Randa Achmawi, especial para a ANBA
Cairo – "Se o século 20 foi dos norte-americanos e dos europeus, devemos fazer com que o século 21 seja o nosso". Este foi um dos destaques da entrevista que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu ao editor-chefe do jornal egípcio Al-Ahram, Ibrahim Nafie, em Brasília. A matéria ocupou a terceira página e foi manchete da primeira edição de sexta-feira (08) do diário escrito em árabe com o seguinte título: "Brasil reafirma a importância da participação do Egito na cúpula América do Sul-Mundo Árabe."
O título foi inspirado na declaração de Lula em que ele pede ao presidente do Egito, Hosni Mubarak, que vá pessoalmente ao Brasil para o evento que ocorrerá nos dias 10 e 11 de maio. "Permita-me renovar meu convite ao presidente Hosni Mubarak para que venha ao Brasil participar da cúpula, para que ele possa se expressar aqui, junto a nós, sobre a importância e o poder do Egito", disse Lula, que acrescentou que o país é o "Farol do Oriente Médio". "Por isso precisamos de um pouco de sua luz", afirmou.
Com uma tiragem diária de 1,2 milhão de exemplares, o Al-Ahram é o maior jornal da região. Fundado em 1876, é também o mais antigo do Egito. Nafie, que também é presidente do conselho do grupo Al-Ahram, esteve no Brasil na semana passada liderando uma delegação de jornalistas egípcios. Ele fez a entrevista com lula na segunda-feira (04). Parte da reportagem foi reproduzida na edição semanal em inglês do jornal sob o título "Brasil como um farol". A expressão usada aí no sentido de "guia".
Lula ressaltou a importância da cúpula para a concretização dos interesses dos árabes e sul-americanos. "É necessário que os países pobres do sul, ou em fase de desenvolvimento, e com situações econômicas semelhantes, se alinhem num só bloco para fazer pressão sobre os países ricos, obrigando-lhes a uma maior flexibilidade nas mais diversas questões", declarou o presidente. "Noto que o Egito vai numa direção e o Brasil em outra. O mesmo pode ser dito do México ou da Índia. Evidentemente esse tipo de conduta não serve aos interesses de ninguém, senão daqueles que impõem sua hegemonia sobre as diversas instituições internacionais, especialmente a Organização Mundial do Comércio (OMC). No entanto, quando nos unirmos para defender nossos interesses comuns, seremos mais capazes de obter sucesso", acrescentou.
Segundo Lula, os países árabes e sul-americanos, mesmo sendo nações em desenvolvimento, têm um potencial muito grande de cooperação. "Todos nós nos dirigimos sempre aos norte-americanos e aos europeus, mas nunca tentamos nos encontrar e conversar uns com os outros", afirmou. "Fico sempre me perguntando porque a América do Sul não olha mais para o mundo árabe e porque os árabes também não prestam mais atenção em nós”, disse.
Lula ressaltou também a importância de fazer com que as causas sociais se transformem em questões políticas na arena internacional. “Somente assim os ricos vão reconhecer sua importância”, declarou, acrescentando que os países pobres se limitam em falar de miséria, pobreza e sofrimento. Fato que, segundo ele, não traz soluções para estes problemas. “Se falar da pobreza ou da miséria resolvesse o problema não haveria nem pobreza nem miséria no mundo”, afirmou.
Para ele, sem uma mobilização em grande escala em nível mundial, nenhum país rico dará atenção alguma à luta contra a pobreza. O presidente brasileiro lembrou da proposta apresentada por ele e os presidentes da França, Jacques Chirac, do Chile, Ricardo Lagos, e pelo primeiro-ministro espanhol, José Luís Rodriguez Zapatero, sobre a criação de um fundo internacional de combate à pobreza e à fome, que deverá ser finalizado durante a reunião da Assembléia Geral da ONU em setembro.
Lula deu também grande ênfase às ações de seu governo, especialmente no que diz respeito ao crescimento da economia, mesmo com o ajuste fiscal, e aos programas sociais, como o Fome Zero, o Bolsa Família e a reforma agrária.
O Fórum Social Mundial de Porto Alegre também foi citado como importante para se criar uma noção de globalização “por baixo”, como alternativa à globalização “por cima” propagada pelo Fórum Econômico Mundial de Davos.

