São Paulo – Todos os anos grupos de brasileiros acompanham a realidade vivida pela população na Palestina como parte de um programa mantido pelo Conselho Mundial de Igrejas, uma organização ecumênica internacional. Neste mês de agosto dez pessoas passaram por um treinamento em São Paulo e estão prontas para viajar com a tarefa de acompanhar o cotidiano local, oferecer proteção aos mais vulneráveis e relatar abusos aos direitos humanos na região.
A iniciativa, chamada de Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e em Israel (Paepi), foi criada pelo Conselho em 2002, logo após o início da 2ª Intifada, revolta dos palestinos contra a ocupação israelense. Na época, chefes de igrejas cristãs de Jerusalém pediram a atenção da comunidade cristã mundial para o que estava acontecendo na região.
Para atender ao pedido e ajudar a fazer com que os direitos humanos fossem respeitados localmente, o programa foi criado, levando anualmente estrangeiros para passarem três meses na região. Em inglês, o programa se chama Ecumenical Accompaniment Programme in Palestine and Israel (Eappi). O conselho, de 1948, é integrado por várias igrejas cristãs como as ortodoxas e as luteranas. A Igreja Católica é um membro observador.
O coordenador institucional do Paepi, Alexandre Quintino, explica que o programa segue a lógica do acompanhamento. “Ir e ver a situação, vivenciar a partir da realidade local”, afirmou. Os voluntários selecionados para a viagem ficam três meses na Cisjordânia e seu trabalho tem três eixos. Um deles é reportar e documentar abusos aos direitos humanos. O segundo é ser uma presença de proteção e o terceiro é se articular com outras organizações que atuam na região.
Quintino explica que na questão dos abusos de direitos humanos, muitas vezes os voluntários do programa são os primeiros a chegar ao local do problema porque já criaram uma rede de contatos grande. Nestes casos, são eles que avisam outros organismos como as Nações Unidas ou Médicos Sem Fronteiras (MSF). Sobre a presença protetiva, ele conta que uma das bases do Paepi fica em Yanun, onde vive uma comunidade palestina pequena, mas cercada de assentamentos. “Só o fato de ter internacionais (estrangeiros) morando dá proteção”, afirma.
Na articulação com outras organizações que atuam localmente, os integrantes do Paepi também fazem ações juntamente com eles, como acompanhamento de crianças até a escola. Essa, aliás, é uma das atividades que se encaixa no objetivo de proteger os moradores locais.
O Paepi tem sete bases na Cisjordânia, que abrangem 80% do território. São casas inseridas no meio das moradias da população, que sempre estão se revezando no recebimento aos estrangeiros. Normalmente há 35 pessoas do Paepi distribuídas nestas bases, relata Quintino. Mas eles não são de um mesmo país. O objetivo é fazer com que cada grupo que chega seja integrado por pessoas de diferentes nacionalidades.
O Brasil começou a enviar voluntários há cinco anos. Os primeiros a viajar foram estudantes do curso de árabe da Universidade de São Paulo e membros de algumas igrejas. Atualmente vão dez voluntários brasileiros a cada ano. O próximo grupo já foi selecionado. Em dezembro deste ano começa o próximo processo de seleção.
Pré-requisitos
Para participar é preciso ter entre 25 e 70 anos, inglês fluente e conhecimento prévio do programa e alinhamento com seus princípios. As despesas da viagem e estadia são todas bancadas pelo Conselho Mundial de Igrejas. Quintino conta que os que procuram o programa no Brasil são principalmente jovens e recém-graduados. Agora começou a haver procura de pessoas mais velhas, segundo ele. Em outros países o perfil é de pessoas mais maduras.
O objetivo é que as pessoas que voltam aos seus países possam repartir sua experiência, através de palestras ou outros meios. Como parte disso, o Paepi organizou uma exposição de fotos sobre a realidade vivenciada nas viagens para comemorar os cinco anos da participação brasileira. As imagens foram buscadas junto aos voluntários que já participaram da iniciativa. Elas foram mostradas em São Paulo durante o treinamento do próximo grupo, serão expostas em Pernambuco neste mês e em setembro em Natal, no Rio Grande do Norte.
O Paepi afirma, em seu site internacional, que acredita em um futuro com o fim da ocupação da Palestina, no qual palestinos e israelenses desfrutem de paz, com liberdade e segurança baseadas no direito internacional. O programa diz que é sua missão testemunhar a vida sob ocupação, engajar palestinos e israelenses para que busquem a paz e mudar o envolvimento da comunidade internacional no conflito, chamando-a a agir contra a injustiça na região.
Mais informações:
Eappi (internacional): https://www.eappi.org/en
Peapi (Eappi Brasil): https://eappibrasil.wordpress.com/ ou https://www.facebook.com/PAEPI-EAPPI-Brasil-473426692696233/ – email: paepibrasil@gmail.com


