Alexandre Rocha
São Paulo – A Síria está promovendo um processo de abertura econômica para se integrar à economia internacional. Entre as medidas tomadas estão a liberalização do comércio exterior e a concessão de incentivos para os investimentos estrangeiros diretos. Para falar sobre este assunto com os empresários brasileiros é que o ministro da Economia e Comércio do país árabe, Amer Lutfi, esteve em São Paulo para uma visita de dois dias.
Ele visitou a sede da Câmara de Comércio Árabe Brasileira e concedeu uma entrevista exclusiva à ANBA. Lutfi garantiu que no prazo de seis meses a um ano e meio haverá a liberalização total do comércio exterior. "Nós estamos transformando a economia da Síria em uma economia de mercado, que vai se integrar à economia mundial", declarou.
O governo já autorizou, por exemplo, a importação de roupas e calçados prontos, coisa que era vedada até pouco tempo atrás. "Isto será feito de forma gradual. Agora nós liberamos as importações de têxteis, depois virão os setores de alimentos, engenharia, química, até chegarmos à liberalização total", garantiu.
Com relação aos investimentos, Lutfi disse que a Síria oferece isenção total de impostos durante cinco anos, renováveis por mais dois, para empreendimentos nas áreas agrícola, industrial e de serviços, desde que sejam cumpridos alguns requisitos, como a geração de um certo número de empregos e a exportação de parte da produção. Para ele, como a economia está se abrindo, agora é a hora de investir. "Quem investir agora vai conseguir um retorno alto, pois serão os primeiros. Os brasileiros estão convidados a investir na Síria e a realizar grandes lucros", afirmou.
Lutfi, de 49 anos, é doutor em análise econômica pela Universidade Livre de Bruxelas e professor na Faculdade de Economia da Universidade de Aleppo, na Síria. Ele ocupa o cargo de ministro há um ano. A seguir os principais trechos da entrevista:
ANBA – Quais são os objetivos desta viagem do ponto de vista econômico?
Amer Lutfi – O eixo principal desta visita é falar das reformas econômicas que estamos realizando na Síria em todos os setores, como o monetário, bancário, financeiro e a liberação do comércio exterior. Em outras palavras, nós estamos transformando a economia síria em uma economia de mercado, que vai se integrar na economia internacional de forma positiva. Então eu quero explicar pessoalmente os detalhes do clima para os investimentos na Síria.
O senhor pode dar detalhes sobre o processo de abertura da economia para o exterior?
Por exemplo, a partir deste ano nós nos tornamos membro da Área de Livre Comércio Árabe, que prevê o intercâmbio de mercadorias sem impostos entre os países da região.
Mas isto vale apenas para os países árabes…
Nós assinamos também um acordo de livre comércio com a Turquia, que vai entrar em vigor a partir de 2006, e estamos aguardando a finalização de um acordo com a União Européia. Apresentamos também o pedido para entrar na Organização Mundial do Comércio (OMC) e este assunto será debatido agora em Hong Kong, onde será realizada a sexta reunião sobre o tema. Quanto aos investimentos, nós oferecemos incentivos nas áreas agrícola, industrial e de serviços. E novas regras estão sendo elaboradas, mais de acordo com a conjuntura atual. No mês passado, por exemplo, uma empresa dos Emirados Árabes Unidos anunciou que vai investir US$ 4 bilhões na Síria.
Este investimento será na área de construção civil, certo?
Sim, vão construir resorts e prédios comerciais. Está havendo um grande fluxo de recursos de investidores sírios que vivem no exterior e também de investidores de outros países árabes.
O senhor poderia dar exemplos dos incentivos que o governo sírio pode conceder?
A lei sobre investimentos que está em vigor garante isenção de impostos pelo prazo cinco anos, que pode ser prorrogado por mais dois, caso a empresa realize os objetivos necessários, como a exportação de grande parte de sua produção e a geração de empregos.
Quais são os requisitos que a empresa tem que cumprir?
Normalmente a empresa apresenta um projeto, no qual ela detalha quantos postos de trabalho pretende criar, qual porcentagem da produção será exportada e o nível de tecnologia que será empregada. São os três elementos principais para que o projeto se enquadre na lei e consiga os incentivos. É livre a remessa de lucros e a entrada de dinheiro no país.
