Porto Alegre – A Prefeitura de Porto Alegre pode ser a protagonista de uma aproximação entre cidades árabes e brasileiras. O prefeito José Fortunati (PDT) se encontrou com diplomatas árabes nesta quinta-feira (16) e mostrou disposição para organizar um encontro entre cidades da região e brasileiras. Fortunati foi eleito, há cerca de um mês, como presidente da Frente Nacional de Prefeitos e afirmou que uma das áreas de trabalho será a aproximação dos municípios brasileiros com cidades de outros países do mundo, entre elas as de nações do Oriente Médio e Norte da África.
Um grupo de 15 embaixadores e encarregados de negócios das embaixadas destes países em Brasília realiza nesta quinta e sexta-feira (17) uma missão ao estado do Rio Grande do Sul com o objetivo de estreitar relações e identificar oportunidades de negócios e parcerias. No encontro com Fortunati, foi o decano do Conselho dos Embaixadores Árabes e embaixador da Palestina, Ibrahim Alzeben, quem levantou o tema do encontro entre cidades. O assunto já havia sido discutido entre os diplomatas e o prefeito de Porto Alegre em oportunidade anterior.
Fortunati prontamente mostrou disposição para articular esse aproximação, agora como presidente da Frente Nacional de Prefeitos. No encontro com os diplomatas, ele se mostrou adepto da causa palestina e afirmou que uma das mais gratificantes viagens que fez, na sua vida pública, foi à Palestina. Ele lembrou ainda que Porto Alegre é uma cidade formada etnicamente de maneira plural. “O que cada povo tem de importante, Porto Alegre tem aprendido a respeitar. Temos aqui uma grande convivência entre a comunidade palestina e judaica”, afirmou ele aos embaixadores.
Os embaixadores agradeceram o apoio dado por Fortunati à causa palestina e também se mostraram dispostos a trocar experiências com Porto Alegre. “A Tunísia passa por um processo de democratização e se aproveita das experiências de democracia para que ela reine também no país”, afirmou o embaixador da Tunísia, Sabri Bachtobji, em sua primeira viagem como embaixador junto ao grupo. “O mundo é uma pequena aldeia e por isso acredito que todas as suas realizações serão transferidas para o mundo”, afirmou o embaixador da Liga Árabe, Bachar Yaghi.
Todos os diplomatas que tomaram a palavra convidaram o prefeito para visitar seus países. O embaixador do Kuwait, Yousef Abdulsamad, afirmou que seu governo tem um ministro que cuida dos assuntos das prefeituras municipais e conta com a visita de Fortunati ao Kuwait. Diante de tantos convites, quando pediu a palavra, o embaixador do Sudão e vice-decano do Conselho do Embaixadores Árabes, Abd Elghani Elnaim Awad Elkarim, brincou: “Todos eles (árabes) têm parentes no Sudão, então pode visitar o Sudão que estará visitando todos”.
Além dos diplomatas, a missão é integrada pelo presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Marcelo Sallum, o diretor de Relações Institucionais, Sylvio Abdallah Jr., e o diretor-geral da entidade, Michel Alaby.
O grupo foi recebido também pelo governador Tarso Genro (PT), que manifestou seu apoio à causa palestina. Em entrevista à ANBA, ele reforçou a posição. “Temos orgulho de ter uma relação de solidariedade permanente com o povo árabe, nos conflitos relacionados ao Oriente Médio. Defendemos o direto da Autoridade Palestina ter uma jurisdição plena sobre seu território e esses intercâmbio culturais, políticos e econômicos reforçam politicamente um país que luta pela paz e respeita profundamente a comunidade árabe”, afirmou ele.
De acordo com Genro, as relações com o Rio Grande do Sul, podem avançar em várias áreas. Dua delas são as de máquinas agrícolas e de alimentos, setores nos quais já há um intercâmbio comercial. “E temos também do lado de lá experiências extraordinárias, não só na agricultura. Determinados países árabes têm também uma possibilidade de nos transmitir a educação milenar que vem das universidades árabes”, disse.
Oportunidades
A possibilidade de maior intercâmbio comercial do estado com o mundo árabe foi tema do seminário “Como Negociar com Países Árabes – Oportunidades de Comércio, Investimentos e Turismo”, que ocorreu na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) como parte da missão. Os países árabes são destino de 7,8% de tudo o que o Rio Grande do Sul exporta, percentual acima da média nacional, que é de 6,1%, de acordo com informações do coordenador da Assessoria de Cooperação e Relações Internacionais do gabinete do governador, Tarson Nuñez.
Os gaúchos faturaram US$ 1,3 bilhão com exportações ao mundo árabe no ano passado, principalmente em carnes, cereais e fumo, e importaram US$ 1,5 bilhão, com hidrocarbonetos e fertilizantes no topo da lista. Diplomatas e representantes do setor público e privado gaúcho concordaram que há um bom comércio estabelecido, mas que é possível aumentá-lo, passando ao nível dos investimentos e parcerias. “Tramontina, Grendene, Via Uno, Dumond, Marcopolo, Randon são empresas que já estão presentes no mundo árabe e com resultados excelentes”, disse Sallum.
O presidente da Câmara Árabe mostrou aos presentes a dimensão do mercado da região, que, segundo ele, tem uma população de mais de 360 milhões de habitantes, Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 2,9 trilhões e corrente comercial de US$ 25,9 bilhões com o Brasil. O Rio Grande do Sul, lembrou Sallum, é o quarto maior parceiro comercial dos países árabes entre os estados brasileiros. Alaby falou dos diferentes perfis da região e com isso as diferentes possibilidades de negócios. “Há países ricos, há países em desenvolvimento e há países pobres. Nem todos os países árabes são ricos e querem importar”, reforçou ele.
O diretor geral da Câmara Árabe mostrou quem são atualmente os maiores mercados consumidores da região – Egito, Sudão, Argélia, Marrocos, Iraque e Arábia Saudita – em função do tamanho das suas populações e falou também sobre os produtos que os árabes têm para exportar, além de petróleo e fertilizantes: azeites, frutas secas, materiais médicos e hospitalares, insumos para a indústria de plástico, entre outros. Alguns diplomatas citaram exemplos de parcerias que já estão acontecendo entre Brasil e países árabes, como a presença da petroquímica saudita Sabic em Campinas, no interior paulista, ou da empresa brasileira de agronegócio Pinesso no Sudão. Também a gaúcha Marcopolo tem linha de montagem no Egito.
Mas a ordem é intercambiar mais, se aproximar mais, vender e comprar mais. “Queremos aprofundar nossas relações com o mundo árabe, não só com exportação e importação, mas também com parcerias”, disse Nuñez. Ele apresentou o potencial da economia do estado aos embaixadores. O Rio Grande do Sul, segundo Nuñez, é o terceiro estado do Brasil em número de empresas e o segundo em PIB industrial, abriga o segundo maior polo petroquímico nacional, mantém 60% da produção de arroz e possui um polo naval com produção de plataformas. Segundo ele, uma das estratégias do governo atual é a internacionalização de empresas.
A agenda da missão segue nesta sexta-feira (17) com visita à fabricante de ônibus Marcopolo, em Caxias do Sul. Participam da delegação diplomatas da Palestina, Sudão, Kuwait, Argélia, Omã, Catar, Egito, Líbano, Marrocos, Tunísia, Liga dos Estados Árabes, Jordânia, Mauritânia, Emirados e Arábia Saudita. A viagem é organizada pelo Conselho dos Embaixadores Árabes e a Câmara Árabe.


