São Paulo – Independentemente de quem seja o próximo presidente do Brasil, ela ou ele terá que adotar medidas eficazes para fazer a economia crescer sem, contudo, comprometer os recursos naturais e o bolso da população.
De acordo com especialistas entrevistados pela ANBA, o próximo líder terá pela frente uma agenda de reformas como a tributária, planejamento de longo prazo da economia, preservação da Amazônia, muitos projetos de infraestrutura, redução da inflação e foco na competitividade. Confira abaixo as principais demandas do agronegócio, do desenvolvimento sustentável, em infraestrutura, comércio exterior e qual a política econômica ideal.
Macroeconomia
Professor de Economia da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP), Antônio Corrêa de Lacerda afirma que o desafio do próximo governo é reequilibrar o chamado “tripé econômico”, ou seja, manter a inflação dentro do centro da meta estabelecida em 1999 pelo Banco Central, manter o câmbio flutuante e o superávit primário, que é a economia feita para pagar os juros da dívida pública.
A meta anual de inflação é de 4,5% com variação de até dois pontos percentuais para mais ou para menos. No acumulado dos últimos 12 meses encerrados em agosto, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial, estava em 6,35%. O Produto Interno Bruto caiu 0,6% no segundo trimestre em relação ao primeiro trimestre. A expectativa de crescimento do País feita pelo governo é de 0,9% e o câmbio está subindo e o superávit está aquém da meta estabelecida pelo próprio governo.
Para Lacerda é preciso depender menos da variação da taxa de câmbio, adotar uma política fiscal mais sólida, que permita a redução da taxa de juros (atualmente em 11%) e é necessário fazer uma reforma tributária.
“O principal seria mudar a visão do papel do câmbio. O dólar atual está em R$ 2,30 devido aos mais de US$ 90 bilhões em swap (operação de câmbio) feitos pelo Banco Central. Se ele flutuasse mesmo, hoje estaria em R$ 2,50 ou R$ 2,60”, afirmou. “É preciso política fiscal mais sólida, que dê espaço para reduzir os juros (sem afetar a inflação), que hoje não estimulam a produção, o investimento. Essa política passa por redução de gastos e por uma reforma tributária”, afirmou o economista.
Agronegócio
Diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Luiz Cornnachioni, observou que a ABAG e o Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas divulgaram um documento em que indicam onde estão os principais desafios para o setor, o único a apresentar pequeno crescimento no segundo trimestre do ano em comparação com os três primeiros meses. O documento afirma que é preciso promover o desenvolvimento de cinco setores: desenvolvimento sustentável com foco na renda, crédito e seguro; competitividade, com melhoria de infraestrutura; produção orientada a mercados com acordos internacionais; segurança jurídica em relação à questão fundiária, legislação trabalhista e concessão de terras a estrangeiros; e governança institucional.
“Para alavancar o agronegócio é preciso passar por estes pontos. Precisa de uma economia melhor, de mais segurança, é preciso abrir mercados. Sem isso, não é possível evoluir nem crescer. Se não atacarmos estes problemas, vamos perder espaço (no cenário internacional). O preço das commodities não vai mais ser aquilo que foi nos anos anteriores. É preciso ter um Ministério da Agricultura forte e ter interlocução única com este ministério”, afirmou Cornnachioni.
Infraestrutura
Um dos principais desafios ao crescimento do Brasil está na infraestrutura do país. A partir de 2012, o governo começou a colocar em prática projetos de modernização de portos, aeroportos, ferrovias e rodovias. Alguns dos projetos saíram do papel. É o caso da concessão de aeroportos e rodovias à iniciativa privada. No ano passado, a presidente Dilma Rousseff sancionou novo marco regulatório dos portos, mas a concessão de ferrovias ainda está sendo discutida.
