Marina Sarruf
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São Paulo – O Hospital Sírio-Libanês vai mergulhar de cabeça na pesquisa por princípios ativos extraídos de plantas da floresta Amazônica e da Mata Atlântica. O objetivo é desenvolver medicamentos contra doenças como câncer, hipertensão, entre outras. A partir do ano que vem, o hospital vai ter um laboratório, em parceria com a Universidade Paulista (Unip), para ajudar na identificação dessas substâncias.
A parceria entre as duas instituições foi assinada ontem (17) no Instituto de Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês. Os responsáveis pelo projeto são os pesquisadores Dráuzio Varella, médico oncologista, e Riad Younes, diretor clínico do Sírio-Libanês. A entidade vai investir R$ 600 mil no novo laboratório. "Esse projeto vai nos permitir abrir uma frente de produção científica que poderá ser uma fonte enorme para o nosso país", afirmou Younes, que nasceu no Líbano e é naturalizado brasileiro.
Segundo ele, o laboratório integrado das duas instituições usará uma metodologia que poderá ser aplicada em vários modelos, possibilitando estudos em diversas linhas. "Basta criar um modelo para que a pesquisa se abra para diversos campos de doenças", disse. O superintendente do hospital, Maurício Ceschin, acrescentou ainda que esse projeto é bom tanto para o país quanto para a Amazônia. "Estamos abrindo uma nova fronteira."
De acordo com Varella, estima-se que o Brasil tenha 20% da biodiversidade terrestre, o que significa uma variação de 50 mil a 100 mil espécies de plantas diferentes. "Acho que nenhum país do mundo tem uma biodiversidade como a nossa", afirmou. Os pesquisadores das plantas da Floresta Amazônica e da Mata Atlântica contam com o patrocínio da Unip, que já tem um laboratório em São Paulo onde foram classificadas mil espécies de plantas e obtidos 2,2 mil extratos vegetais.
Segundo Varella, dos 1,2 mil extratos testados para o combate de tumores, 72 apresentaram atividade contra pelo menos uma das células tumorais humanas. Também já foram testados extratos antibacterianos e antioxidantes. Depois de identificar as atividades dos extratos é preciso ainda fracioná-los para se chegar na substância. Após a identificação dessa substância, o composto poderá ser testado em animais.
"Esse é um projeto que parece fácil, mas não é. Para identificar os princípios ativos dos extratos é preciso equipamentos sofisticados e parcerias", disse Younes. Ele afirmou ainda que, com a parceria do Sírio-Libanês, os extratos vão ter um melhor controle de qualidade. De acordo com ele, para se chegar ao produto final – pronto para o consumo-, demora-se em média de 15 a 20 anos desde o momento da colheita de uma planta.
Projeto rio Negro
Nos últimos dez anos Dráuzio Varella participou de mais de 50 expedições à bacia do rio Negro, no estado do Amazonas, com uma equipe multidisciplinar de pesquisadores. As viagens foram feitas a bordo do barco-escola da Unip, chamado Escola Natureza. As plantas coletadas na região pelos pesquisadores eram identificadas, classificadas, separadas e testadas. O projeto também recebe o a apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
A iniciativa busca desenvolver tecnologia para investigar a atividade farmacológica de produtos naturais em sistemas que sirvam de modelo para patologias humanas, além de treinar alunos de iniciação científica e novos pesquisadores na área.
Segundo o reitor da Unip, João Carlos Di Gênio, a Escola da Natureza surgiu em 1992 com o objetivo de trabalhar a preservação do meio-ambiente. Com o passar dos anos, a universidade passou a trabalhar também com biotecnologia e hoje seu herbário conta com mais de 5 mil espécies. "É o maior banco de dados da floresta", disse.
Em 2001, Varella coordenou o livro Florestas do rio Negro, escrito pelo botânico Alexandre de Oliveira. A obra reúne trabalhos de vários colaboradores sobre a biodiversidade botânica da região amazônica e foi indicado para o Prêmio Jabuti em 2002. As viagens pelo rio também renderam o documentário Histórias do rio Negro, produzido por Paulo Roberto Schmidt e Maria Clara Fernandez, lançado este ano.
No longa, Drauzio Varella conduz as entrevistas feitas com os moradores da região, resultado do trajeto de 1,1 mil quilômetros percorrido pelo rio Negro, de São Gabriel da Cachoeira até Manaus.
Médico, professor e escritor
Drauzio Varella é médico oncologista, formado pela Universidade de São Paulo (USP). Foi um dos fundadores do Curso Objetivo, onde lecionou química durante muitos anos. Trabalhou na área de doenças infecciosas do Hospital do Servidor Público de São Paulo, durante 20 anos dirigiu o serviço de imumologia do Hospital do Câncer e também do Hospital do Ipiranga.
Deu aulas em várias faculdades do Brasil e em instituições no exterior, como o Memorial Hospital de Nova York, a Cleveland Clinic (EUA), o Instituto Karolinska de Estocolmo, a Universidade de Hiroshima e o National Cancer Institute de Tóquio.
Foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS no Brasil e participou de várias campanhas sobre a prevenção da doença. Também participou de diversas séries de televisão sobre corpo humano, primeiros socorros e combate ao tabagismo.
Varella ainda trabalhou como médico voluntário dentro do complexo presidiário do Carandiru, em São Paulo, desativado em 2002, experiência que ele relatou no livro Estação Carandiru, que posteriormente inspirou o filme Carandiru.

