Rio de Janeiro – O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro não apresentou crescimento no terceiro trimestre deste ano, em relação ao trimestre anterior. Em valores correntes, o PIB somou R$ 1,05 trilhão. Em relação ao mesmo período do ano passado, houve crescimento de 2,1%. A expansão acumulada no ano chega a 3,2%. Já no acumulado de 12 meses, o PIB cresceu 3,7%. As informações foram divulgadas nesta terça-feira (06) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na comparação do terceiro com o segundo trimestre, o único setor que apresentou crescimento foi a agropecuária, com 3,2%. A indústria teve queda de 0,9% e os serviços, de 0,3%. Sob a ótica da demanda, houve reduções no consumo do governo (-0,7%), no consumo da família (-0,1%) e nos investimentos (-0,2%).
O desempenho do Brasil no terceiro trimestre, na comparação com o segundo, só superou o da Holanda, em uma lista de 14 países divulgada pelo IBGE. A economia holandesa registrou uma queda de 0,3% no mesmo período.
O comportamento da economia brasileira foi o mesmo registrado pela Bélgica e Espanha, e ficou abaixo do da União Europeia (0,2%), França (0,4%), Reino Unido, Estados Unidos e Alemanha (0,5%), Chile (0,6%), Coreia do Sul (0,7%), México (1,3%), Noruega (1,4%) e Japão (1,5%).
A inflação alta, a elevação da taxa de juros até julho e a adoção de medidas, pelo governo, para frear a economia no final de 2010 são algumas explicações para que o PIB do País não tenha crescido, avaliou a gerente de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.
Entre as chamadas “medidas macroprudenciais” adotadas pelo governo federal no final de 2010 estão o aumento das exigências para a concessão de crédito, que impactaram, por exemplo, o financiamento para a compra de veículos. Isso fez com que as compras de automóveis fossem reduzidas nos primeiros meses do ano e os estoques das montadoras de veículos aumentassem.
Segundo Rebeca, com o aumento dos estoques, as montadoras reduziram a produção de automóveis no terceiro trimestre deste ano e chegaram a dar férias coletivas. Essa queda foi um dos principais motivos que levaram à redução de 1,4% da produção na indústria de transformação e de 0,9% na indústria geral.
A elevação da taxa básica de juros (Selic) de 10,5%, no primeiro trimestre deste ano, para 12,2%, no terceiro trimestre, também contribuíram para a desaceleração da economia.
Apesar da queda na indústria de transformação, outros segmentos como a indústria extrativa mineral (com alta de 0,9%) e a construção civil (com alta de 0,2%) tiveram crescimento. A extrativa mineral foi influenciada pela produção de minério de ferro. Já a construção civil continuou seu bom desempenho, em virtude das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e das intervenções para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
A queda na produção da indústria acabou afetando também o setor de serviços, que caiu 0,3%, com destaque para o comércio, que registrou redução de 1%. O que evitou que a economia brasileira registrasse queda no trimestre foi o crescimento de 3,2% da agropecuária, puxada pelo aumento da produtividade de safras como as do feijão, da laranja e da mandioca.
De acordo com Rebeca, a economia no terceiro trimestre apresentou uma mudança de comportamento, já que vinha de altas seguidas. “A gente teve uma desaceleração importante da taxa de crescimento, inclusive apresentando crescimento nulo, e houve até uma mudança da estrutura do que vinha acontecendo. Anteriormente, o crescimento da economia estava sendo puxado pelos serviços. Nesse terceiro trimestre, foi puxado pela agropecuária”, disse.
Sob a ótica da demanda, o consumo das famílias caiu em 0,1% na comparação do terceiro com o segundo trimestre deste ano, em parte devido à desvalorização da renda familiar por conta da alta da inflação, cuja taxa anualizada, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), chegou a 7,31% em setembro.
O consumo do governo também caiu (-0,7%), bem como a formação bruta de capital fixo, isto é, os investimentos (-0,2%). “O crescimento [da economia] vinha sendo muito puxado pelos investimentos, muito devido à importação de máquinas e equipamentos, que vinha crescendo bastante. Os investimentos tiveram um desempenho pior que o consumo das famílias, o que não vinha acontecendo”, disse.
As exportações foram o único elemento do PIB, sob a ótica da demanda, a apresentar crescimento (1,8%), na comparação do terceiro com o segundo trimestre, resultado que superou, inclusive, as importações, que tiveram queda de 0,4%.
O IBGE ainda reviu as taxas de crescimento do PIB dos dois primeiros trimestres deste ano, divulgadas anteriormente. No primeiro trimestre, em relação ao trimestre anterior, o crescimento caiu de 1,2% para 0,8%, enquanto a expansão no segundo trimestre (no mesmo tipo de comparação) passou de 0,8% para 0,7%.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu que o crescimento do PIB não chegará a 3,8% em 2011 como previa o governo. “Com esse resultado [do IBGE] é difícil que tenhamos um crescimento de 3,8% como vínhamos projetando. Não só por causa do resultado do terceiro trimestre, mas porque o IBGE revisou o resultado dos dois primeiros trimestres do ano”, disse. “Esse resultado do PIB não muda as expectativas para 2012, quando teremos um crescimento maior. Vamos trabalhar para que haja um crescimento maior. O único instrumento que não mudará é a política fiscal", completou.
O ministro ressaltou que o governo tem o controle da situação e reiterou que o Brasil está em situação bem diferente dos outros países ante a crise econômica internacional. Segundo Mantega, enquanto os outros países têm uma série de dificuldades, como a queda no consumo interno, o Brasil pode enfrentar os problemas com instrumentos para estimular o crédito e o consumo, como os anunciados na semana passada.

