Isaura Daniel
São Paulo – Os estrangeiros querem embarcar no crescimento das exportações de carne bovina do Brasil. Na semana passada, um grupo norte-americano chamado Global Protein Group (GPG) anunciou a criação de uma joint-venture com a Corol Cooperativa Agroindustrial, do Paraná, para construir um abatedouro voltado à exportação de carne bovina. A operação é uma das poucas oficialmente anunciadas, mas, de acordo com especialistas do setor, empresas de fora do país têm demonstrado interesse em investir na pecuária nacional. "Temos recebido consulta de dados, busca de informações sobre o setor", diz o diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Antonio Jorge Camardelli.
Eles estão de olho no bom desempenho das exportações do segmento, propiciado pela abertura de novos mercados e pelo baixo custo da pecuária nacional. O GPG deve começar a construir o frigorífico exportador já no próximo ano. A empresa norte-americana vai investir US$ 20 milhões e a cooperativa paranaense, que fica no município de Rolândia, mais US$ 20 milhões. Inicialmente serão abatidos 500 bois por dia. Em três anos serão 2 mil cabeças de gado. A produção será exportada para Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia. O GPG foi criado por grupos pecuaristas norte-americanos só para fazer esse tipo de operação na América do Sul.
Os Estados Unidos é um dos concorrentes brasileiros que vêm perdendo espaço no mercado internacional de carne bovina. Os norte-americanos caíram do segundo lugar no ranking de exportadores mundial do produto, em 2002, para o nono no ano passado. Em 2002, os Estados Unidos exportavam 1,1 milhão de toneladas de carne de boi, mas a presença do mal da vaca louca no rebanho, descoberta no final de 2003, fez as vendas despencarem para 209 mil toneladas no ano passado. A União Européia é outra região que perdeu mercado externo nos últimos anos, em função de doenças no rebanho. A UE está hoje na oitava colocação como exportadora mundial, com 350 mil toneladas vendidas. Em 2003 e 2002 ela era a sexta colocada.
Já o Brasil figurou em 2004, pelo segundo ano consecutivo, no topo da lista de exportadores de carne bovina. O país vendeu 1,854 milhão de toneladas no mercado internacional, de acordo com dados Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). Em 2003 foram 1,3 milhão de toneladas e no ano anterior um milhão de toneladas. Em 2002, o Brasil ocupava o terceiro lugar no ranking. O país, porém, galgou dois degraus e desbancou a Austrália, que até 2002 era a maior exportadora mundial de carne bovina, com 1,366 milhão de toneladas. De 2002 para 2003, as vendas da Austrália caíram para 1,264 milhão de toneladas, mas em 2004 voltaram a subir para 1,395 milhão de toneladas. O país dos cangurus, porém, não chegou a recuperar o lugar principal na lista em função do crescimento vertiginoso do Brasil.
Boi barato
De acordo com Camardelli, um dos interesses dos estrangeiros na pecuária nacional é o baixo custo. A arroba do boi é vendida hoje no Brasil a cerca de US$ 20, o que dá ao quilo da carne um custo de um pouco mais de US$ 1. "Nos Estados Unidos é o dobro do preço", diz o assessor técnico da CNA, Paulo Sérgio Mustefaga. "O Brasil é imbatível em custo de produção", afirma o técnico da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e professor da Universidade Federal do Paraná, Eugênio Stefanelo.
As boas condições climáticas, a disponibilidade de terras e a criação do gado no pasto, de acordo com Mustefaga, são alguns dos fatores que propiciam o custo baixo. "Hoje o Brasil é o país que tem melhores condições de ser o grande fornecedor mundial de carne, temos qualidade e preço", afirma o assessor da CNA.
Isso vem despertando temor dos concorrentes mundiais e ao mesmo tempo interesse de fazer investimentos. "Não posso afirmar que a vinda dos estrangeiros para a pecuária nacional seja uma tendência, mas sem dúvida as grandes empresas do setor devem estar de olho no Brasil", diz Mustefaga.
O presidente da Câmara de Comércio Brasil-Austrália, Hélio Marchi, afirma que não tem notícias de australianos investindo em frigoríficos brasileiros, mas que eles têm se mostrado interessados em trabalhar de forma conjunta com os brasileiros em genética bovina, área na qual a Austrália é uma das referências mundiais.
Stefanelo afirma que os países compradores estão procurando diversificar os seus fornecedores na área de alimentos, para ficar menos suscetíveis a problemas como os de sanidade ou políticos, e que isso contribuiu para a conquista de novos mercados por parte da pecuária brasileira.
Os países árabes são alguns dos que passaram a comprar mais carne do Brasil nos últimos anos, com a diminuição das vendas de fornecedores como a União Européia, tradicional parceiro comercial da região. O Egito, por exemplo, figura como segundo maior importador da carne bovina in natura brasileira em julho deste ano, com 20,9 mil toneladas adquiridas, o que significa US$ 39 milhões. No mesmo mês do ano passado, os egípcios eram os terceiros maiores compradores, com 8,1 mil toneladas ou US$ 11,2 milhões. A Argélia foi a quarta maior cliente internacional da carne in natura brasileira em julho deste ano, com 7,1 mil toneladas contra 3,7 mil no mesmo mês de 2004.
Embarques
O Brasil exportou em julho 158 mil toneladas de carne, incluindo in natura, industrializada e miudezas, o que significou aumento de 47,57% sobre o sétimo mês do ano passado. Entre janeiro e julho, o volume vendido atingiu 1,299 milhão de toneladas, 35% mais do que as 965 mil toneladas comercializadas nos sete primeiros meses de 2004. O faturamento do período ficou em US$ 1,752 bilhão, 33% maior do que janeiro a julho do ano anterior. O principal destino da carne in natura foi a Rússia, com US$ 296 milhões e o maior comprador da carne industrializada foram os Estados Unidos, com US$ 85 milhões. De acordo com projeções do presidente da CNA, Antenor Nogueira, até o final do ano o Brasil deve faturar US$ 3 bilhões com exportações de carne bovina.

