”, declarou.
Patriota ressaltou, porém, que o Brasil tem interesse em contribuir para a “estabilidade e o progresso econômico, social, institucional, democrático e político” da Líbia e de outros países “em momento de sublevação interna”.
O chanceler falou ainda sobre a visita que Dilma fará à China no futuro próximo. O comércio será um dos temas principais. O Brasil quer ampliar a exportação de produtos “de maior valor agregado” ao país asiático. Hoje as vendas são muito concentradas em itens básicos, ao passo que a China fornece ao Brasil majoritariamente mercadorias industrializadas.

