Isaura Daniel
São Paulo – Dez projetos brasileiros que têm como objetivo melhorar as condições de vida da população estão concorrendo ao Prêmio Internacional de Dubai de Melhores Práticas. A premiação é uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UN-Habitat) e da municipalidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e tem como objetivo reconhecer ações que ajudem cidades, bairros ou comunidades a viverem de maneira melhor. Concorrem ao prêmio deste ano 703 projetos de 88 países.
As 12 melhores iniciativas vão receber o prêmio entre outubro e novembro em Dubai. A data exata ainda não foi definida, de acordo com a gerente de Relacionamento Institucional da Caixa Econômica Federal, Stella Maris Martins Garcia. A Caixa é o organismo que seleciona os projetos brasileiros que participam do concurso. Ainda nesta semana, segundo Stella, devem ser conhecidos os 100 melhores trabalhos entre os inscritos e também os 48 finalistas.
Os projetos brasileiros que participam do concurso de Dubai foram selecionados em uma premiação parecida, que também tem como objetivo reconhecer as melhores práticas para melhoria das condições de vida no Brasil, promovida pela Caixa Econômica Federal. O banco criou o concurso com base no modelo da ONU. "A finalidade é incentivar a replicação de projetos bem sucedidos em outros países para que eles possam aplicar as mesmas soluções para problemas similares", explica a gerente.
Entre as iniciativas nacionais que concorrem ao prêmio de Dubai estão desde o Baú da Leitura, projeto do Movimento de Organização Comunitária, de Feira de Santana, na Bahia, que incentiva a leitura entre crianças que trocaram o trabalho com sisal pela sala de aula, até um programa de reciclagem de lixo implementado pela Prefeitura Municipal de Lençóis Paulista, interior de São Paulo. Os concorrentes são dos estados de Goiás, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Bahia.
Assentados
Um dos projetos é do assentamento Cascata, formado por ex-integrantes do Movimento dos Sem Terra da cidade de Aurelino Leal, na Bahia, que leva adiante a produção agrícola juntamente com um programa de gestão ambiental. No assentamento, que existe desde 1997, tem 587 hectares e onde vivem 40 famílias, 30% da fazenda é destinada à preservação ambiental. O governo brasileiro exige 20%. Em outros 40% é implementando um sistema agroflorestal de produção: produtos como cacau e banana são cultivados em meio a plantas da Mata Atlântica e outras espécies frutíferas.
"Ou seja, 70% da área é preservada", explica Luiz Costa, uma das lideranças do projeto. O programa foi implementado pela Cooperativa dos Pequenos Produtores e Produtoras Agroecologistas do Sul da Bahia (Coopasb), da qual os assentados fazem parte; o Movimento Sócio-ambiental Jupará, que trabalha pela preservação da Mata Atlântica; e a ONG Jupará. Nos demais 30% da fazenda são plantados alimentos como feijão, milho, mandioca e hortaliças e criado gado. Costa é coordenador de agroecologia da ONG.
O assentamento também tem em prática um sistema biodigestor de reciclagem de lixo orgânico. As cascas de frutas e o esterco animal são transformados em biogás, para secagem do cacau, e em biofertilizantes para uso nas plantações. Quando ainda estavam em um acampamento, as famílias do assentamento participaram de um programa de educação ambiental. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário são parceiros do assentamento no projeto.
Idéias do Brasil
Além dos três citados, também concorrem ao prêmio de Dubai sisaleiros de Valente, na Bahia, que se organizaram em associação para produzir e vender melhor; a cidade baiana de Mucugê que tornou a plantação das flores sempre-viva a sua marca; alunos de Orizona, em Goiás, que aprendem a ser agricultores ainda na escola; e famílias de agricultores da cidade gaúcha de Pelotas, que se reuniram para distribuir alimentos agroecológicos que produzem para a população carente.
Há ainda projetos como o Cooperserrana, pelo qual a população carente se reúne em cooperativa para construir suas casas; o Cerrado em Pé, de Diorama, em Goiás, pelo qual um grupo de agricultores leva adiante a produção e a preservação ambiental do cerrado; e um projeto de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, pelo qual famílias da periferia implementaram um programa urbanístico que melhorou as condições locais de vida e tirou moradores de áreas de risco.

