Alexandre Rocha, enviado especial
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Riad – A Arábia Saudita quer ampliar as importações de produtos agropecuários brasileiros para garantir o abastecimento de seu crescente mercado de consumo. “Precisamos de tudo, tudo o que vir será consumido”, disse ontem (27), em Riad, o diretor geral de laboratórios e controle de qualidade do Ministério da Indústria e Comércio do país, Mohammed Al-Debasi, durante reunião com representantes da Câmara de Comércio Árabe Brasileira e do Ministério da Agricultura.
Além do aumento da demanda, ocasionado pela liquidez proveniente do petróleo e por hábitos locais, o país, que já é um grande importador de alimentos, está reduzindo plantações com objetivo de economizar água para o consumo humano.
“Temos milhares de hectares destinados à agricultura, mas não sei se isso vai continuar por causa da questão da água”, declarou, durante outro encontro realizado ontem, o assistente do secretário-geral do Conselho das Câmaras de Comércio e Indústria da Arábia Saudita para Assuntos Econômicos, Abdulrahman Al-Kanhal.
A delegação brasileira teve reuniões no Ministério da Agricultura, no Ministério da Indústria e Comércio e no Conselho das Câmaras. Durante todas as conversas ficou clara a necessidade do país ampliar suas importações agropecuárias. Os sauditas falaram da demanda por bovinos vivos, frango, ovos, lácteos, milho, soja, entre outras mercadorias.
O diretor-geral de Quarentena de Plantas e Vegetais do Ministério da Agricultura, Abdul Ghaniy Al-Fadhl, por exemplo, ficou surpreso ao saber que o Brasil tem cerca de 200 milhões de cabeças de gado, o maior rebanho comercial do mundo. “Por que vocês ainda não exportam animais vivos para o nosso país?”, questionou.
A Arábia Saudita tem criações de gado, ovelhas, cabras e camelos para a produção de carne e leite, mas precisa importar animais principalmente para reprodução. Atualmente o país importa de países como Síria, Argentina, Uruguai, Paraguai, Sudão e Djibuti. Só em carneiros e ovelhas são compradas 5 milhões de cabeças por ano.
Segundo Al-Fadhl, a produção de leite é importante para o país, que até exporta lácteos para outros mercados da região. Ele disse, por exemplo, que a fazenda Al-Assafi é a maior fazenda de lácteos do mundo. “Está no Livro dos Recordes”, garantiu. Os sauditas, no entanto, precisam importar gado leiteiro para procriação.
No caso dos frangos, o país foi atingido recentemente por um surto de gripe aviária e, além de importar a carne da ave, precisa comprar ovos fertilizados e pintos de um dia, que hoje vêm de países como Estados Unidos e Alemanha.
O secretário de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério da Agricultura do Brasil, Célio Porto, disse que o governo brasileiro quer promover a exportação de itens que sejam complementares para a economia saudita e não competir com a produção local. “Não temos problemas para importar do seu país”, afirmou Al-Fadhl.
O secretário-geral da Câmara Árabe, Michel Alaby, ressaltou que o gado brasileiro é totalmente alimentado com pasto e ração vegetal e Porto acrescentou que o país jamais teve um caso sequer do mal da vaca louca. “Abatemos 40 milhões de bois por ano”, disse.
Diversificar fornecedores
Al-Debasi, do Ministério da Indústria e Comércio, destacou que a Arábia Saudita quer também ampliar o número de empresas brasileiras fornecedoras de carne bovina e frango, pois poucas companhias abastecem hoje o mercado local. Porto afirmou que o governo brasileiro tem como objetivo também aumentar a quantidade de companhias exportadoras, especialmente as de médio porte. Al-Debasi acrescentou que os consumidores sauditas têm como hábito comprar mais alimentos do que precisam, um dos fatores do aquecimento da demanda.
Khaled Otaibi, assessor econômico do Conselho das Câmaras, destacou que o setor privado tem ganhado cada vez mais importância no país, respondendo hoje por 44% do PIB saudita. “E o Brasil é nosso parceiro estratégico”, afirmou. Al-Kanhal acrescentou que, além da redução da área plantada, será construída uma grande fábrica de ração animal no país, aumentando ainda mais a demanda por insumos como cevada, milho e soja. “Precisamos de grandes quantidades de produtos para isso”, afirmou.
Com o vice-secretário-geral do Conselho das Câmaras, Fahad Aslimy, e com os representantes do governo saudita, a delegação brasileira começou a alinhavar a realização de novas missões empresarias e governamentais sauditas ao Brasil e brasileiras à Arábia Saudita. A conclusão foi que a melhor maneira de ampliar o comércio é o contato cara-a-cara.
Participaram das reuniões também o embaixador do Brasil em Riad, Isnard Penha Brasil Júnior, o vice-presidente de Marketing da Câmara Árabe, Rubens Hannun, o coordenador de desenvolvimento de mercados da entidade, Rodrigo Solano, e o Diretor do Departamento de Promoção Comercial do Ministério da Agricultura, Eduardo Sampaio Marques.

