Altamira, PA – A rodovia Transamazônica é um símbolo da época do “Brasil Grande”, no início dos anos 70, quando o país estava sob a ditadura militar. No entanto, ao contrário de outros ícones daquele período, como a hidrelétrica de Itaipu, na fronteira com o Paraguai, e a ponte Rio-Niterói, no Rio de Janeiro, marcos da engenharia brasileira, a BR-230 se tornou uma marca da falência daquele modelo.
Trafegar hoje pela estrada não deve ser muito diferente do que há 40 anos, quando ela foi construída. No Pará, por exemplo, o percurso ainda é quase todo de terra, existem poucos trechos asfaltados. No inverno amazônico, a rodovia torna-se praticamente intransitável. No verão, porém, a seca permite trafegar até com carros comuns, apesar dos intermináveis buracos e da poeira capaz de sujar até o último fio de cabelo, mesmo viajando com as janelas fechadas.
Na Amazônia, o inverno é o tempo das chuvas constantes, que vai do final do ano até meados do próximo. O verão é a época da estiagem, que este ano ainda não terminou.
A reportagem da ANBA percorreu, no último final de semana, os 520 quilômetros da Transamazônica que separam Marabá e Altamira, duas cidades importantes do interior do Pará, como integrante da Jornada E.torQ Amazônia, viagem de carro organizada pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros de São Paulo e patrocinada pela FPT, fábrica de motores da Fiat.
Além dos buracos e da poeira, o que se vê são fazendas de gado, algumas áreas de mata ainda de pé, vilarejos e pequenos municípios com casas de madeira, além de gente simples, mas com muita história para contar.
É o caso do pescador Zézim, dono do restaurante Peixe Frito, instalado na cabeceira da ponte que cruza o rio Arataú, município de Novo Repartimento. Nascido na região, ele ocupa o ponto há 20 anos, onde serve, com a ajuda da mulher, caminhoneiros que passam pela estrada.
Sorridente, conversa com todo mundo e mostra, orgulhoso, uma foto aérea do seu restaurante tirada em maio, ainda na época da cheia. “Paguei R$ 600”, disse. Limpa e frita os peixes papa terra nos fundos da construção de palafitas, com uma ajudante que se envergonha ao ser fotografada.
No balcão da frente do restaurante, a mulher conta que o percurso de Marabá a Altamira, feito em pouco mais de um dia pela reportagem, com várias paradas, inclusive para dormir, pode demorar um mês no inverno, por causa dos atoleiros.
Italiano do sul (do Brasil)
O fato é que na região, conhecida pela violência, é fácil encontrar muita gente hospitaleira e que gosta de um dedo de prosa. Outro exemplo é o do catarinense Gelásio Pacher, de Rodeio, no Vale do Itajaí, proprietário do restaurante Telhadinho e dono de serraria, em Anapu.
Ao receber o grupo de jornalistas forasteiros, o descendente de italianos começou a falar sobre particularidades do local e de como foi parar lá, tão longe de sua terra natal. Chegou a Anapu faz cinco anos, depois de ter morado em outros lugares no Norte do país. Sempre trabalhou no setor madeireiro, mesmo em Santa Catarina. Reclama da burocracia imposta ao setor e também da falta de manejo na exploração local. “Há aqui uma visão muito imediatista”, afirmou ele, que defendeu uma produção sustentável.
Vendo gente de fora, ofereceu um “trairão” a Gomes de Sá, peixe desfiado e preparado como na famosa receita de bacalhau, e um filé de pescada com molho Belle Meunière, a base de manteiga e alcaparras. Segundo Pacher, poucos nativos apreciam esses pratos, que ele descreveu com prazer.
Após o almoço, Pacher pegou o carro e foi mostrar o lugar onde está enterrada a freira Dorothy Stang, norte-americana naturalizada brasileira, defensora de causas sociais e ambientais, que foi assassinada em 2005 por pistoleiros a mando de um fazendeiro da região, recentemente condenado a 30 anos de prisão.
Ele entregou o grupo aos cuidados de Robson, um garoto da cidade, na cabeceira de uma frágil ponte sobre o rio Anapu, onde não passam automóveis, que leva a um bosque onde a religiosa foi sepultada. É um lugar tranquilo, rodeado de árvores nativas, com um galpão para reuniões, peregrinação e prece. Ali perto mora uma família. O casal cuidava de seus afazeres enquanto um dos netos, de dois, entretia-se com os visitantes.
Na volta, Robson conversou sobre seu cotidiano, disse que cursa simultaneamente a sétima e a oitava séries do ensino fundamental, e discorreu sobre a natureza ao redor. Falou sobre os cocos do babaçu, amontoados próximos à casa da família, de onde se extrai um leite usado para fazer óleo. Contou que, às vezes, o fruto é atacado por uma larva. “Que é ótima para pescar”, declarou. Foi ainda mostrando plantas, como o maracujá do mato, que cresce rente ao chão e que a garotada gosta de comer. “É bom demais”, disse.
Em direção a Altamira, a Transamazônica se interrompe de repente para deixar passar o rio Xingu, na vila de Belo Monte, que dá nome ao projeto da usina hidrelétrica programada para ser construída nos arredores.
Para atravessar, é preciso pegar uma balsa. Do outro lado, a equipe retomou a estrada já de noite, com a escuridão piorando a visibilidade em meio aos buracos e à poeira, com o agravante de que há vários desvios por causa de obras na pista.
Muita gente faz esse trajeto de maneira precária. Ao lado de caminhonetes quatro por quatro e de caminhões de grande porte, estão carros velhos e uma infinidade de motocicletas, de longe o meio de transporte terrestre mais utilizado na região. Não há como não se admirar como as pessoas conseguem passar por toda aquela poeira sem ao menos usar capacete.
Altamira, no fim do trajeto, surpreendentemente é a cidade mais limpa e organizada por onde o grupo passou desde que chegou ao Pará. Lá, porém, se repetem algumas das peculiaridades locais: o grande número de motos e a mania de ouvir música sertaneja, e também eletrônica, no último volume.

