Milena Galdino, da Agência Brasil
Brasília – Poucas áreas de atuação do governo ganharam tanta notoriedade em 2003 quanto a diplomacia e a negociação internacional. A pasta, coordenada pelo ministro Celso Amorim, foi uma das principais responsáveis pela queda do risco-país – que em pouco mais de um ano baixou de 2.436 pontos para 484, segundo o índice do JPMorgan – e pelos recordes de exportação registrados no ano.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou ao longo do ano 18 viagens internacionais, levou a maior comitiva de empresários a África, fez a primeira visita ao Oriente Médio em mais de cem anos. E sua equipe do Ministério das Relações Exteriores orquestrou ações, como o enfrentamento às nações ricas na reunião de Cancún com a criação do G20, que garantiram ao Brasil poder de barganha nas negociações internacionais.
Ao contrário do previsto por alguns analistas na época das eleições, Lula não assustou os investidores internacionais. Pelo contrário: surpreendeu-os com discurso em favor dos países que, como o Brasil, lutam contra a miséria, a pobreza, o analfabetismo e a violência.
"Nesse particular, isso transformou Lula, um líder aparentemente nacional, num líder com dimensão muito maior", prega Marco Aurélio Garcia, assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República.
Para Flávio Sombra Saraiva, diretor do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (Ibri), porém, a empolgação não pode ser generalizada. "Lula se elegeu com duas grandes promessas: acertar a condição do País no cenário internacional, reduzindo o risco e melhorando investimentos e exportações, mas também disse que livraria o povo da fome e da miséria. A primeira ele fez bem, mas continua devendo a segunda, porque programas sociais como o Fome Zero, por exemplo, ainda não têm a vitalidade que precisam. O povo ainda passa fome e a má distribuição de renda continua notória", critica.
Sombra Saraiva classifica atual política externa como uma retomada de rumo em relação ao governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso. "Lula é mais agressivo, saiu da diplomacia de palácio para assumir ao verdadeiro peso do Brasil no exterior", compara. Ele aponta algumas ações do governo que, segundo ele, foram fundamentais para a formatação atual da política externa brasileira. Uma das mais importantes, em seu entender, foi a nova construção do eixo sul-sul, encabeçada pelo Brasil: o chamado G20, o grupo de nações em desenvolvimento – incluindo China, Índia e África do Sul – que luta pelo fim do protecionismo da Europa e dos Estados Unidos em relação ao agronegócio.
América do Sul
Para o acadêmico, a atuação da diplomacia do Itamaraty também ganhou brilho pela intervenção em questões da América do Sul. "O apoio de Lula ao argentino Néstor Kirchner e ao boliviano Carlos Mesa foi irretocável, pois assegurou estabilidade e política em países prioritários para o Brasil, afinal a Argentina é o maior parceiro comercial da região, e a Bolívia é a maior área de fronteira", argumenta.
A ajuda aos governos da Venezuela e da Colômbia em crises políticas também foram pontos positivos, na visão de Saraiva. "O Brasil criou o grupo de amigos da Venezuela em fevereiro e afastou a hipótese de os Estados Unidos intervierem na Colômbia fazendo deste país uma nova Bósnia", lembra.
A opinião de que as relações com a América do Sul saíram do aperto de mãos e do terreno das boas intenções para o pragmatismo é compartilhada por Antônio Carlos Lessa, coordenador da Rede Brasileira de Relações Internacionais (Relnet). "A afirmação de prioridade do espaço sul-americano hierarquiza o projeto brasileiro para o hemisfério. Nessa ordem, vislumbrou-se no primeiro ano a estratégia de inscrever a liderança brasileira e a revitalização da integração regional em estratégia mais ampla, que permita o tratamento de outros processos importantes, como as negociações para a criação da Alca", disse em um artigo recentemente publicado pela Universidade de Brasília.
