São Paulo – Antes mesmo de publicada uma lei federal ordenando que 30% dos alimentos para merenda escolar brasileira viessem da agricultura familiar, um município do interior gaúcho já abastecia a cozinha das suas escolas diretamente no campo. O município se chama Dois Irmãos, tem 25 mil habitantes e o sucesso da iniciativa foi motivo de uma pesquisa premiada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e o Núcleo de Estudos e Pesquisa em Alimentação (NEPA), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na área de segurança alimentar e nutricional.
A pesquisa é da gaúcha Rozane Márcia Triches, que assina o artigo que ficou em primeiro lugar na premiação da FAO juntamente com o seu orientador de doutorado, o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Sérgio Schneider. Os ganhadores foram divulgados na última semana e o concurso, que abrange América Latina e Caribe, teve 48 artigos de oito países inscritos. Também são brasileiros o terceiro e o quinto lugar. O segundo lugar foi para um projeto peruano e o quarto para um artigo mexicano.
Rozane é nutricionista da Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de Dois Irmãos. No artigo apresentado à FAO ela conta a experiência do município, que fica a cerca de 50 quilômetros de Porto Alegre, com a alimentação escolar e pequena agricultura. “Desde 2004 o município vem comprando da agricultura familiar”, diz à ANBA. Isso porque, em 2003, ela fez uma pesquisa junto aos estudantes da rede pública, como parte da sua tese de mestrado, e descobriu que eles estavam acima do peso.
A partir daí se percebeu a necessidade de que eles comessem mais verduras e legumes. E uma das constatações foi que a baixa qualidade destes alimentos, adquiridos em uma central de abastecimentos, influenciava no pouco gosto das crianças pelos produtos naturais. A partir de 2004, então, os alimentos para a comida escolar começaram a vir diretamente do campo, das pequenas propriedades. A qualidade aumentou e também a diversidade. “Quem não gosta de um legume, por exemplo, come outro”, explica Rozane. E gerou mercado para os agricultores.
Quando as compras se tornaram lei, em 2009, as escolas de Dois Irmãos já trabalhavam desta forma. A legislação ainda dispensou as aquisições de produtos da agricultura familiar de licitação. Esse sistema de compras é gerido nos municípios, explica Schneider, por conselhos de alimentação escolar, integrados pelo poder público, sindicato dos trabalhadores rurais, pais dos alunos e agricultores. E se insere em uma política pública de gerar oportunidades para pequenas propriedades e melhorar a qualidade da alimentação no país.
De acordo com Schneider, que é sociólogo e professor de pós-graduação em Desenvolvimento Rural e em Sociologia na Ufrgs, o Brasil está iniciando a trajetória dos países desenvolvidos, onde há problema de obesidade e sobrepeso. E o fenômeno, lembra ele, vem de um consumo cada vez maior de produtos industrializados. “Há cada vez mais pessoas com insegurança alimentar não por falta de comida, mas por má qualidade dos alimentos”, afirma. Por outro lado, a agricultura tem cada vez menos alternativas para vender seus produtos. “Os agricultores estão cada vez mais dependentes de grandes cadeias”, explica.
Em entrevista à ANBA, Rozane afirma que ficou surpresa, mas feliz com a notícia do primeiro lugar no concurso, cuja participação foi iniciativa do seu orientador de doutorado. "Como é um prêmio com outros países concorrendo, achei que seria difícil ganhar", diz. Rozane e Schneider devem receber oficialmente o prêmio da FAO no mês de outubro em Santiago do Chile, no Chile.

