São Paulo – A gaúcha Silvia Ferabolli, autora de dois livros sobre o mundo árabe e professora de Relações Internacionais, acredita na integração dos países árabes e prega que ela é a melhor opção de cooperação para a região. Esse foi o recado que ela deu na quarta-feira (13) durante palestra sobre o tema na sede da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, na capital paulista, na qual ressaltou também os avanços conjuntos que as nações árabes já conquistaram. A palestra foi ouvida por cerca de 30 pessoas, entre empresários, estudantes, lideranças da Câmara Árabe e interessadas no tema.
“Existe muito mais cooperação regional no mundo árabe do que a gente pode imaginar, desde que a gente tire da mente a ideia de que a única forma possível de organizar um grupo de estados regionalmente é através do modelo de cooperação da União Europeia”, afirmou a palestrante, cujos livros escritos na área são fruto das suas teses de mestrado e doutorado, este último feito pela Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.
De acordo com Ferabolli, existem três tipos de regionalismo que disputam a região que vai do Golfo até o Oceano Atlântico. Um deles é a do Novo Oriente Médio, defendida por Shimon Peres e apoiada pelos Estados Unidos, no qual Israel funcionaria como um centro da região. A outra é a do Mediterrâneo, que tem a ideia oficial de integrar as nações árabes do Mediterrâneo, além da Turquia e Israel, com a União Europeia, mas, segundo a estudiosa, o objetivo real é transferir para os árabes os custos de segurança do bloco europeu com a região.
O outro projeto de integração que disputa a região é o centrado nos estados árabes. “A minha tese é que o projeto de cooperação árabe mostra níveis muito mais elevados de sucesso”, afirmou. Segundo ela, desde o século passado, estados e cidadãos árabes estão envolvidos em um processo de construção regional que se desenvolve de modo irregular, instável e imperfeito. “A área árabe ampliada de livre comércio é imperfeita, mas se vocês me apresentarem uma área de livre comércio perfeita, eu vou bater palmas por vinte minutos”, diz.
De acordo com a palestrante, quando se fala dos projetos árabes já se vai com uma “má vontade”. Ferabolli afirmou que estudos sobre o "Greater Arab Free Trade Area" (Gafta) focam só nos problemas. Ela lembrou as tentativas de criação de áreas de livre comércio árabe, em 1953, 1964 e 1981, que não deram muito certo, mas, por outro lado: “Os árabes foram aprendendo como não fazer área de livre comércio”.
Segundo ela, a correção disso é o que existe hoje, com o Gafta. Como exemplos da integração regional, Ferabolli falou das transferências de renda das regiões mais ricas para as mais pobres e os Investimentos Diretos Estrangeiros (IDE) entre países árabes. Ferabolli afirma que as nações do Conselho de Cooperação do Golfo respondem por 36% do IDE no mundo árabe.
Ela citou fundos do Kuwait, Abu Dhabi e Arábia Saudita, que são os maiores doadores mundiais de dinheiro em relação ao seu PIB, além dos fundos do Arab Bank for Economic Development in Africa (Abeda), da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e do Islamic Development Bank (IDB), que têm coordenação árabe. De acordo com a estudiosa, os últimos estudos apontam que um país árabe tem 22 vezes mais chances de receber financiamento de qualquer um destes fundos do que um país não árabe.
Ferabolli falou ainda sobre outras esferas da cooperação que dão certo com os árabes, como a remessa de trabalhadores migrantes entre países, o intercâmbio de ideias em função dessa ida e vinda de pessoas entre países, e até mesmo a migração forçada, com o acolhimento de refugiados quando um país está em conflito. O fato de haver universidades “renomadíssimas” árabes também permite aos cidadãos irem de um país ao outro para estudar, com total confiança na capacidade daquele vizinho na área e com o uso da mesma língua. De acordo com Ferabolli, no nível das relações humanas e do indivíduo está a grande força da região.
A gaúcha ressaltou também os avanços conseguidos nas reuniões de cúpula promovidas pela Liga Árabe, como o lançamento do Arab Sat, um satélite líder na região que serve os países árabes, e o acordo conjunto de comércio feito com a China. E lembrou também que para acessar os fundos árabes é preciso ser árabe ou ter uma parceria com um árabe.
Ferabolli questionou o motivo pelo qual, diante de todo esse universo, os estudos sobre o regionalismo local são negligenciados. E deu sua explicação. “As organizações e instituições árabes são pensadas, dirigidas e operadas por cidadãos árabes. Isso significa que internacionalistas europeus e norte-americanos que não falam árabe não podem trabalhar nestas instituições e não podem exercer liderança, ou poder de mando e comando, nos fóruns, organizações e instituições árabes”, finalizou.
O evento na Câmara Árabe fez parte do Ciclo de Palestras promovido pela entidade, que traz especialistas em áreas como cultura, comércio internacional e economia para abordarem seus temas. A palestra de Ferabolli foi aberta pelo presidente da entidade, Marcelo Sallum, e conduzida pelo ex-diretor Mário Rizkallah. Também participaram outras lideranças da Câmara Árabe, como o diretor geral Michel Alaby, e o vice-presidente de Comércio Exterior, Rubens Hannun.