Daqui para frente, na visão de Saraiva, é preciso sincronizar os passos diplomáticos com a política econômica internacional. "Falta ao governo criatividade para desenvolver esse lado, porque a economia ainda está vindo a reboque", critica. Já Lessa faz oposição à maneira como o Brasil segue pleiteando uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. " A pretensão brasileira, até o momento, não contou com amplo debate público, que deveria preceder a vocalização de projeto de tal envergadura", argumenta o acadêmico.
Países-irmãos
Nos últimos meses, poucos países ganharam no Itamaraty tratamento tão diferenciado como os integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP, que reúne uma população de 220 milhões de pessoas em quatro dos cinco continentes. Portugal, Timor Leste, Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Angola sentem a presença brasileira no, seja nas áreas de segurança, negócios, saúde ou educação. Em novembro, os três últimos receberam a visita do presidente e ouviram promessas de investimentos do Brasil em diversas áreas da indústria e do comércio.
Com Lula, viajou para a África uma comitiva de 128 empresários interessados na expansão de exportações. Foram negociados fábricas de cimento e de remédio, construção de ferrovias, exploração de carvão, exportação de aparelhos celulares, montagem de ônibus e venda de máquinas de coletar lixo, entre outros. Se tudo o que foi acertado entre os empresários africanos e brasileiros virar realidade, o intercâmbio entre os países facilmente passará de US$ 1 bilhão.
Para o embaixador João Augusto Médicis, secretário-executivo da CPLP, o Brasil desenvolveu nos últimos meses fortes programas de cooperação bilateral com os demais parceiros da comunidade, onde o país exerce a presidência até meados de 2004. Entre os mais significativos, ele cita a abertura de centros de ensino técnico de bandeira brasileira no Timor e em Angola e a disposição de urnas eletrônicas para o pleito de Guiné Bissau, que acabou adiado por conta do golpe militar ocorrido no país.
"A notícia da fábrica de medicamentos anti-retrovirais que o Brasil instalará em Moçambique também trouxe grande entusiasmo aos demais membros da Comunidade", completa o embaixador, funcionário aposentado do Ministério das Relações Exteriores e coordenador do órgão multilateral até 2006.
Médicis comenta que Lula foi muito claro na passagem pela sede da CPLP, em Lisboa: "Ele disse que a CPLP tem a responsabilidade especial de reverter a situação de miséria de alguns povos mobilizando a comunidade internacional para ajudar", destacou o secretário-executivo negando a possibilidade de os países africanos encararem como imperialista este o novo rumo tomado pelo governo brasileiro.
"O Brasil não quer exercer tutela sobre ninguém, até porque essa nunca foi uma característica da diplomacia brasileira. O País vem sendo reconhecido por uma atitude em que estende a mão para ajudar nações amigas", refuta.
Para ele, a prova da boa intenção brasileira está nas duas maiores conquistas do Brasil nas áreas de saúde. "O Brasil foi aplaudido pelo hemisfério sul ao conseguir a quebra de patentes dos remédios de Aids e ao conseguir tirar as vacinas e remédios dos critérios mais rígidos de comércio no caso de endemias", destaca o embaixador.
Mais perto do Oriente Médio e da Ásia
Lula já confirmou, para o primeiro semestre do próximo ano, a ida à Ásia. Pelo menos duas aterrissagens têm destino certo: Índia e China, países do G-20 que demonstram grande interesse comercial e político para com o Brasil. Juntos, esses dois países têm o maior mercado consumidor do planeta, com mais de dois bilhões de pessoas.
No último programa Café com o Presidente, transmitido pela Radiobrás, ele destacou a importância da viagem que fez a cinco países árabes. "Primeiro, é uma parte do mundo que tem dinheiro e pode investir nos projetos de infra-estrutura que nós tanto precisamos no Brasil e na América do Sul. Segundo, é uma parte do planeta que pode comprar parte dos produtos que nós fabricamos no Brasil, que vai do alimento a avião que nós produzimos", comentou o presidente.

