São Paulo – Ampliar a competitividade das economias deve ser parte da agenda de reformas no Oriente Médio e Norte da África após a Primavera Árabe. A conclusão é do Fórum Econômico Mundial (FEM), que neste final de semana promoveu um encontro sobre crescimento econômico e geração de empregos no mundo árabe, no Mar Morto, na Jordânia.
“A Primavera Árabe oferece uma janela de oportunidades sem igual para promover a ampla prosperidade econômica que os cidadãos do Oriente Médio e Norte da África esperam”, afirmou o vice-secretário-geral da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Richard Boucher, no lançamento de um relatório sobre competitividade no mundo árabe.
De acordo com o FEM, os levantes populares que já levaram à queda dos regimes da Tunísia, Egito e Líbia colocaram em destaque os desafios socioeconômicos da região. Há, segundo a organização, necessidade de criar empregos para 2,8 milhões de pessoas todos os anos. Para tanto, é preciso criar políticas para três grupos populacionais especialmente afetados pelo desemprego: os jovens, os que têm educação superior e as mulheres.
O Fórum informou, em comunicado, que a região teve bom desempenho econômico na maior parte da última década, com crescimento anual médio de 5,2% de 2000 a 2008, contra 2,4% em média nos países da OCDE, que reúne algumas das maiores economias do mundo. No entanto, a crise financeira internacional, em 2008, e a Primavera Árabe, este ano, tiveram forte impacto na maioria das nações da região, com exceção de alguns países ricos em petróleo.
A extensão da recuperação econômica, diz o FEM, vai depender da velocidade dos processos de transição política na região, das reformas econômicas e da recuperação da economia global como um todo. “Medidas de apoio a um setor privado vibrante e competitivo são especialmente necessárias”, afirma o comunicado.
Durante a reunião, o rei da Jordânia, Abdullah 2º, declarou que a região “está às portas do futuro” e que estas “portas”, ou questões essenciais, são a dignidade, oportunidade, democracia, paz e justiça.
O monarca destacou que o mundo árabe precisa urgentemente de crescimento econômico, pois tem uma das taxas de desemprego entre os jovens mais altas do mundo. Segundo ele, são necessários 85 milhões de novos postos de trabalho. Para que o crescimento seja possível, Abdullah 2º ressaltou dois fatores essenciais: igualdade de condições e o império da lei.
O fundador e presidente do FEM, Klaus Schwab, acrescentou que a criação de empregos requer uma mudança de paradigma na educação que fomente o empreendedorismo e a assunção de riscos.
Aproveitando a ocasião, o presidente da Coca-Cola, Muhtar Kent, anunciou que a empresa vai investir US$ 5 bilhões no mundo árabe nos próximos 10 anos. Ele comparou a Primavera Árabe à queda do Muro de Berlim, em 1989, símbolo do fim da Guerra Fria. “É um ponto de inflexão para toda a região”, disse.
O primeiro-ministro do Catar, Hamad Bin Jasr Al Thani, ressaltou, por sua vez, que a Primavera Árabe será positiva se os líderes da região fizerem o dever de casa. “O povo não vai mais aceitar as coisas como elas eram antes de janeiro de 2011”, afirmou ele, referindo-se ao início das revoltas populares no Norte da África.
Líbia
Nesse sentido, o primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição da Líbia (CNT), Mahmoud Jibril, observou que os problemas econômicos do mundo árabe não são causados por falta de dinheiro, mas pelo fraco gerenciamento dos recursos disponíveis.
Na Líbia, que o CNT declarou livre no final de semana, após a captura e morte do ditador Muammar Kadafi, na última quinta-feira, um dos desafios, além de conseguir a união nacional, é substituir a renda finita do petróleo por outras fontes de riqueza. Para Jibril, “há uma janela de oportunidade limitada para construir uma economia alternativa”.
O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, representante do Quarteto das Nações Unidas para o Oriente Médio, disse que se o povo árabe não sentir um “progresso tangível” nos próximo três anos, haverá uma retomada das revoltas populares. O ex-secretário-geral da Liga Árabe, Amr Mussa, ressaltou que “as eleições são essenciais e as pessoas têm que aceitar seus resultados”.
“Precisamos demonstrar rapidamente os frutos da revolução em um país onde as armas estão amplamente disponíveis e onde os jovens estão impacientes”, disse o CEO da empresa Silatech, do Catar, Tarik Yousef, sobre a Líbia.