A analista de Políticas Públicas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ilana Ferreira, afirmou que o governo ampliou os investimentos em infraestrutura e observou que, apesar dos esforços, ainda é preciso investir mais. A CNI apresentou em julho um estudo em que mostra quais são os principais investimentos que precisam ser feitos pelo próximo governo para que a indústria volte a crescer. O estudo compreende desde aperfeiçoamentos nas legislações trabalhistas e tributária até as obras que reduzam os gargalos de transporte.
“Vimos que houve um grande desenvolvimento e também houve um esforço do governo em investir e melhorar (a infraestrutura). De 2001 a 2006 o Brasil investiu em média R$ 5 bilhões por ano. De 2007 a 2013 foram investidos R$ 11 bilhões em média por ano. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) foi importante. Só que a demanda cresceu e os esforços do governo não acompanharam esta demanda. O investimento demora para atender a demanda”, disse Ferreira.
Ela observou, porém, que o maior desafio é fazer o planejamento dos investimentos. “É preciso focar em planejamento de longo prazo. A infraestrutura demanda elaborar projetos complexos e tem uma gestão complexa de obras. São obras grandes”, afirmou Ferreira.
Além de planejar os investimentos, é preciso aumentar o valor destinado aos novos projetos. Entre 2001 e 2010, segundo dados da CNI, o Brasil investiu 2,1% do PIB em infraestrutura. A China investiu entre 7% e 8%. “O ideal seria aplicar entre 5% e 6% do PIB em infraestrutura por ano”, afirmou.
Desenvolvimento sustentável
Professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ademar Romeiro afirmou que os dois maiores desafios em desenvolvimento sustentável estão na construção de redes de saneamento básico e na adoção de uma política clara e organizada para a Amazônia.
Romeiro observou que a falta de saneamento não é um problema crônico de estados do Sul e do Sudeste, mas ainda provoca problemas de saúde na população e polui rios no Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil.
“No outro extremo dos desafios temos a Amazônia. Hoje, a Amazônia está sendo transformada em um pasto extensivo, com baixa produtividade. Queimar a Amazônia para fazer pasto é criminoso e é o que estamos fazendo”, afirmou.
“De fato existem algumas medidas sendo adotadas (para conter o desmate e as queimadas), mas os problemas imediatos continuam a preocupar. Uma das medidas práticas que estão sendo adotadas, mas precisa avançar, é o cadastro de propriedades rurais. É preciso que o governo tenha um controle sobre as terras públicas para que as políticas de desincentivo de desmate sejam adotadas”, disse Romeiro.
Comércio Exterior
Para que as exportações cresçam, o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, afirma que o próximo governo terá de fazer as reformas trabalhista e tributária, além de ter uma política centralizada e transparente para o setor. As exportações brasileiras estão caindo em relação ao ano passado. Neste ano, diz Castro, o Brasil perderá posições no ranking dos principais exportadores e a expectativa do setor é de queda nas receitas com os embarques do complexo soja e minério de ferro, alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil. Castro observou que o preço destas commodities está caindo e não deverá recuperar nos próximos os valores dos últimos anos.
“Hoje a política para o comércio exterior é isolada entre os ministérios. Ela precisa se integrar. Não pode ser uma política de ministérios, mas sim de governo”, disse. Castro identificou outros problemas na política de exportação do Brasil.
“O foco do comércio exterior hoje está na África e na América do Sul, que importam, cada uma dessas regiões, 3% das importações mundiais. Tem que mudar isso para Europa, Estados Unidos e China. No caso da China, a situação é um pouco diferente porque a China compra muitas commodities e as commodities se vendem. Mas desde 2003 o Brasil não realiza uma missão oficial, organizada por governo com empresários para os Estados Unidos. Tem um componente ideológico nisso, mas no comércio exterior não se pode ter ideologias”.
Ele também disse que o Brasil precisa fazer mais acordos comerciais e multilaterais. “Senão o país não cresce neste sentido e ainda vê outros países avançarem sobre parceiros nossos, como é o caso da China na Argentina”, afirmou Castro.


