Damasco – O governo da Síria elegeu como prioridade o desenvolvimento da agricultura com o objetivo de garantir a auto-suficiência do país em alimentos. A informação foi dada nesta quarta-feira (22) pelo primeiro-ministro sírio, Mohammad Naji Otri, ao presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Salim Taufic Schahin, durante reunião em Damasco.
“Esse é um objetivo político, porque se conseguirmos, estaremos numa situação mais tranqüila”, disse Otri a Schahin, que estava acompanhado do embaixador brasileiro na Síria, Edgard Casciano, e do também diretor da Câmara Árabe, Sami Roumieh. O ministro da Emigração Síria, Joseph Sweedy, também participou.
O primeiro-ministro destacou que o país sofreu com um grave problema de seca recentemente e precisa modernizar a produção. “A questão da água é fundamental aqui, ela é pouca e queremos melhorar nossas terras”, afirmou.
Nesse sentido, Schahin disse que o Brasil é muito forte na área e dispõe de alta tecnologia, desenvolvida principalmente pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Na sua avaliação, o Brasil pode ajudar a Síria nessa seara.
Ele citou como exemplo o desenvolvimento de sementes, técnicas de plantio e irrigação adaptadas ao clima semi-árido do Nordeste brasileiro. Em algumas áreas da região, o nível de produtividade agrícola é hoje um dos mais altos do mundo.
Otri declarou, no entanto, que não há perigo imediato de falta de alimentos na Síria, pois, segundo ele, o país tem estoques estratégicos que, em caso de necessidade, podem durar um ano e meio. O primeiro-ministro destacou que, após uma forte seca há dois anos, houve uma boa safra este ano.
Em alguns produtos, de acordo com Otri, a Síria até acumula excedentes, como no caso das frutas, hortaliças e legumes. A produção total desses itens chega a um milhão de toneladas por ano. Ele ressaltou, porém, que o país precisa encontrar formas mais adequadas para exportar tais mercadorias e ganhar divisas com isso. “O governo está preocupado em como exportar esses produtos”, afirmou.
O primeiro-ministro citou ainda o exemplo das azeitonas. Segundo ele, o país tem 85 milhões de oliveiras e está em quarto lugar entre os produtores, competindo com a Tunísia. Otri afirmou que, para incentivar a agricultura, o governo compra a produção dos agricultores por preços que chegam ao dobro do mercado internacional, medida que, segundo ele, garante a continuidade do plantio mesmo em épocas de preços baixos.
Há também desenvolvimento local de tecnologia agrícola. Otri disse que a Síria desenvolveu, por meios próprios, variedades de algodão naturalmente coloridas, cujos fios podem ser tecidos sem o uso de tinturas. Algo semelhante foi criado no Brasil pela Embrapa e o cultivo ocorre justamente na região Nordeste. Ele destacou que o produto representa um diferencial importante num mundo onde há cada vez mais demanda por produtos naturais.
Para Schahin, um projeto de cooperação tecnológica entre o Brasil e a Síria na área agrícola seria algo “excelente”. Otri acrescentou que seu governo tem interesse também em saber mais sobre a produção brasileira de etanol para uso como combustível. “Devemos parar para analisar o que está sendo feito, e o Brasil tem uma experiência de liderança nessa área”, declarou.
Diversificação
A Síria tem nas exportações de petróleo uma parte importante de suas receitas e há preocupação no país com o desenvolvimento de outras áreas da economia. Mais cedo, o ministro da Economia, Amer Lutfi, disse a Schahin que a produção da commodity caiu de cerca de 400 mil barris por dia para 360 mil atualmente. “Estamos exportando menos derivados e importando mais”, afirmou. “Exportamos o petróleo bruto e importamos derivados, a balança [do setor] é deficitária”, acrescentou.
Otri declarou, no entanto, que há avanços em outras áreas, como na indústria. Segundo ele, nos últimos cinco anos foram criadas quatro áreas industriais de 1,7 mil hectares cada, onde foram instaladas três mil fábricas. Mais recentemente, houve também a abertura do sistema bancário para a iniciativa privada, antes totalmente dominada pelo poder público.
Em sua avaliação, a abertura econômica, aliada à falta de endividamento externo, tem permitido ao país crescer em média 5,5% ao ano, mesmo em meio às sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos durante o governo do ex-presidente George W. Bush.
Existe hoje na Síria muita expectativa sobre o futuro das relações com os EUA, já que o presidente Barack Obama tem adotado um discurso mais conciliador, inclusive com a decisão de nomear um novo embaixador em Damasco. Desde 2005 a embaixada norte-americana está sob a responsabilidade de um encarregado de negócios.
“Antigamente falavam que a Síria era o problema do Oriente Médio. Agora aqui, nesta sala onde estamos, já ocorreram conversas em que disseram que a Síria é a solução”, disse Otri, referindo-se a visitas recentes de autoridades norte-americanas ao país.
Schahin aproveitou as reuniões desta quarta-feira com quatro ministros sírios para reiterar o convite feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que seu colega sírio, Bashar Al Assad, visite o Brasil. A transmissão do recado foi um pedido do chanceler brasileiro Celso Amorim, feito durante uma reunião com Schahin na sexta-feira passada, em Brasília.
O ministro da Informação, Mohsen Bilal, que também recebeu Schahin, disse que há dois anos existem planos de uma visita presidencial a diversos países da América Latina, inclusive ao Brasil, mas por diversos motivos ela ainda não ocorreu. Ele acrescentou que espera que ocorra em breve.

