São Paulo – As novas medidas anunciadas pelo governo para estimular a indústria, especialmente a de veículos, são consideradas positivas por economistas, mas provavelmente não terão o mesmo efeito das ações semelhantes adotadas em resposta à crise financeira internacional de 2008, que resultaram em forte recuperação do ramo automobilístico.
"Não será [uma resposta] com o mesmo vigor de 2008", disse nesta terça-feira (22) o professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Celso Grisi. "Naquela época a demanda estava bastante deprimida e as famílias estavam menos endividadas", acrescentou o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério Cesar de Souza.
Na segunda-feira, frente à desaceleração da economia brasileira, cenário agravado pela crise europeia, o governo reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos carros, chegando a zerá-lo no caso dos veículos com até 1.000 cilindradas; diminuiu o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) dos empréstimos para compra de automóveis; liberou, para a mesma finalidade, parte do depósito compulsório dos bancos junto ao Banco Central; e a ainda cortou os juros do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para aquisição de bens de capital.
Os efeitos não deverão ser sentidos imediatamente, provavelmente só no segundo semestre, e não serão suficientes para fazer a economia crescer tanto quanto o governo esperava, ou seja, 4,5%. A expectativa dos economistas é que, com os incentivos, o Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB) deverá avançar cerca de 3%.
O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconheceu, nesta terça-feira, que o PIB vai crescer menos do que o esperado, mas ele acredita ainda em um avanço de 4%, segundo reportagem da Agência Brasil.
Souza ressalta que a indústria automobilística tem uma "cadeia produtiva muito grande" e capacidade de "reagir de forma muito rápida", o que, aliado à trajetória de baixa dos juros básicos, deverá gerar impacto positivo na economia como um todo.
Grisi acrescenta que o pacote de medidas "é feliz" porque as montadoras e os bancos, os principais beneficiados, davam sinais de que poderiam promover demissões nos próximos meses.
Investimentos
Com as novas medidas, mais uma vez o governo aposta no consumo para alavancar a economia. Embora o País ainda tenha bastante espaço no mercado interno, os economistas avaliam, porém, que o aumento do endividamento das famílias e dos níveis de inadimplência nos últimos meses mostra que botar todas as fichas nessa aposta não será suficiente no futuro.
É preciso fortalecer a economia pelo lado do investimento. O investimento direto no Brasil – público, privado e estrangeiro – corresponde a 19% do PIB, quando o mínimo para garantir um crescimento de 3% seria de 21%, segundo Grisi.
Nesse sentido, é preciso, por um lado, de acordo Souza, desonerar os investimentos com medidas de longo prazo, como uma reforma tributária, adiada por sucessivos governos brasileiros há bem mais de uma década. O próprio Mantega disse que é preciso fazer a reforma e reduzir impostos. "São necessárias ações de longo prazo, para toda a economia, não só para um setor específico", declarou Souza.
Na mesma linha, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, ressaltou, de acordo com a Agência CNI, que as ações para estimular o consumo devem ser seguidas de outras estruturais, de longo prazo. "Temos de estender a redução do IPI a vários outros setores, atingindo a cadeia produtiva e não somente o produto final", disse.
Por outro lado, na opinião de Grisi, como os investimentos nacionais públicos e privados não são suficientes para garantir o crescimento sustentável do PIB, o Brasil precisa parar de dar sustos no capital estrangeiro. Para ele, as medidas cambiais adotadas desde o primeiro semestre do ano passado, para conter a valorização do real, e a briga do governo com os bancos pela redação das taxas de juros dos financiamentos, somadas ao recrudescimento da crise europeia, levaram à suspensão ou ao adiamento de investimentos estrangeiros diretos, junto com a forte saída de recursos externos aplicados nos mercados de capitais e financeiro.
Na avaliação de Grisi, as sucessivas mudanças no IOF cobrado nas transações externas, o relaxamento das políticas monetária e fiscal e o embate com os bancos fazem o mercado brasileiro "perder previsibilidade" e "segurança jurídica", o que afasta o investidor estrangeiro.
Ele ressalta, no entanto, que a tendência do capital estrangeiro, passado o pior da crise internacional, é migrar para mercados emergentes com fundamentos econômicos sólidos. Nesse sentido, o fato das medidas lançadas na segunda-feira terem sido feitas em acordo com a indústria e com os bancos, sinalizando uma "reconciliação", são positivas também para melhorar a imagem externa do Brasil.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban), por exemplo, informou, segundo a Agência Brasil, que as medidas vão contribuir para a redução do spread bancário. "Essas medidas contribuirão para acelerar o crescimento, para a expansão do crédito a taxas maiores que o crescimento do PIB e para a continuada redução do spread bancário e do custo das operações de crédito", diz nota da entidade.

