São Paulo – Anuar Nahes passou os últimos quatro anos como embaixador do Brasil em Doha, capital do Catar. Somando com outras funções que ele ocupou, são mais de 14 anos dedicados às relações do País com o mundo árabe, metade de sua carreira diplomática. Tal experiência será essencial para o próximo desafio desse paulista de Santa Adélia: comandar a embaixada brasileira em Bagdá, no Iraque.
O convite veio no primeiro semestre deste ano e não precisou ser feito duas vezes. Nahes não tem apenas o Oriente Médio no currículo, mas também no sangue, pois é neto de sírios, como seu nome denuncia. Seu avô paterno veio para o Brasil em 1902, primeiro trabalhou como mascate e depois se tornou agricultor. Dos antepassados imigrantes pegou o gosto pelas viagens e pela exploração.
“Meu pai sempre foi aventureiro, no sentido positivo da palavra, viajava muito, algumas vezes quase morreu”, disse o diplomata. “Então desde cedo eu peguei o gosto por isso, coisa de descendente de imigrantes”, acrescentou.
Como diplomata, Nahes já serviu na missão brasileira junto à ONU, em Nova York, nas embaixadas em Caracas, Paris, Damasco e Túnis, foi chefe da Divisão do Oriente Próximo do Itamaraty, participou da organização da Cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa) e depois ficou encarregado das atividades de seguimento do encontro.
Agora ele será o responsável por reabrir uma embaixada fechada há duas décadas, desde a Guerra do Golfo, em um país que tem sido palco de episódios de extrema violência. E o medo? “Medo? Nem um pouco”, responde. “Vou tomar os cuidados devidos. Medo você adquire. A criança, por exemplo, não tem medo, ela tem que aprender a ter”, acrescenta.
Formado em Letras e Pedagogia, ex-músico profissional e ex-professor de português, Nahes cita Guimarães Rosa para falar sobre os riscos: “Viver é muito perigoso”. Como exemplo, ele conta que o pai, após ter sobrevivido às viagens, caiu morto em casa ao abrir a geladeira.
Em Bagdá
O diplomata deve desembarcar no Iraque no início de 2012, ele tem orientação de logo se estabelecer em Bagdá. Por segurança, a representação brasileira ainda funciona em Amã, na vizinha Jordânia. Nahes pretende passar somente alguns dias na capital jordaniana para resolver questões administrativas.
Ao chegar à cidade iraquiana, porém, o novo embaixador não terá que começar do zero. O atual ocupante do cargo, Bernardo de Azevedo Brito, vai deixar muita coisa preparada. Embora tenha fixado residência em Amã, Brito esteve diversas vezes em Bagdá e em outras regiões do Iraque. Nahes vai encontrar a estrutura da embaixada pronta para o uso com imóveis, segurança e logística. Não se trata do mesmo local que foi utilizado pelo Brasil até a Guerra do Golfo, mas de algo totalmente novo.
Além disso, Brito deixa vários contatos feitos nos últimos anos e informações preciosas para seu sucessor sobre quem é quem no país, oportunidades de negócios, áreas passíveis de cooperação e de intercâmbio diplomático. “Ele fez um excelente trabalho”, afirmou Nahes.
De posse das informações de Brito, Nahes marcou uma série de reuniões com empresas, entidades setoriais e órgãos públicos brasileiros para travar contatos que podem ser importantes no futuro. Ele acredita que há oportunidade para promover cooperação técnica em áreas como capacitação de pequenas empresas, agricultura familiar e geração de empregos, e para fomentar o comércio em setores como os de carnes, produtos médicos, máquinas e equipamentos e petróleo.
Intercâmbio
Sua primeira tarefa será continuar a mapear o funcionamento político do Iraque, ver como a sociedade local se organiza. “O Brasil terá que reaprender a se representar em um país que mudou estruturalmente nos últimos anos”, declarou Nahes.
Assim que possível, ele quer identificar os interesses comuns das duas nações com vistas a “retomar uma parceria que foi muito importante nos anos 70 e 80”, quando o Iraque chegou a ser um dos principais parceiros comerciais do Brasil. Sobre suas expectativas, Nahes disse que espera que o país árabe se pacifique e permaneça como um estado federal e democrático.
Ele afirmou também que existem programas sociais brasileiros bem sucedidos que podem ser aplicados em outros países em desenvolvimento. Este pode ser um caminho para a cooperação. “Mostrar o que o Brasil fez e que deu certo. Este é um bom canal de relacionamento humano, pois não se trata só de vender produtos”, ressaltou.
No mais, o diplomata acredita que a existência de uma embaixada vai facilitar o trânsito de pessoas entre os dois países e, por consequência, os negócios. “O Iraque é um país rico, mas precisa se reconstruir, e o Brasil tem condições de participar desse processo”, disse. “O Brasil tem um grande ativo no Iraque, deixou um bom nome, uma boa forma de trabalhar. Deixou produtos, obras e serviços de qualidade.”
Como exemplo ele citou o comércio bilateral em 2010, que ultrapassou os US$ 1 bilhão “só na inércia”. “Imagine com ações [de promoção] nos dois sentidos”, destacou.

