Alta Floresta, Mato Grosso – O Instituto Floresta, ONG com sede em Alta Floresta, no norte do Mato Grosso, vai implementar um projeto de controle de queimadas na BR-163, de Guarantã do Norte (MT) a Santarém, no Pará, um trecho de mais de mil quilômetros. O trabalho ambiental faz parte das obras de reconstrução e pavimentação da estrada e o convite à organização foi feito pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), segundo a diretora presidente do instituto, Marília Carnhelutti.
Essa parte da rodovia Cuiabá-Santarém, majoritariamente de terra e em más condições, é considerada um dos principais gargalos logísticos do Brasil e, assim como a Transamazônica, é um símbolo da ocupação da região promovida durante a ditadura militar, que durou de 1964 a 1985. Na época, os colonos foram assentados sem a infraestrutura e a capacitação consideradas essenciais nos dias de hoje.
O projeto consiste na conscientização da população sobre os riscos e prejuízos das queimadas, além do ensino de técnicas alternativas ao uso do fogo e a formação de brigadas de incêndio, programa que a entidade já desenvolve em 17 municípios amazônicos com patrocínio do governo italiano. De acordo com Marília, o trabalho de campo deve começar em janeiro.
O projeto que a organização já realiza chama-se Amazônia sem Fogo e, segundo a diretora, nos últimos 10 anos não ocorreram mais incêndios descontrolados nas áreas atendidas, exceto este ano, quando a estiagem foi mais forte e prolongada do que o normal.
As queimadas podem ser provocadas ou acidentais e, além dos prejuízos materiais e ambientais, o fogo cria enormes nuvens de fumaça que afetam a saúde da população. “O fogo atinge a todos e só com o envolvimento de toda a sociedade podemos ter melhores resultados”, afirmou Marília.
Nesse sentido, o trabalho do instituto vai desde a formação de brigadas de incêndio, passando pelo ensino de como fazer queimadas controladas, até a capacitação dos agricultores em técnicas alternativas, como o manejo de pastagens por meio de rotação das áreas usadas para alimentar o gado, entre outras.
Um dos produtores que já participaram do programa é o sitiante Ércio Luedke, dono da Piscicultura Esteio, em Alta Floresta. Nascido em Chapecó, Santa Catarina e descendente de imigrantes alemães, ele se mudou para Mato Grosso na década de 70 para trabalhar na construção civil. Em 1979, tendo juntado dinheiro suficiente, comprou a propriedade de 55 hectares.
“Nosso instinto era queimar”, disse Luedke sobre o uso do fogo para abertura de áreas no início do negócio. Ele conta que o raciocínio era de que a queimada acabava com as pragas, evitava o trabalho de roçar o mato e, acreditava-se, que os brotos chamuscados eram bons para o gado.
Hoje o manejo de sua propriedade é feito por meio de rotação de culturas. Embora seu principal negócio seja a criação de peixes amazônicos, ele produz também leite, frutas, aves, mel e produtos florestais. Os tanques para os alevinos, por exemplos, são utilizados como alimentação para o gado na época da estiagem.
Mas ele não aprendeu tudo com os “doutores”, como diz, mas, na maioria das vezes, na base de erros e acertos. Foi por causa da tentativa fracassada de produzir laranjas que Luedke entrou no negócio do pescado.
Ele conta que, assim que comprou a propriedade, adquiriu e plantou mudas de laranjeiras, que foram imediatamente devoradas pelas formigas. Mas logo ele descobriu que a carpa gosta de formigas e comprou três exemplares importados do Japão. “Paguei o valor de duas vacas”, disse. As carpas alimentadas com formigas deram certo e a criação de peixes prosperou.
Hoje o sitiante não cria mais carpas, nem dá formigas para seus peixes, que são alimentados com ração e peixes menores. “Haja formiga”, brincou. Ele trabalha com várias espécies locais, principalmente o tambaqui.
Em sua propriedade, são produzidas entre 30 mil e 40 mil toneladas de pescado por ano, que até já foram exportadas para a China e o Japão. Curiosamente seu principal mercado está em Manaus, capital do Amazonas, onde os exemplares da espécie foram drasticamente reduzidos pela pesca comercial.
Reflorestamento
Outro exemplo de aprendizado na prática ocorreu também na área de cítricos. Ele plantou árvores de mexerica poncã que, mais tarde, descobriu que estavam doentes. Abandonou o pomar, sem arrancá-lo, e plantou espécies nativas ao redor. Após o reflorestamento, as árvores frutíferas sararam e começaram a produzir. “As árvores [nativas] da nossa região vão eliminado as doenças que vêm de fora”, destacou.
Feliz com sua produção diversificada, Luedke diz que oferece mercadorias para todos os bolsos. “Quem não tem dinheiro para comprar um ganso, compra um pato; e quem não pode comprar um peru, compra um galo, e arrota peru”, brincou.
Marília e o biólogo do instituto, Marcos Roberto Tiso, mostraram, aos integrantes da Jornada E.torQ Amazônia, entre eles a reportagem da ANBA, outros exemplos de produção sustentável e de reflorestamento na região. A viagem de carro pela Amazônia é patrocinada pela FTP, fábrica de motores da Fiat.
Um deles é o condomínio de agricultores Agrosul, que produz açúcar orgânico. Sete famílias cultivam cana e fabricam açúcar mascavo, rapadura e melado em uma pequena agroindústria. Entre os sitiantes estão os irmãos Cícero e José Santana Rampaso, nascidos no Paraná.
“A cana nunca foi adubada, só utilizamos calcário para a correção do solo”, disse Cícero. O negócio com os orgânicos começou há cinco anos e o condomínio já exportou para a Áustria. A comercialização é feita pela Cooperativa dos Agricultores Ecológicos do Portal da Amazônia (Cooperagrepa). Da propriedade saem ainda leite, abacates, café, guaraná e gado de corte.
Já o paulista João Martins Bernal cuida de sua chácara por prazer, já quem tem renda garantida pelo aluguel de imóveis na cidade e de uma fazenda na região. Além de plantar diversas árvores frutíferas e hortaliças, ele reflorestou a maior parte de sua propriedade com plantas nativas. “Eu planto porque gosto”, afirmou o simpático senhor de 76 anos.
Outros sitiantes, como Ana Lopes de Souza e Gabriel Mendes dos Santos, estão recuperando parte da cobertura vegetal de suas terras com auxílio de um programa da Secretaria de Meio Ambiente da Floresta.
Já Salvador da Silva, de Ribeirão Preto, virou um verdadeiro ativista do meio ambiente e tornou-se especialista em plantas medicinais. Após fazer vários cursos e ler muito sobre tratamentos chamados de “bioenergéticos”, passou a atender, com a ajuda da mulher, Célia, pessoas da região e a receitar chás de ervas colhidas em sua propriedade.
“Nossa Amazônia é muito rica”, declarou. “Temos coisas para curar o mundo”, acrescentou. Com os filhos, ele produz também alguns alimentos orgânicos, como guaraná, café e mel. Silva tem ainda alguns pés de cacau. “Mas os macacos comem tudo”, disse rindo.
Contatos
Instituto Floresta
Tel.: +55 66 3521-1428 / 2128
E-mail: marilia@institutofloresta.org.br
Piscicultura Esteio
Tel.: +55 66 3521-3441
Cel.: +55 66 8404-1212
Cooperagrepa
Tel.: +55 66 3534-1884
E-mail: cooperagrepa@yahoo.com.br
Site: www.bioagrepa.com