Com relação ao Brasil, que tipo de abertura há para um país que não tem acordo comercial com a Síria? A importação de calçados prontos, por exemplo, não era permitida há pouco tempo.
Eu mesmo baixei uma resolução recentemente autorizando a importação de todo tipo de roupa pronta, masculina, feminina, infantil, e de artigos de couro, inclusive calçados.
Mas isso se aplica também a outros produtos?
Nós estamos fazendo uma reforma econômica e dentro dela está a liberalização do comercio exterior. Isto será feito de forma gradual. Agora nós liberamos as importações de têxteis, depois virão os setores de alimentos, engenharia, química, até chegarmos, no prazo de seis meses a um ano e meio, à liberalização total.
Este prazo conta a partir de agora?
A partir de agora. Anteriormente nós já tínhamos diminuído os impostos sobre os produtos que as indústrias sírias importam, dos insumos, para que elas possam concorrer na hora da abertura do mercado. Por isso o processo tem que ser gradativo, para que nossas indústrias possam se preparar para agüentar a concorrência.
O senhor acha possível atrair investimentos brasileiros para a Síria?
Em primeiro lugar nós convidamos as empresas e oferecemos todas as facilidades necessárias, e mais do que isso: elas vão conseguir grandes lucros na Síria. Por quê? Porque quando a economia funciona dentro de um sistema planificado e centralizado, ela produz menos oferta do que a procura exige. Quando nós tomamos a decisão de mudar para um regime de mercado, significa que queremos mudar para um sistema que tenha abundância. Enquanto a oferta for menor do que a demanda, quem investir lá vai ganhar dinheiro. E o investidor não vai vender seus produtos somente para o mercado sírio, mas para todos os países com os quais a Síria já tem acordo. São cerca de 300 milhões de pessoas, no caso do mundo árabe, além da Turquia. Quem investir agora vai conseguir um retorno alto, pois serão os primeiros. Daqui a 10 anos será grande o número de concorrentes e os lucros serão menores. Então os brasileiros estão convidados a investir na Síria e a realizar grandes lucros.
Em quais setores o senhor vê oportunidades para empresas brasileiras?
Em três setores importantíssimos. Primeiro o setor de turismo. A Síria é um país cheio de história, tem muitas relíquias e antiguidades, tem quatro estações bem definidas, tem praias lindíssimas e há uma grande falta de empreendimentos nessa área. O segundo setor é a indústria alimentícia. Existe uma grande riqueza agropecuária que pode ser aproveitada e vendida para todo o mundo árabe. O terceiro é o setor de energia, de petróleo e gás, de refino de petróleo. São todos setores promissores.
A Síria precisa de mais refinarias de petróleo?
Nós só temos duas e a capacidade de refino é menor do que a produção de petróleo, então nós exportamos uma parte do petróleo em bruto e importamos os derivados. Nós precisamos de mais refinarias, uma ou duas, dependendo da capacidade de produção.
O comércio do Brasil com a Síria vem crescendo, mas ele é muito concentrado em alguns produtos: no caso do Brasil, no açúcar, e da Síria, nas naftas. O que fazer para diversificar a pauta?
Ela pode ser diversificada. Tendo preço bom vai haver intercâmbio. Por isso eu afirmo a importância do Conselho Empresarial Brasil-Síria. Ele pode dar dinamismo para o comércio entre os dois países. O papel do governo é apenas garantir o quadro legal para agilizar os negócios e é isto que nós estamos tentando fazer.
O senhor identifica algum produto brasileiro que poderia fazer sucesso na Síria e vice-versa?
Sabemos, por exemplo, que o Brasil é famosa na indústria do couro. Então os empresários brasileiros e sírios devem se mexer para aumentar as exportações brasileiras nesse setor. Como também a Síria é conhecida por suas roupas masculinas, que podem ser vendidas para o Brasil. No final das contas é tudo uma questão de concorrência: quem aumenta a qualidade e diminui o preço, claro que vai fazer mais negócios.

